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4 de julho de 2015

Contos para uma Noite Fria, de Bruno Anselmi Matangrano e Llyr Editorial (Editora Vermelho Marinho)

Contos para um Noite Fria
Bruno Anselmi Matagrano - Llyr Editorial / Editora Vermelho Marinho
Ilustração: Dandi
120 páginas - 201 - R$26,00 - comprar

Sinopse:
"Ao abrir "Contos para uma Noite Fria", prepare-se para entrar em um universo de histórias fantásticas, de sobrenatural, absurdo e distopia, onde sonhos se tornam pesadelos e cenários misteriosos viram delírios apocalípticos.
A inquietação e o medo (do estranho ou de nós mesmos), então, ganham vida, com vários estilos e temáticas. E, apesar da diversidade – que vai da melancolia do artista a possíveis futuros e devaneios em torno de si –, um tipo específico de linha costura todas as narrativas: uma grande perturbação. E, em vez de querer escapar, você se verá envolvido por este universo tão louco quanto um mundo de cabeça para baixo."

Resenha:
Contos para uma Noite Fria é uma publicação nacional da Editora Vermelho Marinho sob seu selo Llyr Editorial. Lançado em final de 2014, a obra reúne doze contos do autor Bruno Anselmi Matangrano. Ele já publicou histórias em diversas coletâneas e também participou da organização de outras. Entretanto, este foi meu primeiro contato com o trabalho do Bruno e foi uma surpresa muito agradável.
A Vermelho Marinho está de parabéns por todo o projeto do livro, realmente é um exemplar caprichado. A parte gráfica é bela, começando pela capa maravilhosa e lúdica ilustrada por Dandi, também responsável pelas ilustrações internas. Cada conto possui um desenho que o representa. O miolo possui páginas amareladas e o papel é leve e de boa qualidade. Algumas páginas têm cores invertidas, com fundo preto e fonte branca; o efeito funcionou nas páginas que contêm as ilustrações, além de combinar bem com a proposta do livro. O exemplar possui orelhas, capa fosca e a revisão e diagramação estão perfeitas, não encontrei erros.



A ideia principal é fazer o leitor se sentir como na capa: Reflexivo em um mundo de cabeça para baixo, aparentemente sem regras e, ainda assim, observar a beleza e a melancolia da vida com tranquilidade. A obra mistura e provoca embates, especialmente entre sanidade e loucura, realidade e imaginação.
São contos curtos, sem desperdício de páginas, mas que cumprem dois objetivos: Entretêm e causam reflexões; dependerá da experiência e subjetividade de cada leitor. São histórias em prosa escritas com notável talento. Você percebe o cuidado do autor ao escolher as palavras, deixando o texto coeso, mesmo quando trata do absurdo. Bruno apresenta o equilíbrio raro de texto fluído e dinâmico com um vocabulário rico e admirável, mas sem floreios. É uma leitura prazerosa e admirável, mantendo beleza artística e simplicidade no acesso do leitor às situações e sensações.
Costumo gostar de contos, porém muitos leitores fogem do formato por falta de apego; afirmam que quando se adaptam ao enredo e se acostumam com a(s) personagem(ens) a história termina. Provavelmente isso costuma ocorrer porque ou autor não conseguiu surpreender / comover ou, simplesmente, o leitor não está habituado. Portanto, recomendo Contos para uma Noite Fria, pois os contos, embora breves, são repletos de provocações, sentimentos e considerações - será uma boa forma do leitor ingressar na apreciação de contos. Para os que já gostam, o livro será maravilhoso.
Importante: Possui variados gêneros fantásticos. Se você gosta de contos com personagens comuns e situações habituais, talvez esta não seja uma leitura para você. Mas se você quer sair da sua zona de conforto, esta é a oportunidade ideal. Já fãs de ficção especulativa com pegada psicológica vão adorar todos ou quase todos os contos.
Aqui o leitor encontrará o sobrenatural e a fantasia em formatos distópicos e apocalípticos, viagens no tempo e espaço, suspense, mistério e a insanidade que todo ser humano carrega escondida. Não é uma leitura para pessoas que têm preguiça ou não gostam de buscar interpretar e sentir além das palavras. São contos simples, porém o leitor não pode ficar preso ao sentido literal do conteúdo. É para viajar, imaginar e criar, tentar observar as situações com seu próprio ponto de vista, tentar mergulhar na visão psicológica que cada pequena história pode trazer. Dependerá de você, pois o autor deixa as ferramentas. Se observar bem encontrará críticas sociais e questionamentos existenciais!


Conto a conto, sem spoilers, porém mostrando um pouco do livro: Minha experiência foi ótima. É leitura rápida, mas de degustação mais lenta. Raramente pauso para fazer algumas observações sobre o que leio, mas compus um pequeno histórico. Além disso, entrei no clima, lendo durante uma madrugada (relativamente) fria.
Duas observações: Todo conto traz uma epígrafe para fazer o leitor tentar imaginar o que vem em seguida. Estão ligadas ao texto, mas o leitor não é obrigado a conhecer as referências. A segunda observação é que todos os contos são em primeira pessoa (exceto o segundo conto que mistura primeira e terceira pessoas).
Após uma abertura rápida com Prefácio e Introdução, vem o primeiro e surpreendente conto, O Viajante. O leitor se sente tão perdido como o protagonista. É rápido e sagaz como um bom thriller e possui excelente e inesperado desfecho.
 O segundo conto, senti afeição por ele logo na epígrafe, por ser um trecho de uma música que adoro (Unwell, Matchbox Twenty). O Germe da Imaginação é formidável, pois mescla fantasia e distopia. Apresenta uma mensagem avassaladora envolvendo censura e a necessidade psicológica e espiritual que o ser humano tem de fantasiar e imaginar. A narrativa central é em terceira pessoa, mas é intercalada com vários trechos em primeira, porque o protagonista compõe um diário.
Em Estátuas conhecemos uma casa mal assombrada e a agonia do protagonista em um conto curto, mas complexo. É uma combinação que aprecio sempre e me passou a mensagem de que às vezes é inevitável deixarmos coisas para trás na vida, mesmo importantes, mesmo pessoas. Pode ter o sentido de que separações são necessárias; não devemos parar de viver intensamente, mesmo que seja assustador e nostálgico.

O quarto conto foi mais uma surpresa positiva. Apresenta descrições perfeitas e por ser a imagem da capa, me impressionou! Acredito que Gravidade às Avessas possa ser interpretado de variados modos. Visualizei um literal e um figurado. A situação bizarra pode ser levada ao pé da letra, como um acontecimento de ficção científica; ou pode representar o sentimento de se sentir deslocado do mundo, invertido, diferente, e ainda assim, encarar com neutralidade e tranquilidade.
O quinto conto é de arrepiar, todo mundo tem uma experiência estranha enquanto dorme ou tenta dormir... especialmente quando não sabemos se estamos ou não acordados. Sonho e realidade se misturam em A Dama de Branco, que creio eu ter sido inspirado em uma lenda urbana argentina, especialmente pelo destaque dado a porta.
Em seguida vem um conto triste e estranhamente bonito: A Melancolia do Piano. O tempo e a morte não matam certas coisas. Objetos têm história e, quem sabe, sentimentos? A epígrafe se refere a composições de 1888 (Trois Gymnopédie) e por desconhecê-la, a procurei para ouvir online.

O sétimo conto é outro excelente e um dos meus preferidos. O Futuro da Humanidade, pós-apocalíptico. Por intermédio da dor de sobreviver ao apocalipse, o protagonista enfrenta o perigo e desespero do tédio e solidão. A tentativa da personagem em enfrentar o sofrimento será apreciada por todos os leitores e o final pesa.
Seria o amor mais forte que a morte? É a pergunta que Encontro às Escuras criou em mim. Esse foi o conto de que menos gostei, provavelmente porque não absorvi a epígrafe, mesmo após buscar e ler Noivado do Sepulcro (Soares de Passos) - o conto é ligado ao poema. Mas é bom por ser uma história romântica e de cemitério!
O nono texto é sobre maldição: A Donzela e o Rubi. Senti um frio na espinha. Assim como A Dama de Branco, o autor traz outra história com uma mulher misteriosa. Objetos podem ser poderosos e já conheci muitas histórias estranhas envolvendo joias e pedras preciosas.

O próximo conto mistura sonhos e uma constante dúvida da maioria: sonhos podem ser premonições? Em Mise en Abyme ou Como um Poema de Poe, o autor brinca novamente (e impressiona) com um protagonista que não ter certeza se está sonhando ou acordado.
Beco dos Aflitos é outro conto excelente, com o fantástico bastante explícito. Mito, crença e a dificuldade de um cético em acreditar no absurdo se misturam. Ou seria um cético um tanto fantasioso que não assume a imaginação? Gostei da história do local e do festival também. Crer ou não crer, eis a questão do conto.
O último fecha a coletânea muito bem, outro que adorei: Entre o Tempo e o Espaço. Pode ser encarada como uma continuação (ou não) do primeiro conto (O Viajante). A loucura vista pelos olhos de quem sofre dela, seu ponto de vista, ou seja, sua realidade. Pelo ponto de vista do louco, a insanidade é a veracidade.
Então entra a minha interpretação particular: Seriam todos os contos de sua imaginação? Do mesmo narrador? Soa interessante, mas é apenas minha sensação. Descubra a sua e tenha uma boa surpresa ao conhecer a obra do Bruno Anselmi Matagrano. Mergulhe em uma noite fria e tente dissecar as profundezas da mente humana em contos criativos, elaborados e inteligentes.

Contos preferidos: O Germe da Imaginação, Gravidade às Avessas, O Futuro da Humanidade e Entre o Tempo e o espaço.

O Autor:
Bruno Anselmi Matangrano é bacharel em Letras e mestre em Literatura Portuguesa, pela Universidade de São Paulo (USP), onde atualmente faz seu doutorado. Fascinado pelo século XIX, dedica suas pesquisas às literaturas simbolista, fantástica e policial do período. Como contista, publicou em diversas coletâneas e organizou algumas outras. Vive em meio a seus livros, ouvindo Coldplay, vendo filmes do Tim Burton, querendo ser Sherlock Holmes e tentando entender Mallarmé.
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