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26 de agosto de 2015

Esperança, de Amanda Berry, Gina DeJesus, Mary Jordan, Kevin Sullivan e Editora Paralela (Companhia das Letras)

Esperança (Hope: A Memoir of Survival in Cleveland)
Dez Anos de um Cativeiro: um Relato de Superação em Cleveland
Amanda Berry, Gina DeJesus, Mary Jordan e Kevin Sullivan - Editora Paralela / Grupo Companhia das Letras
Tradução: Guilherme Miranda
384 páginas - 2015 - R$39,90
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Sinopse:
"Ariel Castro, um motorista de ônibus escolar, enganou Amanda Berry, Gina DeJesus e Michelle Knight para que entrassem em sua casa, onde as manteve acorrentadas por anos. Ao longo da década seguinte, as garotas sofreram abusos sexuais e psicológicos e foram ameaçadas de morte. 
Em Esperança, Amanda Berry e Gina DeJesus descrevem uma história de tormenta inimaginável com base em suas memórias e no diário mantido por Amanda. Com a ajuda dos premiados repórteres Mary Jordan e Kevin Sullivan, elas narram a história completa por trás das manchetes - incluindo detalhes nunca antes revelados sobre a vida e motivações de Castro -; um relato assombroso, mas inspirador, de duas mulheres cuja coragem, inocência e fé permitiram que sobrevivessem e voltassem para suas famílias."

Resenha:

Amanda Berry, Gina DeJesus e Michelle Knight são três mulheres que passaram aproximadamente uma década em cativeiro doméstico. Permaneceram acorrentadas na casa do sequestrador, na Avenida Seymour, na cidade de Cleveland, em Ohio, nos Estados Unidos. Ariel Castro, nascido em Porto Rico, músico e motorista de ônibus escolar, pai e avô, as enganou e as sequestrou. Elas sofreram violência e estupros diários, mas jamais perderam a esperança.
Michelle foi a primeira vítima. Ela desapareceu em agosto de 2002, aos 21 anos de idade; Amanda foi sequestrada em abril de 2003, na véspera de seu aniversário de 17 anos; Um ano depois (abril de 2004) Ariel sequestrou a terceira menina, Gina, de apenas 14 anos. As três foram libertadas somente em 06 de maio de 2013. Isso não é ficção!
Amanda e Gina decidiram contar suas histórias acerca dos acontecimentos terríveis. Não se fixam aos abusos e sofrimento, porque planejaram mostrar superação e esperança, além de chamar a atenção para os casos de pessoas desaparecidas.
Receberam a ajuda dos repórteres Mary Jordan e Kevin Sullivan para compor esta biografia. A base (além das memórias) são textos de Amanda em um diário com mais de mil páginas. Ela usou um caderno e folhas soltas; escrevia até mesmo em guardanapos, embalagens de lanches e alimentos e caixas de papelão ao avesso. Ariel Castro gravou horas de vídeos caseiros, encontrados após a liberdade das vítimas.
Os repórteres, além de ajudarem Amanda e Gina na organização, realizaram um árduo trabalho coletando informações fora do cativeiro. Revisaram milhares de páginas de relatórios policiais e registros tribunais, assistiram a horas de gravações dos interrogatórios do criminoso e entrevistaram parentes e amigos dos envolvidos, incluindo os familiares de Castro. A dupla conseguiu mostrar como acontecia a investigação policial e como as famílias de Amanda e Gina estavam.
Hope: A Memoir of Survival in Cleveland foi publicado no Brasil pela Editora Paralela (Grupo Companhia das Letras) como Esperança: Dez Anos de um Cativeiro, um Relato de superação em Cleveland. A editora levou apenas 4 meses para traduzir e publicar a biografia.


A foto utilizada na capa é da casa de Castro, o cativeiro das mulheres. Olho para as fotografias e até agora não consigo pensar como elas ficaram presas ali, sem ninguém jamais perceber, desconfiar ou encontrá-las. Não consigo imaginar. Dói. Completando a capa, o título em destaque: a palavra "esperança" como uma pintura manual, pois elas a escreviam sempre que possível, chegando a pintá-la nessa cor pelo minúsculo quarto em que sobreviviam.
Começar uma leitura delicada e ciente que não é ficção me deixou angustiada e aflita. Precisava saber como elas se mantiveram vivas. Estava preocupada se eu teria uma experiência emocionalmente exaustiva ou se a obra teria um tom extremamente dramático e doloroso. Ou apelativo, devido aos estupros. Não foi o que aconteceu. É triste, devastador, mas sem exploração exagerada da violência.
As partes de Amanda e Gina são em primeira pessoa e é complicado explicar, mas mesmo muito sentimentais, não se focam nos abusos, embora tenham sido estupradas quase que diariamente e sempre mais de uma vez ao dia. As situações já são terríveis apenas por terem acontecido, então diferente do que comumente é feito nos textos ficcionais, não ocorre a exploração do sofrimento.
Apanharam e enfrentaram terrores inimagináveis. Castro roubou delas a liberdade e uma década, mas elas o venceram, sendo mais fortes, usando como resistência a fé e a esperança de reencontrarem seus entes queridos e retomarem suas vidas.
A melhor parte do livro para mim foi o momento de liberdade e o período seguinte. Torcia (e torço) pela felicidade delas e seus familiares.
O desenvolvimento da obra segue ordem cronológica, introduzindo muito rapidamente como Amanda e Gina viviam com suas famílias e como foram enganadas e raptadas por Castro. Já presas na Avenida Seymour, relatam o dia a dia. De horas a dias, de dias a semanas, de semanas a meses, de meses a anos e o desespero.
Cada capítulo se refere a um momento e, conforme necessário, há a indicação da voz responsável (Amanda ou Gina). Elas narram como se fosse presente, para ficar mais fácil do leitor acompanhá-las. O texto é direto e muito simples. Amanda tem mais páginas que Gina, provavelmente pelo fato de ter mantido um diário desordenado, porém real, durante o cativeiro. Parece que Amanda escreve melhor ou simplesmente gosta mais de fazê-lo (ou se sentiu mais a vontade que Gina). De qualquer forma, são relatos íntimos e particulares.

Os capítulos sobre os acontecimentos fora da casa são em terceira pessoa, como um documentário. O texto é organizado, interessante e altamente informativo. A "reportagem" se interliga corretamente aos "diários", compondo uma biografia completa.
A leitura foi muito rápida, pois me senti tão triste com o inferno que elas enfrentaram e também tão admirada pela força, coragem e fé mantidas! Mesmo em meio ao caos, dor e depressão elas pensavam na liberdade e no amor das famílias. Li quase tudo de uma vez e ao chegar ao meio do livro fiquei em choque com as fotos. Sério, são piores que a imaginação. Recomendo que observem as fotografias e leiam suas legendas após o término, porque se você não souber como terminou o sequestro, encontrará spoilers (não que seja uma leitura para se preocupar com isso, visto que é real e possivelmente você já viu alguma notícia sobre o caso). Depois realizei pesquisas na internet em busca das notícias da época.
Amanda e Gina explicam que Michelle, a vítima que permaneceu mais tempo nas garras de Castro, foi convidada a escrever com elas a biografia. Michelle recusou a parceria e preferiu escrever sozinha (Finding Me: A Decade of Darkness, a Life Reclaimed, publicado nos Estados Unidos em 2014, inédito no Brasil) sua biografia. Pelo que encontrei a respeito, optou por contar toda a sua vida por completo, não apenas o sequestro.
Devido a isso, Michelle é citada somente quando necessário e de modo superficial. Não havia outra alternativa para Amanda e Gina a não ser respeitar Michelle. À princípio fica meio estranho notar Michelle "fora de cena", ainda mais parecendo que ela era o alvo principal da violência. Gina passou muito tempo dividindo um cubículo com ela, incluindo a cama. E mesmo assim, Gina narra evitando incluir Michelle (assim como Amanda também evita). Espero que Michelle tenha respeitado Amanda e Gina da mesma forma em sua biografia.

Amanda Berry, Gina DeJesus e Michelle Knight.
A obra me trouxe sentimentos e pensamentos incontáveis; sobre a vida, a fé e em como o ser humano é capaz de reações e comportamentos extremos. Como Castro foi capaz de prender, torturar e estuprar três mulheres por onze anos? Como ele permanecia com a consciência leve após humilhá-las? Como as pessoas conseguem ser tão más? Ele dizia repetidamente que "era a vítima", porque "sofrera abusos" e era "deprimido e viciado em sexo". Ele dizia que todo o sexo com elas fora "consensual" e que "elas não viviam mal", além de formarem uma "família harmoniosa". Ele foi oficialmente diagnosticado com "Transtorno de Personalidade Narcisista com traços Antissociais". Castro era completamente egocêntrico, frio, muito violento e desprovido de empatia.
Possuía histórico de violência doméstica e eu penso: Como ele não fora preso? Se tivessem levado até o fim as acusações, teria sido preso e talvez não tivesse sequestrado ninguém. E supondo que os sequestros seriam inevitáveis, os repórteres apresentam no texto situações em que Castro cometeu infrações no trabalho ou no trânsito e se as tivessem levado a sério, talvez encontrassem pistas sobre três sequestradas em sua residência! Uma situação mais chamativa e repetitiva ocorria (não falo para não soltar spoiler) e mesmo assim ninguém desconfiou de tal coisa! Ele mesmo debochava em como a polícia não procurou por Michelle e como foi falha nas buscas por Amanda e Gina.
Os parentes de Castro chegavam a ir a residência dele e até entravam na casa. Como nunca desconfiavam de nada? Durante a leitura pensei nisso como absurdo total! A família apenas o achava "excêntrico" e desconfiava que era um "acumulador". Achavam natural não visitar o andar de cima ou o porão. Porque o pai / irmão tinha tralhas e lixo por toda a parte e não "gostava que mexessem em suas coisas". Outra coisa que atrapalhava muito: Pistas falsas e trotes. Desrespeito!
Por outro lado pensei na garra, força e coragem delas. Não desistiram de viver, não abandonaram a esperança e crença em Deus e no reencontro com seus parentes. Amanda e Gina viam na TV que suas famílias continuavam procurando por elas e isso era suficiente para mantê-las firmes com seus sonhos.
Refleti sobre como às vezes podemos ser ingratos; em como reclamamos sobre coisas fúteis; em como dificuldades cotidianas, quando comparadas ao sofrimento verdadeiro e aos traumas violentos, não significam nada.
Amanda e Gina compartilham essa lição de vida. Amanda, Gina e Michelle são guerreiras pela resistência ao sequestro de Cleveland. Meu total respeito e admiração por não se envergonharem e se esconderem.
Uma biografia forte, chocante e inesquecível recomendada a todos os públicos.

Observação: A sociedade precisa refletir: violência doméstica, infrações frequentes, maus tratos aos animais, comportamento agressivo constante, dentre outras coisas, costumam esconder indivíduos capazes de atos terríveis. Se você sabe que um homem bate na companheira, por exemplo, denuncie à polícia. Repare nas fotos de pessoas desaparecidas ou criminosos procurados em sua região e caso tenha informação, telefone ao disque-denúncia ou polícia.

Os autores:
Mary Jordan e Kevin Sullivan são repórteres do jornal The Washington Post. Correspondentes internacionais de longa data, já trabalharam em Tóquio, na Cidade do México e em Londres. Em 2003, ganharam o prêmio Pulitzer de reportagem internacional.
São autores de The Prison Angel: Mother Antonia’s Journey from Beverly Hills to a Life of Service in a Mexican Jail. Moram em Washington, D.C., com seus dois filhos.

Os autores com Amanda e Gina:



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