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11 de setembro de 2015

A Escolha de Yasmeena, de Jean Sasson e BestSeller (Grupo Editorial Record)

A Escolha de Yasmeena (Yasmeena's Choice)
Uma História Real de Guerra, Estupro, Coragem e Resistência (A Story of War, Rape, Courage and Survival)
Jean Sasson - BestSeller / Grupo Editorial Record
Tradução: Felipe José Lindoso
256 páginas - 2015 - R$35,00
Comprar: AmazonAmericanasLivraria Cultura | Fnac | Livraria da FolhaLivraria da TravessaLivraria Saraiva

Sinopse:
"A história real de guerra, estupro, coragem e resistência de uma libanesa durante a invasão do Kuwait pelo Iraque.
Em um relato emocionante, Jean Sasson compartilha com o mundo a história real de Yasmeena, uma linda e corajosa comissária de bordo libanesa.
Quando Saddam Hussein invade o Kuwait, atrasando o voo de Yasmeena, soldados iraquianos levam-na à prisão feminina, onde suas memórias trazem à tona impiedosos ataques sexuais, incansáveis torturas e um desolador cenário sociopolítico.
Em A Escolha de Yasmeena, o leitor terá acesso à angustiante realidade de ser a favorita do Capitão da prisão e proteger sua amiga, Lana, de um brutal estuprador. Neste enredo instigante, percorra junto de Sasson o momento da fuga destemida e o encontro, em refúgio, com a paz."

Resenha:
A Escolha de Yasmeena é uma história verídica sobre o rapto de uma jovem mantida como escrava sexual em meio à guerra. A autoria é de Jean Sasson, americana que morou por vários anos na Arábia Saudita e há décadas visita todo o Oriente Médio, sempre em busca de histórias de pessoas comuns, mas que precisam ser ouvidas pelo mundo inteiro. A obra foi publicada originalmente em inglês em 2013 e a Editora BestSeller (do Grupo Editorial Record) a lançou no Brasil em agosto de 2015. Agradeço a editora por publicar Jean Sasson. Este foi meu primeiro contato com seu trabalho e já estou desejando ler outros livros de sua autoria.
A capa é bonita e traz o olhar intenso de uma mulher com o rosto misturado a uma estampa árabe. Sua boca está escondida atrás do título e o fundo é vermelho como sangue, porque esta é uma história real de uma mulher estuprada. É uma obra voltada ao público adulto.
O exemplar da BestSeller é bem-feito, apresentando orelhas, papel off-white (é amarelado) e perfeitos trabalhos de revisão e diagramação. Ao centro do livro foram colocadas as fotos da visita autora ao Kuwait, com legendas e explicações interessantes. Essas páginas são de material diferente, lisas e brilhantes.
Esta foi uma produção muito delicada. Desde o momento em que a escritora se encontrou com "Yasmeena" até o lançamento do livro se passaram 14 anos. O encontro das duas ocorreu 7 meses após a desocupação do Kuwait pelo Iraque. Jean Sasson foi uma das 146 pessoas convidadas pelo governo kuwaitiano para estar no Voo da Liberdade, em março de 1991. O motivo foi seu livro best-seller The Rape of Kuwait, que completava 6 meses e trazia relatos de kuwaitianos refugiados no Egito, na Arábia Saudita e na Inglaterra que contaram suas experiências durante a invasão do Kuwait. Com o fim da guerra Jean foi ao país ver por conta própria a destruição e entrevistar os sobreviventes do conflito, para uma nova publicação.
Dentre tantas histórias impressionantes, uma sobressaiu-se. Um relato representando vários; uma mulher representando tantas mulheres estupradas, aprisionadas e mantidas em cativeiro por soldados. Muitas vítimas e somente uma ávida para contar.

Crimes contra civis durante conflitos são muito comuns, especialmente o estupro, ato terrível utilizado com frequência como demonstração de poder. O assunto é delicado em qualquer situação, mas aqui, torna-se quase uma proibição, porque para os muçulmanos a virgindade e honra da mulher estão diretamente ligadas. O sexo é tabu, assunto que não deve ser discutido, nem mesmo quando em forma de estupro. É uma complexa questão cultural e religiosa e a autora recebeu uma carta de permissão do governo kuwaitiano para escrever este livro.
Outra barreira encontrada pela autora é que ao se escrever sobre uma vítima de guerra, sempre se deve procurar preservar sua integridade, por motivos particulares ou por segurança. Mesmo que a vítima anseie por compartilhar a sua dor há a questão da vergonha e humilhação. Muitas temem contar até mesmo o caso para a família. Por isso a autora demorou tanto em tornar pública esta história.
A identidade da mulher foi preservada e seu nome verdadeiro ou qualquer outra informação que poderia fazer referência a ela foram ocultados ou modificados. Aqui, a protagonista é nomeada "Yasmeena". E não é apenas a história de Yasmeena. É também a de "Lana".
A narrativa é em terceira pessoa, priorizando o ponto de vista de Yasmeena, uma jovem libanesa de vinte e poucos anos. Inicialmente há a rápida introdução sobre a vida e criação da moça. Acho importante para lhe dar personalidade, para fazer o leitor de afeiçoar a ela e a retificar que é uma pessoa antes de tudo, não simples personagem. Sua breve história também serve para o leitor tentar compreender as diferenças culturais e a se colocar no lugar de Yasmeena, uma libanesa que não deseja se casar e ter filhos, o padrão das jovens muçulmanas. Ela sonha em viajar e conhecer o mundo e o primeiro passo já foi dado: conseguiu o emprego como comissária de bordo. Entretanto, sonho torna-se pesadelo. Yasmeena chega ao Kuwait em um voo na véspera de sua invasão pelo Iraque, permanecendo presa nas terras do conflito.
Após ir para em uma prisão, percebe que a construção possui apenas mulheres entre as celas. E o choque é assombroso, pois as prisioneiras estão ali para o uso sexual dos soldados iraquianos. Ao descobrir as "regras", o desespero se instala. É um circo de horrores e dores.
Os agressores não possuem nomes próprios. Os que são identificados possuem apelidos como Capitão e Lobisomem. Dentre as vítimas, nenhum nome, com exceção da amiga de Yasmeena, Lana. A menina de apenas 16 anos é a que mais sofre torturas e é também a personagem que se destaca. Juntas, Yasmeena e Lana resistem, cada uma a sua maneira. A amizade delas é uma gota positiva nesse oceano terrível.


Com o término da guerra Yasmeena se encontra com Jean para pedir que a autora escreva a sua história (e a de Lana) para o mundo saber o que as mulheres da "prisão-circo" sofreram.
A base do livro é seu relato, uma biografia intensa. A leitura é inquietante. Não me impressiono fácil, mas esta obra mexeu muito comigo. Não conseguia parar de ler, então mesmo sendo pesada, terminei bem rápido.
O livro contém extras interessantes. Alguns trechos curtos de manchetes, por exemplo, são colocados entre um capítulo. Assim o leitor fica ciente do que ocorria na geopolítica enquanto Yasmeena estava presa. Todas as fontes são verídicas e citadas.
Há ainda os apêndices após a biografia. São vários 8 anexos varias dos no total. Achei o conteúdo muito importante, especialmente sobre as histórias dos países envolvidos no conflito, o Iraque e o Kuwait. Então se o leitor desconhece a essência ou não se recorda, a autora coloca como complemento uma breve cronologia de fatos históricos.
Enriquecendo o livro, nestes mesmos apêndices, a autora colocou um resumo de suas visitas ao Oriente Médio que têm ligação e que culminaram na viagem em que conheceu Yasmeena. Para finalizar os documentos, o leitor tem acesso a depoimentos verídicos sobre pessoas que sobreviveram ao conflito entrevistadas pela autora.

Jean Sasson mostra uma história verdadeira e intensa: A resistência de uma mulher mantida escrava sexual por soldados. Não é uma história sobre o Kuwait nem o Iraque; é sobre homens e mulheres, guerra e estupro, sofrimento e coragem.
A autora chama a atenção para a culpabilização da vítima, independentemente da cultura, sociedade ou religião. Por que existe tolerância à violência sexual? Os soldados justificavam os estupros e posse sobre as mulheres em cativeiro: Eles estavam cumprindo seu dever bem distantes de suas esposas. Portanto, como homens, deveriam ter o desejo sexual sanado por mulheres locais, senão poderiam até mesmo adoecer. E para isso, a força poderia ser utilizada e não estavam cometendo nenhum crime ou pecado. Absurdo, não é? Mas aconteceu e acontece; com inúmeras outras desculpas. No Brasil, 58% da população concorda com a frase: "se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros". Então Yasmeena estaria errada por trabalhar como comissária de bordo e estar no Kuwait no dia em que o país foi invadido pelo Iraque?
A autora vai além de notícias e estatísticas, escancarando uma história dolorosa. Tão forte que até preferiria que fosse ficção. Yasmeena e Lana são apenas duas entre tantas vítimas e elas estão tão vivas e reais durante a leitura que tive vontade de chorar.
Não é um livro para quem tem coração fraco, mas sinceramente recomendo-o a todos que possuam um.

A autora:
Jean Sasson, escritora e conferencista, viveu na Arábia Saudita e viajou por todo o Oriente Médio - região que a inspirou e tornou-se cenário de seus best-sellers, entre os quais Princesa, As Filhas da Princesa, Princesa Sultana, sua Vida, sua Luta e Mayada, Filha do Iraque. Jean vive no extremo sul dos Estados Unidos e visita o Oriente Médio com freqüência.
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Demais livros publicados no Brasil:

Princesa: A História Real da Vida das Mulheres Árabes por trás de seus Negros Véus
Amor em Terra de Chamas: A Corajosa Luta de Joanna do Curdistão
As Filhas da Princesa
Sob a Sombra do Terror: A Vida Oculta de Osama Bin Laden revelada por sua Esposa e seu Filho
Por Amor a um Filho: A Jornada de uma Mulher Afegã em Busca do Filho Perdido
O Filho de Ester
Princesa Sultana: Sua Vida, sua Luta
Mayada: A Filha do Iraque


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