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26 de agosto de 2017

[Resenha + resultado do Sorteio] O Conto da Aia, de Margaret Atwood e Rocco

O Conto da Aia (The Handmaid's Tale)
Margaret Atwood - Rocco
Tradução: Ana Deiró
368 páginas - 2016 - R$ 44,50 (impresso)
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Sinopse:
"Escrito em 1985, o romance distópico O Conto da Aia, da canadense Margaret Atwood, tornou-se um dos livros mais comentados em todo o mundo nos últimos meses, voltando a ocupar posição de destaque nas listas do mais vendidos em diversos países. Além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no original) produzida pelo canal de streaming Hulu, a ficção futurista de Atwood, ambientada num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo, e o fundamentalismo se fortalece como força política, ganhou status de oráculo dos EUA da era Trump. Em meio a todo este burburinho, O Conto da Aia volta às prateleiras com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano."

Resenha:
Margaret Atwood nasceu no Canadá em 1939 e já havia publicado cinco livros antes de começar a escrever O Conto da Aia (The Handmaid's Tale), em 1984. No entanto, este foi seu primeiro projeto envolvendo ficção especulativa. O resultado é uma distopia que atualmente já foi traduzida para mais de quarenta idiomas e ganhou vida em outros formatos como filme, ópera e balé. Uma graphic novel está em andamento (pela ilustradora Renee Nault) e a série produzida pelo canal de streaming Hulu é um sucesso que tem chamado cada vez mais a atenção. Me interessei pelo livro há poucos anos, enquanto pesquisava por livros de temática feminista. O Conto de Aia estava presente em quase todas as listas, mas fora de catálogo pela Editora Rocco. Com o anúncio do seriado o livro ganhou nova edição e, após assistir ao primeiro episódio, parei tudo que estava fazendo para comprar meu exemplar, porque nunca havia assistido a uma ficção tão assustadora; foi a primeira vez que encontrei algo que me incomodou demais, que me fez pensar e repensar um monte de coisas. O livro se tornou um dos meus preferidos e me marcou profundamente.
O título é uma homenagem a Os Contos de Canterbury, histórias escritas a partir de 1387 por Chaucer que dão voz a peregrinos de classes sociais diversas, como o moleiro, o médico ou o cavaleiro. E também é uma referência ao folclore de um modo geral, como uma história muito antiga, mas baseada em fatos reais. Não sabemos o nome real da protagonista, apenas seu nome de Aia, Offred. Todas as Aias perdem a identidade para assumir sempre um nome com o prefixo "of" ("de") ligado ao nome de seu dono. Ela é a Aia de Fred.


A história se passa em um futuro próximo. Minha visão pessoal é de uma realidade alternativa, como se lá em 1985 as coisas tivessem acontecido de modo diferente, mas ainda assim, a sensação é a de um futuro nada distante, porque a realidade do romance me parece muito viável. Por isso é um sentimento estranho e perturbador. Iniciei a leitura ciente de ser distopia e da temática, mas fui particularmente afetada pelo livro.
Nele, a taxa de natalidade diminuiu drasticamente devido a um ambiente tóxico. A capacidade de ter filhos viáveis é rara e isso causa um colapso social. Muitos culpam os medicamentos, os métodos contraceptivos, os agrotóxicos, as indústrias. Um movimento fundamentalista de reconstrução se fortalece nesse cenário, os Filhos de Jacó, e ataca o Congresso dos Estados Unidos, assassinando o presidente e a maioria dos congressistas. Um golpe suspende a Constituição estadunidense sob o pretexto de restaurar a ordem. Uma antiga democracia deixa de existir e nasce uma ditadura teocrática de mentalidade muito limitada e arcaica, a República de Gilead, que tem como base as raízes puritanas do século XVII, um modelo militarizado e hierárquico de fanatismo social e religioso. Segundo o grupo, que se torna a elite da sociedade, é necessário salvar a humanidade, proteger a família tradicional e resgatar os bons valores, visto que a liberdade e a modernidade nos levaram à degradação, decadência e quase extinção. Se baseiam no Antigo Testamento, particularmente na história de Jacó, suas esposas, e suas servas, que não podiam criar seus filhos, pois eles pertenciam às esposas.


Nesta sociedade, os direitos humanos são severamente limitados (nenhuma outra religião é permitida, os relacionamentos homoafetivos são proibidos e as experiências e produções científicas não existem mais) e os das mulheres são ainda mais reduzidos. Elas não podem ter bens, emprego, dinheiro nem ler, dentre outras coisas, são divididas entre férteis e inférteis e classificadas pelas cores de seus vestidos. As Aias são as que podem ter filhos e são, portanto, propriedade do Estado. Elas usam vestidos vermelhos, a cor do sangue do parto e do pecado, e usam toucas e chapéus brancos de abas grandes. Cada Aia é designada a uma casa de um Comandante do Governo onde é obrigada a obedecer a Esposa, uma dona de casa que veste azul, e a gerar filhos para o casal. Ela é estuprada todo período fértil até engravidar e dar à luz ao bebê do Comandante e sua Esposa. Offred explica que ser uma Aia é ser "um útero de duas pernas". Além das Aias e Esposas existem as Econoesposas, de vestidos listrados, esposas de homens que ocupam postos sociais inferiores; as Marthas, de vestidos verdes, que cuidam da comida e da limpeza das Esposas; as Filhas, da classe dominante, vestem branco até o casamento (arranjado); e as Tias, senhoras de marrom responsáveis pelo treinamento das Aias.
Existem ainda as mulheres ilegítimas: as Jezebels e as Não Mulheres. As primeiras são obrigadas a se tornar prostitutas disponíveis apenas para os Comandantes e seus convidados. São esterilizadas à força, controladas pelas Tias em bordéis não oficiais, mas sancionados pelo Governo. Já as declaradas Não Mulheres (geralmente estéreis, feministas, lésbicas, freiras, rebeldes, Aias descartadas) são enviadas para trabalho forçado nas Colônias, em plantações (se tiverem sorte) ou no recolhimento de lixo tóxico e radiativo.
Minha impressão foi que as Tias são crentes autênticas; se sentem gratas a não estarem nas Colônias e aliviadas por não serem estupradas como as Aias. Elas são sádicas e/ou oportunistas; torturam e humilham as Aias; utilizam materiais do feminismo de 1984 no treinamento, desvirtuando-os. Essa é, talvez, a parte mais assustadora do livro: mulheres contra mulheres, mulheres odiando mulheres. Mulheres justificando o terror com falsa proteção; dizendo que mulheres estão agora protegidas, pois assim os estupros não existem mais! Que nesta sociedade de Gilead, estupradores têm pena de morte e, portanto, nenhuma mulher é mais estuprada... ou seja: podem ser estupradas em prol da procriação dos poderosos. É um absurdo.
Todos vivem sob total controle e vigilância. Os Olhos estão em todo lugar em busca de rebeldes, espiões e falsos devotos. As punições são verdadeiros shows de horrores. Chocante.


Offred faz parte da primeira geração de Aias, ou seja, a última que conheceu a vida anterior e a liberdade, pois as crianças estão sendo criadas para esta nova era. Isso torna o pesadelo de Offred pior. Ela teve uma vida normal, um marido, uma filha, amigos, um lar e um emprego, portanto é ainda mais assustador acompanhar sua jornada. Também é chocante refletir sobre como sem ter uma vida "normal" para comparar, como futuras gerações saberão que tudo está errado?
Offred é a narradora da história. Ela tenta transmitir tudo que passou e é através dos olhos dela que conhecemos a sociedade de Gilead. É um relato extremamente pessoal.
Mas a última parte, "Notas Históricas", embora também ficcional, se passa ainda mais no futuro e não é narrado por ela. É uma convenção sobre a sociedade de Gilead, incluindo os relatos deixados por Offred. É um excelente desfecho, criativo e que traz um pouco mais de informações e causa ainda mais reflexão.
A narrativa de Offred segue mais seu fluxo de consciência que uma ordem cronológica. Então algumas lacunas devem ser preenchidas pelo leitor. Offred intercala a vida de Aia com suas memórias antes disso. São 15 partes que englobam 46 capítulos. Aproximadamente metade das partes possui o mesmo título, "Noite". Nestas, conhecemos a essência da mulher antes de ser reduzida à Offred. Todas as outras partes têm títulos variados e informam a vida de Aia em Gilead.
A escrita da autora é formidável. Acho que não é do tipo que agrada a todos, pois é muito visceral, profunda e íntima. Me conquistou desde o princípio.


O que assusta em O Conto da Aia? Por que tantas pessoas têm falado dele? É uma distopia e já existem inúmeras por aí. Em 1984, várias distopias já haviam sido publicadas, principalmente as clássicas. Mas sempre existe uma faceta sombria da humanidade que precisa ser discutida e é por isso que acho que distopias sempre são importantes, mas O Conto da Aia é essencial. Principalmente em um momento onde os direitos civis, especialmente os das mulheres, encontram-se em risco. Muitos governantes tomam posturas misóginas e conservadores não compreendem a importância da discussão de temas como igualdade de gênero, descriminalização do aborto, feminicídio e a cultura do estupro. O livro é sobre nações-estados que incitam à xenofobia e à misoginia e usam a religião (não é culpa da religião, e sim do fanatismo e tirania) como estratagema para justificar a remoção de direitos dos cidadãos. É sobre a fragilidade dos sistemas democráticos. É sobre a luta das mulheres pelo respeito e igualdade. Controlar mulheres é uma característica quase sempre presente em todo regime repressor, a História prova. Estupro como demonstração de poder e uma arma muito antiga: Matar as crianças de um povo e, através do estupro, substituí-las pelas dos dominantes.
O Conto da Aia aborda a retirada total dos direitos das mulheres, mas vai além: é o fim da liberdade delas, física, mental, psicológica, financeira, sexual, intelectual, constitucional. Em um cenário horrível, onde o estado não é laico e a ciência foi abolida. As mulheres não possuem nenhum controle sobre seus próprios corpos, são escravas, e vários itens do enredo de O Conto da Aia não são apenas ficcionais. É por isso que o livro assusta. Seria ótimo se assustasse a todos ao ponto de discordarem do rumo opressor, machista e preconceituoso que o mundo está tomando.
"Nolite te bastardes carborundorum."





As ilustrações da resenha são de autoria das irmãs Anna & Elena Balbusso.

Confira também a postagem de dicas de leitura com 6 livros como O Conto da Aia.

A autora:
Uma das maiores escritoras de língua inglesa, Margaret Atwood foi consagrada com alguns dos mais importantes prêmios internacionais, como o Man Booker Proze (2000) e o Príncipe de Astúrias (2008), pelo conjunto de sua obra, além de ter sido agraciada com o título de Cavalheira de L’Ordre des Art et Lettres, na França. Tem livros publicados em mais de 30 idiomas e reside em Toronto, depois de ter lecionado Literatura Inglesa em diversas universidades do Canadá e dos Estados Unidos e Europa. Transita com igual talento pelo romance, o conto, a poesia e o ensaio, e se destaca por suas incursões no terreno da ficção científica, em obras como O Conto da Aia e Oryx e Crake, ambos publicados pela Rocco.
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Sorteio:
De 26 de agosto a 12 de setembro de 2017.


[Atualização 13/09/2017 | 13:30 | Resultado do sorteio]
Sorteada: Alice Aguiar



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A série:
Criada por Bruce Miller e produzida pelo canal de streaming Hulu, The Handmaod's Tale é uma adaptação do livro de Margaret Atwood. Possui 10 episódios e foi renovada para uma segunda temporada com mais 13 episódios.
Elenco: Elisabeth Moss, Joseph Fiennes, Yvonne Strahovski, Alexis Bledel, Madeline Brewer, Ann Dowd, O. T. Fagbenle, Max Minghella e Samira Wiley.
Recebeu 13 indicações ao Emmy Awards 2017, incluindo Melhor série de drama, Melhor atriz em série dramática (Elisabeth Moss) e Melhor roteiro em série dramática (Bruce Miller).


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