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10 de julho de 2013

Trilogia The Fallen World, volume 1: O Fim de Todos Nós, Megan Crewe e Editora Intrínseca

O Fim de Todos Nós (The Way We Fall)
Trilogia The Fallen World - livro 1
Megan Crewe - Editora Intrínseca
Tradução: Rita Sussekind
272 páginas - Ano: 2013 - R$29,90 (impresso) ou R$19,90 (digital)

Sinopse:
"Kaelyn acaba de ver o melhor amigo partir. Ela tem dezesseis anos e voltou agora para a ilha onde nasceu, depois de um período morando no continente; ele está fazendo o caminho inverso, para estudar fora. O que sentem um pelo outro não está muito claro, ela o deixou ir embora sem nem mesmo dizer adeus, e a última coisa que passa por sua cabeça é nunca mais vê-lo. Mas, pouco tempo depois, isso está bem perto de acontecer.
A ilha de Kaelyn foi sitiada e ninguém pode entrar nem sair: um vírus letal e não identificado se espalha entre os habitantes. Jovens, velhos, crianças - ninguém está a salvo, e a lista de óbitos não para de aumentar. Entre os sintomas da doença misteriosa está a perda das inibições sociais. Os infectados agem sem pudor, falam o que vem à mente e não hesitam em contaminar outras pessoas. A quarentena imposta pelo governo dificulta as pesquisas em busca da cura, suprimentos e remédios não chegam em quantidade suficiente e quem ainda não foi infectado precisa lutar por água, energia e alimento.
Nem todos, porém, assistem impassíveis ao colapso da ilha. Kaelyn é uma dessas pessoas. Enquanto o vírus leva seus amigos e familiares, ela insiste em acreditar que haverá uma salvação. Caso contrário, o que será dela e de todos?
Afiado e atordoante, O fim de todos nós é a história da força de vontade e da bravura de uma garota comum forçada a reavaliar seus medos e escolher entre a própria humanidade e a sobrevivência."

Links: Intrínseca | Skoob

Resenha:
Após conferir o projeto gráfico da trilogia The Fallen World, fiquei muito satisfeita em ver que a Editora Intrínseca manteve a capa original. O Fim de Todos Nós é o primeiro volume de uma saga apocalíptica voltada ao público jovem. A capa é muito mais bonita ao vivo, porque o fundo é brilhoso e o título em relevo levemente áspero.
A capa avisa que o enredo aborda um tema delicado, pois no centro e ao fundo do título, dentro de letras que "arranham" estão de mãos dadas duas personagens em meio a um caminho desolado. São duas pessoas importantes no livro, embora sejam apenas suas silhuetas. E há um detalhe no M especial.
Gosto da simplicidade aparente da capa, mas de seu significado implícito. Assim como o livro é: Simples na leitura, complexo na absorção.
O trabalho gráfico contribui para o clima de perigo se ampliar, através de uma diagramação um pouco grunge e desconexa com riscos manchando algumas páginas estratégicas: Início, intercâmbio entre as partes e final.

O livro é dividido em três partes: Sintomas, Quarentena e Mortalidade. Exatamente como o vírus fatal e desconhecido se desenvolve, a história acompanha esta evolução, tornando-se cada vez mais crítica.
O interessante é a narrativa. Ela é completamente feita em um diário pessoal, escrito pela adolescente de dezesseis anos Kaelyn, moradora da ilha bruscamente afetada por uma doença desconhecida, voraz e mortal.
Além de possuir partes principais, o livro é estruturado em inúmeros curtos capítulos, quase sempre datados. Os relatos da jovem se iniciam em 22 de setembro, quando ela viu seu melhor amigo partir da ilha para o continente. Ela resolve então, escrever para ele o diário.
É uma narrativa especial: Além de conter confissões e informações dos acontecimentos, o diário é quase uma carta; não sabemos se é um desabafo e se será entregue por Kaelyn a seu amigo Leo. É uma mistura e uma escrita muito agradável de se ler.

Embora aborde um desastre de saúde e social, uma doença incurável que apresenta sintomas inéditos, a autora mantém a narrativa leve. Mesmo nas partes mais duras e chocantes, existe uma simplicidade na escrita de Megan que segura o leitor até o final, sem causa mal estar. No entanto, consegue atingir o objetivo de provocar variadas sensações, reflexões e curiosidade.
Por ser narrado por uma única pessoa, temos um único ponto de vista, mas isso é positivo. Kaelyn já está acostumada a fazer observações e a catalogar comportamentos e desenvolvimento de sociedades animais. Ela estuda esquilos, furões, coiotes e diversos outros bichos nativos do local. Ela os analisa e os estuda, sempre em forma de diário. Kaelyn, que sempre sonhou em estudar a vida animal e contribuir com descobertas científicas nesse meio, não imaginaria que seu "diário-carta-confissão" acabaria se tornando um documento com todo o desenvolvimento da doença fatal assombrosa.
O livro se transforma no relatório mais fiel sobre as mudanças sofridas pela população da ilha. Certamente Kaelyn cria um espetacular cotidiano da ilha enfrentando o vírus. Da luta pela vida.
Por outro lado, seus textos quando focados nos acontecimentos pessoais quase levam o leitor às lágrimas. Percebemos que mesmo contando o seu dia a dia, confissões e ideias íntimas, Kaelyn tenta focar mais no lado dissertativo sobre a ilha.
Esse é o ponto forte do livro: Encontramos confissões de uma adolescente sobre sua família, sua escola, mudança de rotina e sofrimento pessoal, mas também lemos sobre o desenvolvimento do vírus na ilha como um todo, como afeta o funcionamento do ambiente, do hospital, da população.
O ponto fraco está na carência de diálogos mais espontâneos. Embora Kaelyn os relate com precisão, são todos na forma indireta; um resumo de suas conversas.
Eu prefiro diálogos pontuados com travessão; não importando se são longos ou curtos; com ou sem descrições intermediárias. Aqui, logicamente, os diálogos estão entre aspas e nos relatos pessoais da protagonista.
Apesar de eu não gostar desse tipo de estrutura, assumo que foi a melhor escolha para o livro.

Por termos a visão da moça, não sabemos o que o restante do mundo sabe e pensa sobre o surto. A ilha é isolada, tanto fisicamente, com o Exército impedindo a entrada e saída do local, quanto de uma forma mais ampla, já que a internet e a rádio são cortadas, assim como os telefones e celulares somente fazem ligações dentro da própria ilha. Esta se torna um mundo abandonado e solitário, porque nem sempre recebe ajuda de fora, tamanha a gravidade do contágio. Os moradores ficam reféns, presos e incomunicáveis. Precisam se organizar com pouco apoio para enfrentar a doença.

Os sintomas são físicos e psicológicos. Os psicológicos são os que mais chamam a atenção do leitor.
O organismo apresenta sintomas como os de uma gripe comum, com febre, tosses e espirros além de dor de garganta aguda que se torna uma queimação sufocante. Com o tempo, a pessoa vai tendo a pele afetada, com coceiras incontroláveis em pequenas e isoladas regiões, porém o incômodo cada vez mais constante.
Então temos o ataque psicológico: A pessoa vai se tornando cada vez mais comunicativa e perde cada vez mais a timidez e a censura. A necessidade inabalável de querer conversar e se socializar se transforma em um perturbador comportamento de sinceridade exagerada. Ao fim, o doente não controla mais suas ações e passa a ter alucinações e episódios cada vez mais graves de paranoia.

O desenvolvimento do enredo foi muito bem preparado, através de uma excelente introdução e atinge um clímax inesperado e inteligente. Observamos pelo diário de Kaelyn como toda a população da ilha se organiza (ou não; ou se desorganiza; loucura!).
Os questionamentos éticos entram na história sobre como se deve agir em uma situação de desastre biológico. Como se proteger, e a seus entes queridos dos vizinhos e conhecidos doentes ao seu redor? Como a população médica deve agir perante uma situação catastrófica, sem a estrutura ideal para ajudar no tratamento dos doentes e até mesmo na busca da cura? Como ocorre a distribuição de comida, medicamentos e água?
Algumas pessoas simplesmente ignoram o problema, tentando fantasiar  que o perigo não existe e que a doença é apenas uma gripe passageira e que será naturalmente superada. Essas pessoas não imaginam que podem ser contaminadas, não se previnem e não cooperam. Ajudam até mesmo a espalhar mais rapidamente o vírus.
Outras pessoas são as que se isolam e temem qualquer pessoa que se aproxime de sua propriedade. São prevenidas em excesso, não querem ser avisadas das prevenções básicas necessárias, apenas querem se trancar em casa e esperar a doença acabar.
Mas existe um grupo de pessoas que faz o contrário: Busca por organização, informação e luta, cada pessoa a seu modo, contra a doença, contra o desespero social. Cada um faz o que pode, seja na sua especialidade, quanto no trabalho voluntário.

A ironia inicial de Kaelyn é que ela é uma moça muito tímida e discreta. Ela é o tipo de pessoa que não se destaca e prefere passar despercebida pelos locais frequentados, principalmente sua escola. Então ela decide desenvolver e investir em uma "nova Kaelyn". Uma pessoa mais comunicativa, ousada e aberta às pessoas ao redor. Ela não quer mais ser apenas "mais uma pessoa qualquer", ela quer brilhar socialmente. Logo após essa decisão pessoas começam a ficar totalmente desinibidas e incontroláveis socialmente. A doença ataca o indivíduo, deixando-o comunicativo além do tolerável e Kaelyn sente-se confusa não apenas sobre a doença, sua transmissão e mortalidade, mas também sobre o quanto as pessoas doentes estão sendo sinceras e rudes. Será que elas sempre pensaram dessa forma, mas somente estão tendo a coragem de dizer tudo por causa da doença? Ou será que a doença amplia e/ou deturpa suas opiniões?
O desenvolvimento toma um rumo inesperado. É muito estarrecedor ver pessoas sofrendo, morrendo e outras tentando salvá-las.
O desfecho deixa uma clara abertura para uma continuação, como um recomeço, porém não existe a obrigação de prosseguir a leitura. No entanto, não aguento de curiosidade sobre o segundo livro da trilogia. Não sei exatamente que ligação ele terá com O Fim de Todos Nós, mas como adorei a leveza com que a autora apresentou e desenvolveu um thriller psicológico juvenil, com certeza o lerei!

É um livro muito simples e leve; porém pode levar o leitor a grandes análises psicológicas dos diferentes comportamentos humanos perante uma crise sanitária e social.
Mesmo sendo ficção e voltado ao público jovem, O Fim de Todos Nós é um aviso sobre as grandes epidemias enfrentadas várias vezes por populações. Sobre como o Governo, povo e departamento médico agem contra o problema.
Após mergulhar em tantas histórias de fim de mundo, foi bom descobrir esta: Um apocalipse social e centralizado. Uma ilha lutando sozinha contra sua extinção.
Uma reflexão sobre como o ser humano é frágil, mesmo após grande desenvolvimento das ciências, principalmente da Biomedicina. Somos alvos constantes de doenças transmissíveis. Fungos, vírus e bactérias podem derrubar grandes populações humanas. Estaremos preparados para o inesperado?

"Tudo tem início com uma coceira insistente. Então vêm a febre e o comichão na garganta. dias depois, você está contando seus segredos mais constrangedores por aí e conversando intimamente com qualquer desconhecido. Mais um pouco e começam as alucinações paranoicas."
Comprar:
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A Trilogia:
The Fallen World é formado por O Fim de Todos Nós (The Way We Fall, 2012), primeiro da trilogia e lançamento no Brasil. O segundo livro, The Lives We Lost (2013) já foi publicado em língua inglesa. Já o terceiro livro, com o título de The Worlds We Make está programado para ser publicado em inglês no outono de 2014.
Viram que bacana a Intrínseca ter mantido a capa original?
São as capas originais. A de The Worlds We Make é provisória.


A autora:
Megan Crewe estudou Psicologia na Universidade de New York e atua como orientadora de jovens com necessidades especiais.
Ela mora em Ontário, nos Estados Unidos, com o marido e três gatos.
O Fim de Todos Nós é seu segundo romance e o primeiro de uma trilogia.

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