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15 de outubro de 2013

Corações Feridos, Louisa Reid, Grupo Editorial Novo Conceito

Corações Feridos (Black Heart Blue)
Duas irmãs gêmeas. Uma linda, a outra desfigurada. Divididas por um terrível segredo.
Louisa Reid - Novo Conceito
Tradução: Thiago Mlaker
256 páginas - Ano: 2013 - R$29,90

Sinopse:
"Hephzibah e Rebecca são irmãs gêmeas, mas muito diferentes. Enquanto Hephzi é linda e voluntariosa, Reb sofre da Síndrome de Treacher Collins — que deformou enormemente seu rosto — e é mais cuidadosa.
Apesar de suas diferenças, as garotas são como quaisquer irmãs: implicam uma com a outra, mas se amam e se defendem.
E também guardam um segredo terrível como só irmãos conseguem guardar. Um segredo que esconde o que acontece quando seu pai, um religioso fanático, tranca a porta de casa.
No entanto, quando a ousada Hephzibah começa a vislumbrar a possibilidade de escapar da opressão em que vive, os segredos que rondam sua família cobram-lhe um preço alto: seu trágico fim. E só Rebecca, que esteve o tempo todo ao lado da irmã, sabe a verdadeira causa de sua morte...
Hephzi sonhara escapar, mas falhara. Será que Rebecca poderia encontrar, finalmente, a liberdade?"

Links: Novo Conceito | Skoob | degustação

Resenha:

A história das gêmeas Hephzibah e Rebecca me tocou de tal forma que estou ciente de ser incapaz de tecer uma boa resenha. Como conseguir transmitir tudo que pensei e senti com este livro? Ele não é apenas comovente e emocionante, mas sufocante e melancólico! Por vezes, um tanto chocante.
Como posso me livrar das personagens, dos acontecimentos? Como parar de imaginar as inúmeras probabilidades de como a vida em Corações Feridos prosseguiram? Mesmo com o final do livro vislumbro diversos futuros...
É tão difícil um livro provocar em mim não apenas reações psicológicas, mas também físicas... E Corações Feridos é um desses livros poderosos. Senti meu coração tão ferido, dolorido, dilacerado quanto os das personagens e não me deixam em paz. As páginas se transportaram para as paredes de minha mente e choram...
Então esta é uma tentativa racional de avaliar um livro que muito me comoveu.

A capa mostra uma cena triste, sombria: Uma moça de costas em frente a um túmulo. No entanto o que mais segura minha visão é o título branco combinando com os desenhos de galhos logo acima. Pois nessa história, uma velha árvore é presença marcante. A cada início de capítulo temos ramos ao vento, como garras ou a representação de algo ininterrupto. Cada leitor interpreta à sua maneira.
Um dos melhores pontos do livro certamente é a estrutura. É dividido em duas partes: "Parte Um - Rebecca e Hephzibah"; e "Parte Dois - Rebecca". A primeira parte é quase a totalidade do livro e possui capítulos com narradoras e linhas temporais alternadas. Sempre em primeira pessoa, lemos a história contada por Rebecca em um capítulo e no próximo é a vez de Hephzibah contar. Pontos de vistas diferentes, o mesmo sofrimento. O mais tocante é que os capítulos de Rebecca sempre possui a observação "Depois" e os de Hephzibah, "Antes".

Porque Hephzibah faleceu e seus capítulos são relatos de quando estava viva e flertava com sonhos de uma adolescente comum e... enfrentava pesadelos de uma prisioneira e sofredora. Analisando a menina é impossível descobrir o que mais crescia nela: A vontade de soltar as amarras, o medo de arrebentar essas correntes ou não conseguir parar de imaginar uma vida diferente, linda e comum. Fugir do assombro que é o lar dela e da irmã. A chance de estar pela primeira vez na escola, com adolescentes normais, lidando com gente normal, faz a moça entrar em êxtase e desejar mais felicidade.
É triste ler sua narrativa, logo que desde a sinopse sabemos que ela morreu. Então desfrutamos dos breves momentos normais que ela consegue ter como se fossem nossos únicos também. É quase insuportável ler e saber que talvez tenha sido sua primeira e última vez de cada ação. E pior ainda ler e ir imaginando como ela morreu. Tão jovem, sonhadora e com o peso de um coração que nunca pode bater no ritmo de uma vida saudável e decente.

Quando é Rebecca quem conta a história, o leitor é jogado ao presente. Iniciando em seu luto desesperado pela falta da irmã, nota-se claramente que existem muito mais dor e morte escondidas das paredes daquele quarto antes dividido pelas gêmeas, agora um calabouço solitário da deformada e desesperada Rebecca.
Interessante que mesmo sendo a narração no presente do livro, o leitor é transportado ao passado através de inteligentes e discretas viagens de Rebecca. Ela permanece com a irmã em seu coração também dilacerado. Agora ela carrega as dores das duas - e de outros. Fisicamente ela sofre da Síndrome de Treacher Collins (por isso ela está de costas na capa do livro) e nunca recebeu tratamento médico, seja físico ou psicológico. Nem carinho ou apoio moral. (Pesquisei sobre pessoas que vivem com essa síndrome e me emocionei mais ainda.)
Ela também anseia por ter uma vida normal, mas não é bonita como a irmã. Na verdade ela se sente uma monstruosidade e prefere não arriscar a desbravar o mundo que aparece a elas através da brecha de frequentar as aulas em uma escola de verdade; ela prefere os livros da biblioteca - que jamais podem ser levados para as sombras de casa.

O mais admirável no relacionamento entre elas é que podem se desentender, brigar e até mesmo ficarem sem se falar. Porém além do amor fraternal incondicional, elas são cúmplices dos horrores que apenas elas conhecem; somente elas sabem a dor, a claustrofobia e a impossibilidade palpável de ter o mínimo de felicidade dentro daquela casa. Unidas literalmente pelo sangue, não apenas a expressão de serem irãs (e gêmeas), mas de terem o sangue derrabado inúmeras vezes dentro daquele lugar que deveria ser um lar.
Embora Hephzibah às vezes enfrente a Mãe e engane o Pai, é Rebecca quem me surpreendeu, por de forma inteligente e discreta (perante os Pais) defender a irmã - e sofrer no lugar dela. Rebecca sofre muito mais e conforme os mistérios são apresentados ao leitor de forma dramática, é compreensível o motivo. Por que Rebecca defende tanto Hephzibah?
E não apenas isso, mas as grandes questões do livro: Como e por que Hephzibah morreu? Por que os Pais agem assim? Por que parece que ninguém nota, ninguém desconfia, ninguém interfere?
Mesmo sendo um livro melancólico, é uma história de mistérios. Muitos!

A escrita da autora é fantástica. Ressalto que me surpreendeu bastante descobrir que este é seu livro de estreia. Para uma primeira publicação este trabalho é perfeito. Se mentissem e dissessem que a autoria fosse de alguém com experiência e muitos livros publicados, eu acreditaria.
Além de ter criado uma boa estrutura narrativa, sob dois pontos de vista e mesclando passado e presente (e fazer o leitor saltar as páginas para ir tentando se aproximar do futuro), ela traz uma delicadeza especial. Porque trata de temas pesados, dolorosos, doentios e polêmicos de modo leve e natural. É chocante e faz o leitor sofrer? Ás vezes. Porém jamais desnecessariamente nem de forma apelativa.

Observei também uma escrita quase poética, por mais triste e impressionante que Corações Feridos seja. Notei isso principalmente na narrativa de Rebecca. Será porque ela lê bastante clássicos?
A menina, mesmo com o peso da deformação e maus-tratos nos frágeis ombros é muito forte. Ela suporta tudo, tudo e ainda narra a história de modo totalmente único. Sua personalidade é muito mais complexa e é através do seu modo de ver, sentir e contar suas experiências e mostrar seu mundo ao leitor, a forma como ela vai aos poucos contando os segredos da Casa Paroquial e do quarto sombrio de paredes que gritam e choram é que se percebe a força.
A autora foi magnífica na narrativa de Rebecca. No entanto, não deixou de caprichar na de Hephzibah. A menina morta-viva também possui seu próprio estilo. Mais livre, solto, desinibido e jovial que de Rebecca. Também percebe-se o talento da autora aqui, porque construir uma história com tantas vertentes, com uma estrutura tão complexa e temas tão delicados não é fácil. e o esplendor alcançado pela autora precisa ser notado pelos leitores.
Peço que leiam e observem isso: A trama é bem-feita (mesmo possuindo poucos clichês), a escrita é especial (saindo totalmente do lugar-comum!), a estrutura é definida e montada com artifícios interessantes (duas narradoras/dois pontos de vista/passado e presente) e os temas são delicados (a autora consegue seguir a linha fina de emocionar/chocar/comover sem encostar-se ao exagero de misturar tudo em um drama sem fim. A autora não é apelativa.

A autora aborda os maus-tratos infantis e juvenis. As irmãs sofrem humilhações físicas e psicológicas, privações dos itens mais essenciais, violência doméstica e cárcere privado. Ao ponto de desconhecerem o que é uma família, uma vida normal. Elas não têm uma vida ruim - elas simplesmente não têm vida! Elas sobrevivem apenas.
Com poucas ferramentas, além da união e amor de uma pela outra, elas enfrentam a tortura dos Pais, fanáticos religiosos. Abusos, espancamentos de um lado e do outro o discurso da impureza, do preconceito e da maldade.
As gêmeas se agarram uma à outra e aos sonhos inalcançáveis: O de possuírem o simples direito de viver. Da liberdade, da compreensão e do carinho que elas nunca receberam dos Pais. Eles não são apenas os vilões do livro, mas sim a representação de todo o sofrimento que muitas crianças e adolescentes sofrem no mundo todo a cada minuto.
Um livro para refletir sobre a violência doméstica, o fanatismo, o preconceito e o desrespeito ao próximo.
Dessa vez a "Bela e a Fera" são duas irmãs que sofrem como prisioneiras não de um castelo, mas de uma Casa Paroquial. Não existe uma rosa mágica de esperança, nem o amor romântico para salvá-las, mas sim uma velha árvore e algumas pessoas que entram na vida dessas meninas para terem as suas próprias modificadas.
Será que após tentar resenhar esse livro Hephzibah, Rebecca e... Bem, será que irão parar de chorar em minhas paredes?

Booktrailer:



A autora:
Louisa Reid formou-se em Inglês pela Hertford College, em Oxford. Além de escritora, é também professora em Cambridge.
Casada, e com duas filhas, ainda assim costuma acordar e dormir pensando em livros.



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