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23 de abril de 2014

Colin Fischer, de Ashley Edward Miller, Zack Stentz e Novo Conceito

Colin Fischer
Ashley Edward Miller e Zack Stentz - Novo Conceito
Tradução: Henrique Monteiro
176 páginas - Ano: 2014 - R$29,90

Sinopse:
"Resolvendo o crime. Uma expressão facial por vez.
O ano letivo de Colin Fischer acabou de começar. Ele tem cartões de memorização com expressões faciais legendadas, um desconcertante conhecimento sobre genética e cinema
clássico e um caderno surrado e cheio de orelhas, que usa para registrar suas experiências com a muito interessante população local.
Quando um revólver dispara na cantina, interrompendo a festinha de aniversário de uma das garotas, Colin é o único que pode investigar o caso. Está em suas mãos provar que não foi Wayne Connelly, justamente aquele que mais o atormenta, que trouxe a arma para a escola. 
Afinal de contas, a arma estava suja de glacê, e Wayne não estava com os dedos sujos de glacê…"

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Resenha:
O título é o nome do protagonista impossível de não ser querido pelo leitor. A capa é sagaz ao representar o adolescente, deixando de fora sua face, preenchida com esboços de expressões humanas, que se espalham para o fundo azul. Ao iniciar a leitura logo se descobre o motivo dos detalhes. É uma capa divertida.
O livro é bem curto e mesmo assim é organizado: É dividido em três partes (Um bolo de aniversário e uma arma; O idiota e o anormal; e A equipe olímpica de cama elástica.) com quinze capítulos e um epílogo.
Leitura rápida, simples e agradável. Mesmo possuindo uma escrita básica, é um livro muito inteligente. Bastante informação por detrás de um passatempo divertido.
Gostei muito da estrutura. A primeira parte funciona como uma introdução natural e apresentação dos conflitos e personagens. A segunda e a terceira desenvolvem e finalizam a história.
A diagramação é como o livro, simples, mas bonita. Possui carinhas diferentes em cada capítulo.
A narrativa é em terceira pessoa, porém exclusivamente centrada no ponto de vista do protagonista Colin Fischer. O que já faz do livro, mesmo com uma história simplória, muito interessante. Os destaques de palavras em capslock (maiúsculas) quando Colin detecta uma expressão ou sentimento de alguém é inquestionavelmente formidável.
Destaco também que antes de cada capítulo começar existe um texto escrito (ou narrado) por Colin (de seu caderno, talvez?). Ele apresenta curiosidades, histórias e informações, sejam pessoais ou sobre qualquer outra coisa que o interesse. Essa breve introdução sempre espalhada pelo livro deixa o leitor mais íntimo ainda do jeito do rapaz e serve para interligar a algo que acontecerá, seja direta ou indiretamente. Manobra engenhosa.

Colin Fischer possui síndrome de Asperger, uma subcategoria do Autismo. Como ele mesmo cita: "É uma condição neurológica relacionada ao autismo descoberta pelo pediatra austríaco Hans Asperger, em  Viena, em 1943,..."
De forma breve: Colin foi diagnosticado como altamente funcional, possui um Q.I. (Quociente de Inteligência) elevado e desenvolve ampla e facilmente as áreas acadêmicas, porém possui dificuldade nas relações sociais e sensoriais ao seu redor. Ele tem excelentes habilidades lógicas e racionais e grandes problemas com interpretação / demonstração dos sentimentos.
Embora seja essencial ao leitor estar ciente das condições de Colin, o foco do livro não é exatamente sua vida em relação à síndrome de Asperger, e sim uma aventura de um menino de 14 anos de idade. Esta se inicia no colegial e o menino encara o nervosismo da mudança. Ele se envolve, então, na busca pela solução de um crime ocorrido perante seus olhos na própria escola.

É importante a apresentação e o desenvolvimento que os autores dão à sua condição especial, e obviamente isso se integra o enredo e faz parte de Colin. Sua personalidade está diretamente influenciada pela síndrome, mas vale salientar que a ideia central dos autores é demonstrar em como Colin é, antes de tudo, um adolescente normal. Mesmo que ele não aja nem se expresse como é esperado pela sociedade, como a maioria dos jovens de sua idade, no fundo ele tem os mesmos sentimentos e reações da idade. A diferença está na forma como ele visualiza, interpreta e interage com o mundo. Os autores quebram o mito de que quem possui essa condição vive em um "mundinho próprio e isolado" e sempre são "idiotas e retardados". Eles provam que a dificuldade de socialização existe, o comportamento nem sempre é o esperado, porém as barreiras podem ser superadas e o indivíduo compreendido e adaptado.
Algumas coisas não podem ser esquecidas: Ele não gosta (e evita) ser tocado, mantem a rotina e objetos sempre controlados e organizados (excessivamente); racionaliza sempre de forma lógica (nunca pela emoção); evita contato visual direto (embora se esforce olhar para as pessoas e as analise); tem dificuldades em interpretar expressões faciais (algumas ele já decorou, outras inéditas ou complicadas o obriga a analisar suas anotações sobre); e odeia a cor azul (curiosamente é a cor escolhida como símbolo de luta contra o preconceito ao autismo e suas variações.).
Ele possui há anos um caderno de anotações inseparável. É seu guia (e segurança psicológica), organizador dos pensamentos e de observações sobre a sociedade e o comportamento humano, muitas vezes comparado aos dos animais e quase sempre analisado com embasamento científico.
Colin não deixa nada passar despercebido, mesmo que não compreenda todas as reações humanas. Ele as investiga. O que ele mais escreve no caderno é o lembrete "Investigar.". E assim ele o faz e começa a aventura após o incidente do bolo de aniversário e a arma na escola.

Os pais de Colin são admiráveis, cada um com o seu estilo. Mesmo tendo empregos diferentes do comum, eles são como quaisquer outros pais: Preocupados e zelosos. Eles dão o tratamento e suporte necessários à Colin, estimulando-o desde sempre; repreendendo-o quando (e conforme o) necessário.
Colin sempre relembra de fatos da infância e de sua psicóloga Marie, que o guiou na integração social e ajudou Colin a se comportar e a tentar compreender o comportamento alheio (daí os esboços e anotações sobre expressões faciais e sorrisos, além da linguagem corporal). Ela também guiou os pais em como lidar com as surpresas que o comportamento do próprio Colin possa, de repente... Explodir.
Por exemplo, o episódio dos latidos. Nem todos perceberam que é uma reação comportamental oriunda de outro episódio que Colin narra, sobre a boneca falante. Já todas as demais situações são bem explicadas e explícitas para a compreensão do leitor.
Danny, o irmão de onze anos de Colin é jovem, claro, imaturo. O relacionamento de ambos é explorado de forma superficial, porém satisfatória para um livro tão breve. Embora às vezes pareça que Danny não tem paciência com o irmão, um olhar atento mostra que indiretamente isso ajuda Colin. Porque Danny cobra constantemente dos pais uma igualdade no tratamento de ambos. Isso no fim ajuda Colin a evoluir, porque os garotos da escola o tratam de forma rude e dura por ser diferente; ou o ignoram por acha-lo em parte, incapaz. Sabem que ele é inteligente, porém não o respeitam. Danny é apenas um irmão, mesmo mais novo, treinando Colin inconscientemente para se blindar contra os adolescentes cruéis.
Temos Rudy, Stan, Eddie, Wayne, Sandy e Melissa. Todos possuem participação na trama e interagem com Colin, na forma de mostrar ao leitor diversas situações breves. Melissa é um caso à parte. Ela tenta proteger Colin. Assim como os pais do menino, ela vai percebendo que talvez ele não necessite de tanta proteção.
A diretora do colégio é o meio-termo. Não sabe exatamente como agir, embora seja competente. Em certos momentos ela trata Colin apenas como um menino qualquer, estando ciente de que assim ela o está ajudando na igualdade (tanto de direitos como de deveres.); ás vezes ela o trata com maior atenção e tolerância, temendo ser severa com um menino portador de uma condição especial; e em outras cenas, estas muito legais, ela se fascina em observar como ele é inteligente e ágil no pensamento.
O professor de educação física, assim como Danny, o trata como um menino de 14 anos. A diferença é que ele é adulto e completamente ciente dos atos. Ao cobrar de Colin o mesmo que cobra dos outros alunos e ao interagir com ele da mesma forma (mesmo sabendo do caso) o professor diretamente estimula Colin, mesmo através de punições e cobranças.

Concluindo: O livro é curto e direto, mas apresenta bem a visão de um menino com síndrome de Aspenger sem o vitimizar, mesmo quando mostra suas dificuldades. Possui uma aventura adolescente divertida, personagens carismáticos e que integram bem a história.
E o mais importante: Mostra que Colin é um adolescente como todos e ao mesmo tempo especial. Único, como todos os seres humanos. Não importa a síndrome! Passa a imagem das qualidades, deixando-as evidentes em todas as páginas. As qualidades se destacam por cima dos defeitos. Fortalece a imagem do portador de síndrome de Aspenger, focando que mesmo com dificuldades, eles possuem habilidades admiráveis. Parabéns aos autores pela história divertida, dinâmica e pelo destaque no lado admirável e fantástico de Colin e não em suas limitações.
Gostaria de futuramente ler mais de Colin Fischer, o livro termina com um gancho no ar para uma continuação, mas creio que seja apenas a exposição da ideia de que a vida continua para Colin, e não é por possuir a síndrome de Aspenger que ele deve se fechar e se intimidar. Ele é um detetive heroico!

Os autores:
Ashley Edward Miller e Zack Stentz se conheceram na internet, em consequência de uma paixão em comum por qualquer coisa que tenha a ver com Jornada nas Estrelas.
Juntos, eles escreveram e/ou produziram mais de cem horas de televisão, trabalhando nas séries Fringe e Terminator: The Sarah Connor Chronicles.
Mais recentemente, eles colaboraram no roteiro dos filmes X-Men: Primeira Classe e Thor. Ambos moram em Los Angeles.
Twitter de Ashley E. Miller | Twitter de Zack Stentz


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