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3 de abril de 2014

Eu sou Malala, de Malala Yousafzai, Christina Lamb e Companhia das Letras

Eu sou Malala (I Am Malala: The Girl Who Stood up for Education and Was Shot by the Taliban)
A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã.
Malala Yousafzai e Christina Lamb - Companhia das Letras
Tradução: George Schlesinger e Luciano Vieira Machado e Denise Bottmann e Caroline Chang.
360 páginas - Ano: 2013 - R$34,50

Sinopse:
"Quando o Talibã tomou controle do vale do Swat, uma menina levantou a voz. Malala Yousafzai recusou-se a permanecer em silêncio e lutou pelo seu direito à educação. Mas em 9 de outubro de 2012, uma terça-feira, ela quase pagou o preço com a vida. 
Malala foi atingida na cabeça por um tiro à queima-roupa dentro do ônibus no qual voltava da escola. Poucos acreditaram que ela sobreviveria.
Mas a recuperação milagrosa de Malala a levou em uma viagem extraordinária de um vale remoto no norte do Paquistão para as salas das Nações Unidas em Nova York. Aos dezesseis anos, ela se tornou um símbolo global de protesto pacífico e a candidata mais jovem da história a receber o Prêmio Nobel da Paz.
Eu sou Malala é a história de uma família exilada pelo terrorismo global, da luta pelo direito à educação feminina e dos obstáculos à valorização da mulher em uma sociedade que valoriza filhos homens. 
O livro acompanha a infância da garota no Paquistão, os primeiros anos de vida escolar, as asperezas da vida numa região marcada pela desigualdade social, as belezas do deserto e as trevas da vida sob o Talibã.
Escrito em parceria com a jornalista britânica Christina Lamb, este livro é uma janela para a singularidade poderosa de uma menina cheia de brio e talento, mas também para um universo religioso e cultural cheio de interdições e particularidades, muitas vezes incompreendido pelo Ocidente. 
“Sentar numa cadeira, ler meus livros rodeada pelos meus amigos é um direito meu”, ela diz numa das últimas passagens do livro. A história de Malala renova a crença na capacidade de uma pessoa de inspirar e modificar o mundo."

Links: Companhia das Letras | Skoob | comprar

Resenha:
Eu sou Malala acaba de entrar para as melhores biografias que já li em minha vida (juntamente com Infiel, de Ayaan Hirsi Ali e também da Companhia das Letras e A Casa do Céu, de Amanda Lindhout e Novo Conceito). Está entre os livros mais vendidos da atualidade.
O que essas autobiografias têm em comum? São três histórias escritas por três mulheres diferentes, porém enfrentando um mesmo problema: A censura, o sofrimento e uma batalha contra um sistema social, cultural e religioso. Embora sejam diferentes (as histórias, as motivações, os acontecimentos, os conflitos e os dramas) todas elas geraram biografias emocionantes, reflexivas e que mostram a luta da mulher em busca de seus direitos.

Com sua amada mochila recheada de livros.
No caso de Malala é poder ter acesso à educação e à liberdade de desfrutar da busca pelo conhecimento com outras meninas e mulheres; é poder ser muçulmana, mas, no entanto, uma menina respeitada por suas escolhas. Como ela repete inúmeras vezes, o Corão prega que todo muçulmano, seja homem ou mulher, deve buscar o conhecimento; buscar saber sobre o céu, as estrelas... Então, por que proibir as mulheres e meninas de estudarem, de serem alfabetizadas e de coisas cotidianas como sair de casa sozinhas ou obriga-las a cobrir o rosto e o corpo? Gosto quando no livro a mãe de Malala, mesmo analfabeta diz que é uma patchum antes de tudo e jamais vestirá uma burca; ou quando Malala diz que gosta dos lenços bonitos e de se cobrir com eles e enfeitar os cabelos, porém não cobre o rosto. Ou seja: Liberdade de ser e se vestir como quer!
Se uma mulher só pode ser atendida por uma médica mulher, como formar médicas se meninas só podem estudar até os dez anos de idade? Como ter professoras mulheres disponíveis para essas meninas, se nenhuma estudante do sexo feminino pode prosseguir os estudos? E por que uma mulher não pode ser outra coisa além dessas profissões? Ela alega que o Islã não proíbe as mulheres em serem letradas e trabalhadoras caso queiram. É uma das bases do discurso de Malala contra o regime Talibã.

O livro tem uma foto muito bacana no começo, de uma mão feminina pintada com desenhos curiosos. Em vez de enfeitarem as mãos com rebuscados desenhos de henna, Malala e as amigas desenhavam fórmulas de Química e ouras coisas na escola.
Em seguida temos um mapa do Paquistão destacando o vale Swat e arredores, região onde vive Malala e os fatos principais ocorrem. Ao lado tem um sumário, porque o livro é elaboradamente dividido em várias partes, capítulos e anexos - todos com títulos: Prólogo, Parte I (Antes do Talibã - oito capítulos), Parte II (O Vale da Morte - sete capítulos), Parte III (Três Meninas, Três Balas - cinco capítulos), Parte IV (Entre a Vida e a Morte - 2 capítulos), Parte V (Uma Segunda Vida - 2 capítulos), Epílogo, Glossário, Acontecimentos históricos do Paquistão e Swat, Agradecimentos e Fundo Malala. O meio do livro traz dezesseis páginas com fotografias coloridas sobre a vida de Malala.

Ela é patchum, tem orgulho de ser muçulmana e de viver no primeiro Estado oficialmente muçulmano, o Paquistão. O vale onde vive, o Swat é de origem humilde e antiga, um local lindo e tranquilo. As escolas são especiais e, embora a maioria das mulheres seja analfabeta, elas têm a opção de estudar. Não a tradição, porém Malala teve a sorte de nascer em uma família com um pai que não é machista e a estimula não apenas em relação aos estudos; ele a encoraja a algo ainda mais importante: Ter suas ideias, expressá-las e se orgulhar disso, sempre com fundamento e humildade.
Ela e sua família jamais imaginaram o quão longe isso levaria Malala, positiva e negativamente.

A capa traz seu rosto e o título, que a princípio pode sugerir estrelismo, mas não! É uma autobiografia: Eu sou Malala. No decorrer da história essa frase encorpa tantos significados que refleti como um nome pode carregar poder, mesmo oriundo de uma menina a qual acompanhamos a jornada principalmente dos oito aos dezesseis anos.
Uma menina que começa a se interessar fortemente pelo conhecimento e termina como uma moça sobrevivente a um atentado brutal por simplesmente defender o princípio de que todos têm direito à educação, mesmo as meninas muçulmanas. O Talibã, instalado no Paquistão a vê como uma ameaça quando ela atinge a idade adulta para uma muçulmana, quinze anos.
Então o maravilhoso mundo escolar e dos livros, que para Malala é a melhor parte de sua vida, depois da família e seu querido Swat, é arrancado repentinamente. Meninas não podem estudar após os 10 anos de idade.
Malala e sua família.
Dentre tanto terrorismo que o Talibã impõe à população, como explodir escolas, chicotear mulheres nas ruas, decapitar pessoas por agirem contra o Islã e transformar um local pacífico em um campo de guerra e medo, Malala observa o mundo tranquilo virar de pernas pro ar, mas não desiste.
Até o Exército e o Governo se tornam caos e parecem alienados frente a tantos acontecimentos.

Embora seja a história de uma menina, o livro não é uma leitura para qualquer tipo de leitor. É um livro muito instrutivo, uma narrativa em primeira pessoa que não se preocupa apenas em contar a vida de Malala. É um livro voltado demais às informações históricas, geográficas, culturais, sociais e religiosas de um povo, de um país, de um estilo de vida. Tudo totalmente diferente do que estamos acostumados. Então dados sociogeográficos, fatos históricos e explicações culturais e religiosas são constantemente apresentados, praticamente por todo o livro.
Datas, nomes, tradições... Então não recomendo o livro se você não tem interesse em conhecer uma história de não-ficção concentrada não apenas na visão, sentimentos e pensamentos da protagonista, mas também na vida e história de uma região, uma parte de um povo.
A leitura pode parecer cansativa para quem apenas quer saber a história da Malala, os motivos dela lutar pela educação e ter sido baleada pela Talibã.
Recomendo este livro para quem quer através da Malala, uma menina que passou por fatos únicos e marcantes, mas que representa o espírito e luta de muitas "Malalas" ao redor do mundo - meninas que lutam por liberdade, por direito à educação e pelo respeito - e as que baixam a cabeça por ignorância ou falta de opções.

É um livro que deveria ser lido por todos. Mesmo que achem algumas informações chatas ou desnecessárias, não o são! O leitor precisa absorver cada item apresentado para tentar imaginar como é estar na pele da Malala, como seria ter aquela vida e sofrido o terror que a derrubou.
É interessante até a última página. Você aprende muito sobre outra forma de vida. E o mais diferente: Pelos olhos de uma moça jovem, que ainda tem a inocência e sonhos infantis. Vemos essa menina tornar-se uma mulher de fibra, uma criança estudiosa que se transforma em uma influente ativista política.
Ela queria apenas estudar e resguardar o direito das amigas de fazerem o mesmo. Seu desejo passa a ser de ver toda criança carente estudando, principalmente as meninas, que logo são obrigadas a abandonar a escola de vido às más interpretações do Islã. Malala nem percebe que sua vontade se estende a querer que todas as crianças e jovens possam estudar, que todo adulto seja alfabetizado, que todo muçulmano possa ter acesso ao conhecimento. E ela vai longe e longe, desejando que a educação seja um direito à todas as pessoas, de todas as religiões.

Acredito que é uma história que deveria ser lida por todas as pessoas, principalmente pelos estudantes. Para que todos valorizassem mais os estudos, que buscassem por mais conhecimento, que fizessem de uma das prioridades de suas vidas valorizar a educação. Seja a própria ou de outros ao redor.
Malala cometeu um crime: Estudar e discursar sobre a importância disso na vida de todos. Lutar contra a ignorância, pois um povo sem acesso ao conhecimento obedece cegamente a qualquer regime implementado.
Malala se recuperando no hospital após o atentado.
O Talibã fez isso no Swat e muitas regiões: Utilizava o exagero do fundamentalismo islâmico para mandar em uma população sem educação alguma, logo fácil de ser controlada e intimidada. Utilizando a religião e a ignorância, implementou o medo, o horror. Parece até ficção, por isso, este livro deveria ser obrigatório em todas as escolas, não apenas a leitura, mas debates e reflexões. Uma ferramenta de conscientização da importância, do poder do saber, educação, estudo, conhecimento!

Porém Malala insistiu. De início discretamente, depois com mais entusiasmo a pregar que todos merecem ter a opção e direito à educação básica. Aos poucos ela foi chamando a atenção para ela, para o pai, proprietário de uma escola... Até tornar-se "adulta" e ameaçada pelo Talibã; este acusando-a de querer "ocidentalizar" e ir contra o Islã.
Mas a maioria pensava que o Talibã jamais atacaria uma menina, não uma simples menina, uma menina qualquer que quer apenas ir pra escola... Que queria seus livros, professores, canetas e amigas de escola... O Talibã bate nas mulheres que não cobrem a cabeça, que andam sem um homem acompanhando-as nas ruas, que dançam conforme antigas tradições; mata ativistas políticos contrários ao seu regime; decapita pensadores e filósofos com ideais contra a "talibilização"; assassina qualquer homem ou mulher para dar exemplo de que os atos pelos agora mortos não devem ser praticados; tortura quem não segue as regras; explode escolas que mantêm meninas, bombardeiam hospitais que dão vacinas; atiça homens-bomba (e mulheres) a se sacrificarem em uma jihad extremista; pratica atentados contra os próprios civis muçulmanos; enfrenta Exércitos e Governos.
"O Talibã jamais atacaria uma menina." Todos diziam. Malala é a prova de que o terrorismo não tem limites.

Uma ordem instaurada que causa grande alarme político mundial e suja a imagem dos muçulmanos.
Um livro como esse da Malala serve para quebrar o tabu de que todo muçulmano é machista, insano, ignorante e preconceituoso. Serve para explicar que existem vários tipos e que não devemos generalizar.
E que em guerras e conflitos, não importa entre quem ou o quê; é sempre a população civil quem mais sofre.
Malala sobreviveu e lutou muito para se recuperar.

Discursando na ONU em seu 16º aniversário!
Ganhou dentre vários prêmios o Nacional da Paz no Paquistão e foi a mais jovem indicada ao Prêmio Nobel da Paz. No décimo sexto aniversário discursou na ONU em prol do direito à educação de todo ser humano. Criou o Fundo Malala e recebeu o apoio de diversos políticos como Barack Obama e celebridades como Angelina Jolie. Ela foi entrevistada e palestrou em diversos veículos de mídia pelo mundo.

Acha chato uma biografia? Experimente uma contada por uma adolescente que ao mesmo tempo em que é especial, uma guerreira, é também igual a tantas outras lutadoras anônimas que sofrem pelo mundo. Malala é sua voz, Malala é um exemplo inspirador para qualquer pessoa!
Destaque: Que lindo ela lendo O Mágico de Oz no hospital e se vendo em Dorothy, que embora tente voltar para casa, seu humilde lar, para e ajuda necessitados pelo caminho. Malala é assim, almeja se recuperar, retornar ao simples lar e ajudar as pessoas!

As autoras:


Malala Yousafzai nasceu em 1997, no vale do Swat, Paquistão e chamou a atenção do público ao escrever para a BBC Urdu a respeito da vida sob o Talibã e sobre a luta de sua família em defesa do direito à educação feminina.
Em outubro de 2012, Malala foi perseguida pelo Talibã e atingida na cabeça por um tiro quando voltava de ônibus da escola. Contrariamente às expectativas, sobreviveu e agora continua sua campanha por educação por meio do Fundo Malala, uma organização sem fins lucrativos de apoio educacional em comunidades ao redor do mundo.

Christina Lamb é jornalista e correspondente no Paquistão e no Afeganistão desde 1987. Formada em Oxford e Harvard, é autora de cinco livros e vencedora de diversos prêmios, incluindo o Pix Bayeux, honraria mais prestigiosa da Europa para correspondentes de guerra.
Atualmente trabalha para o Sunday Times.

The Malala Fund:
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Vídeo: Malala na ONU (sem legendas - lembrando que foi muito difícil para ela voltar a falar).




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