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21 de abril de 2014

Não Voltarás, Hans Koppel e Verus Editora (Grupo Editorial Record)

Não Voltarás (Kommer Aldrig mer Igen)
Uma trama cruel de vingança, de um escritor cujo estilo tenso e realista o inscreve na tradição dos melhores suspenses nórdicos.
Hans Koppel - Verus Editora
Tradução: Jorge Ritter
294 páginas - Ano: 2014 - R$35,00

Sinopse:
"Um suspense angustiante que vem arrebatando leitores no mundo inteiro.
Mike Zetterberg vive com a esposa Ylva e a filha do casal numa pequena cidade praiana na Suécia. Uma noite, Ylva não volta para casa depois do trabalho. Mike acredita que ela só foi tomar um drinque com as amigas, mas, quando ela não aparece na manhã seguinte, ele começa a se preocupar.
Enquanto Mike lida com as suspeitas da polícia e com o próprio desespero, ele nem desconfia de que sua esposa está viva e a apenas alguns passos de casa, presa num porão do outro lado da rua, atraída para uma trama horripilante de punição e vingança. Uma câmera de vigilância lhe permite ver sua família pela tela da TV. Eles não podem vê-la — e certamente não podem escutar seus gritos desesperados de socorro...
Não voltarás é um livro eletrizante, que vai prender os leitores da primeira à última página.
Mais de 100 mil cópias vendidas na Suécia e mais de 60 mil no Reino Unido."

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Resenha:
Um título intimidador, principalmente após ler a sinopse: Uma trama em que uma mulher é sequestrada e seu cativeiro é no porão em frente a sua própria casa. Enquanto sequestrada ela pode ver em uma TV sua casa e seu marido e filha devido a uma câmera de segurança posicionada ali pelos sequestradores.
Na capa, uma mulher fugindo por uma floresta: Será que Ylva escapará? Voltará para seu lar, ali, do outro lado da rua?
Não Voltarás é um thriller psicológico com sessenta e três capítulos curtos e instigantes. Pode ser lido em uma ou duas sessões, dependerá de quanto tempo o leitor tem disponível. É uma leitura extremamente dinâmica, com ação e mistérios que o seguram, fazendo-o desejar emendar um capítulo ao outro.

O principal elemento está na narrativa em terceira pessoa crua e direta. As cenas são curtas e contadas com muita simplicidade. Não há profundidade explícita em relação aos sentimentos e pensamentos das personagens, embora exista uma enorme complexidade entre elas. Relacionamentos complicados, confusos e muitas frustrações; medo e culpa nas entrelinhas.
Não há descrições de aparências, figurino e ambientes. Parece que a intenção ou estilo do autor é focar única e diretamente nos fatos. Ao ler eu apenas imaginava o que aconteceria, como e por que. Pensava nas motivações de cada uma das personagens.
Me preocupei inicialmente com a falta de detalhes para criar cenários, rostos e trejeitos. O autor não se preocupa com aparências; não se preocupa com o exterior. Apenas mostra o interior da história. É importante entrar nesse clima: Ler pensando apenas em quem as personagens são e não como são; ler imaginando apenas no lado psicológico delas e não o físico. Soa estranho, pode até parecer descuido do autor, mas após perceber o motivo da narrativa ser assim, a leitura voa.
Então quem necessita ou realmente aprecia descrições, não recomendo o livro. Já se o leitor quer apenas fatos e boa história sem se importar com a ausência de faces, recomendo Não Voltarás.
Acredito que esse seja o diferencial do livro, pois a história em si não é inovadora, embora seja marcante.

Começa com um assassinato terrível e uma palestra de um psiquiatra sobre o relacionamento entre vítima e perpetrador. Após esses rápidos eventos conhecemos todos os cenários e personagens paralelos que centralizam e complementam o enredo. Vou apresentá-los brevemente:
Ylva é a mulher sequestrada, não sabemos por quem. Mike é seu marido, que não sabe o que fazer perante o desaparecimento dela e Sanna é a filha do casal.
Os dois investigadores da polícia que não dão a devida importância ao caso, já que na Suécia os desaparecimentos são frequentes. Geralmente a causa vem de suicídios e homicídios oriundos de depressão, um mal que assola o país.
Em outro cenário os amigos Calle e Jörgen vivem cada um à sua maneira, até relembrarem casualmente dos tempos de colégio. Eles resgatam lembranças e começam a perceber fatos estranhos ligados a um grupo de colegas do passado. Os integrantes estão mortos e alguns pontos não estão esclarecidos. Então os dois descobrem que a ex-colega de turma e único membro sobrevivente deste grupo está desaparecida!
Ylva sofre as mais horrendas torturas físicas e psicológicas nas mãos dos sequestradores.
O autor desenvolve e explora cada fase da relação dela com estes exatamente como... A palestra dada pelo psiquiatra que é apresentada no início do livro.
Cada etapa da relação entre vítima e perpetradores é introduzida pelas explicações básicas e diretas do palestrante. Em seguida o leitor observa e analisa psicologicamente os acontecimentos comparando com a introdução e enxerga ligações entre teoria e prática.

Esta é a premissa do livro. Inicialmente alguns fatos parecem desnecessários, os acontecimentos não se encaixam, porém o autor entrelaça tudo aos poucos.
Ylva voltará para casa? Essa é a grande questão, já que não existe nenhuma prova, ninguém desconfia o que aconteceu nem imagina que ela está presa em frente à sua casa. Será? Como ela poderá ser libertada se não há pista nem escapatória? Estão procurando por ela? Ela não sabe...
E o passado que assombra é o outro grande mistério do livro. O que levou Ylva a ser presa por essas pessoas é algo marcante que ocorreu em sua vida há vinte anos. Seu marido não sabe.
Ylva está sendo punida por algo que aconteceu há muito tempo. Será que seu pecado é tão grande para merecer ser maltratada brutalmente por justiceiros?
Desde o início o leitor fica ciente do comportamento inconsequente e irresponsável de Ylva. Ela não é um "exemplo" de esposa ou mãe. Essas não são suas prioridades. Sua infidelidade, mentiras e saídas noturnas constantes são agora um obstáculo na busca por ela. Sair para beber com as amigas e voltar para casa no dia seguinte é comum em sua rotina. Quando o marido se preocupa com o "atraso" e em seguida com o desaparecimento, poucas são as pessoas que compartilham do sentimento.

Por mais que ela não seja uma mulher exemplar segundo o olhar padrão da sociedade, ela não merece ser sequestrada, abusada e torturada. O que me irritou profundamente durante a leitura é o descaso de todos com quem ela convive: Marido, sogra, vizinhos, amigos e colegas de trabalho!
Por mais promíscua ou "errada" que ela possa ser, como as pessoas ignoram seu desaparecimento? Eu fiquei chocada em como a polícia trata este caso apenas como outro qualquer. Eu fiquei com raiva em como Mike, aos poucos, aceita tudo, se sente até mesmo aliviado! Em como ele e a filha, com a ajuda de Kristina (mãe de Mike) retomam a rotina. Eles sofrem? Sim, mas até certo ponto, pois logo parecem esquecer de Ylva. Não saber o paradeiro de um ente querido e ficar calmo? Porque me pareceu que ele unicamente se preocupou mesmo se a suspeita da polícia se voltaria para ele.
A filha é inocente, muito jovem para compreender, então ela segue o pai e avó. No entanto, todos os adultos não demonstram sentir falta de Ylva. E ela está ali, sofrendo do outro lado da rua, vendo como a vida continua normalmente sem sua presença. A dor é física e psicológica. Ylva é abusada e manipulada de diversas formas imorais.
Embora Mike seja suspeito, a polícia não possui pistas, nada sobre o caso, exceto informações frágeis e depoimentos que não convergem.

É uma história cruel, de redenção e de vingança. sobre relacionamentos, ética e moralidade. É na simplicidade da abordagem literária que se esconde a complexidade da história. Representações de vários papéis sociais, um mundo imperfeito com pessoas comuns. São muitos os dilemas morais neste thriller recheado de personagens manipuladoras / manipuladas.
O que está em jogo são as fraquezas de cada um, o arrependimento e o erro. É justo fazer alguém sofrer pelo passado?
De um modo geral a intenção do autor foi mostrar a infelicidade no cotidiano, em não tentar mudar a vida e buscar felicidade. Uma crítica a uma sociedade acomodada. A vida passa de forma deprimente.
Através do sofrimento de Ylva e as reações causadas (ou não) por seu desaparecimento provam que às vezes alguém de fora pode se comover mais do que a família.
Será que Ylva e Mike se amam? Será um casamento sem valor? Ambos não admitem ou expõem suas verdadeiras ideias e sentimentos. A complexidade desse casamento é o ponto de partida da história.
Antes mesmo do sequestro / desaparecimento e "julgamento" de ambos, o leitor monta o quebra-cabeças sobre o relacionamento do casal. Ylva é o lado forte, a que comanda e Mike é o que segue e obedece.
É difícil definir bem os vilões e os heróis, eles não existem. O que temos é uma história de vítima / culpado e a inversão de papéis! Grande jogada do autor que nem todos os leitores irão reparar: Todos em algum momento da história são vítimas e culpados / culpados e vítimas. Fascinante. Embora o autor explore essa questão existencial sombria dos seres humanos até os maiores níveis, podemos adequar essa ideia para o dia-a-dia de qualquer grupo social.

Livro muito fácil de ler, mas não tão fácil de ser absorvido. Vingança, violência, medo, descaso e intolerância estão presentes e infelizmente, a verdade também. Um mundo feio e sombrio por detrás de sorrisos e vidas aparentemente perfeitas e lares que fingem felicidade.
Livro direto, do tipo que necessita de mais reflexão após a leitura do que durante. Estranho, mas diferente.

O autor:
Hans Koppel é o pseudônimo de um conhecido escritor sueco, Petter Lidbeck, que nasceu em 1964 e mora em Estocolmo. Petter escreveu vários livros infantis, mas desde 2010 assumiu o pseudônimo e passou a escrever ficção adulta.





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