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18 de agosto de 2015

A Garota no Trem, de Paula Hawkins e Editora Record (Grupo Editorial Record)

A Garota no Trem (The Girl on the Train)
Paula Hawkins - Editora Record / Grupo Editorial Record
Tradução: Simone Campos
378 páginas - 2015 - R$35,00
Comprar: AmazonAmericanas | Cultura | FnacSaraiva | Submarino

Sinopse:
"Todas as manhãs Rachel pega o trem das 8h04 de Ashbury para Londres. O arrastar trepidante pelos trilhos faz parte de sua rotina. O percurso, que ela conhece de cor, é um hipnotizante passeio de galpões, caixas d’água, pontes e aconchegantes casas.
Em determinado trecho, o trem para no sinal vermelho. E é de lá que Rachel observa diariamente a casa de número 15. Obcecada com seus belos habitantes – a quem chama de Jess e Jason –, Rachel é capaz de descrever o que imagina ser a vida perfeita do jovem casal.
Até testemunhar uma cena chocante, segundos antes de o trem dar um solavanco e seguir viagem. Poucos dias depois, ela descobre que Jess – na verdade Megan – está desaparecida.
Sem conseguir se manter alheia à situação, ela vai à polícia e conta o que viu. E acaba não só participando diretamente do desenrolar dos acontecimentos, mas também da vida de todos os envolvidos. 
Uma narrativa extremamente inteligente e repleta de reviravoltas, A garota no trem é um thriller digno de Hitchcock a ser compulsivamente devorado."

Resenha:
Resenhar este livro é um ato delicado, porque informações excessivas (muito além da sinopse) podem estragar a leitura, assim como a falta delas, fazer o leitor optar ou não por lê-lo pelos motivos errados. Esta resenha não tem spoilers; é informativa, para saber apenas que tipo de livro é, sua base e como foi a minha experiência.
Publicado em inglês em janeiro de 2015, A Garota no Trem (The Girl on the Train) já ultrapassou a marca de 3 milhões de exemplares vendidos apenas nos Estados Unidos! Encontrei a notícia em um artigo online recente e estou impressionada com os dados. O livro acaba de chegar ao Brasil (final de julho - início de agosto / 2015) pela Editora Record (do Grupo Editorial Record) e encontra-se em quarto lugar da lista de mais vendidos de livros de ficção, segundo o Publishnews. E tem tudo para subir ainda mais nos rankings de vendas e avaliações de críticos e leitores.
Além disso, teve os direitos cinematográficos adquiridos pela DreamWorks, conforme noticia o site da autora!
Indicado para quem gostou de Garota Exemplar (Gillian Flynn, Intrínseca, 2013) é, na verdade, uma obra indispensável aos apreciadores de um bom suspense. Se você é fã do gênero não vai conseguir ficar sem uma opinião sobre o livro de estreia de Paula Hawkins. Até Stephen King gostou do livro!
A capa condiz perfeitamente com o conteúdo: Uma figura feminina observando a paisagem por onde se desloca o trem em que ela está. Com a legenda "Você não sabe quem ela é, mas ela conhece você." e uma sinopse instigante, até mesmo quem não é fã de suspense fica curioso sobre o enredo. Quem é a garota no trem, o que ela viu de chocante, que segredos ela guarda e em que mistério ela se envolverá por contar o que sabe a polícia?

A comparação com Garota Exemplar é válida por semelhanças usadas como base nas obras, mas não pensem que A Garota no Trem não tenha sua própria personalidade; não pensem que é "mais do mesmo", uma cópia, nada disso!
As características secundárias (presentes em várias obras, não sendo exclusividade de Garota Exemplar ou A Garota no Trem) são: Gênero suspense, público adulto como alvo principal, narrativa em primeira pessoa com mais de um narrador, protagonistas femininas, ritmo do desenvolvimento do enredo em formato de thriller e conteúdo de alto teor psicológico.
Outras semelhanças mais definidas são acerca dos temas principais envolvidos: Violência doméstica, relacionamentos amorosos questionados, ambientação sombria, personagens não confiáveis e o desaparecimento de uma mulher como ponto central da trama. Além do leitor não saber se deve confiar nos narradores, existe o fato de que as personagens não podem ser classificadas claramente como heroínas ou vilãs e, em certos momentos, nem mesmo quem antagoniza ou simpatiza com quem. Em determinados pontos, pode parecer que você reconhece aliados e inimigos, mas, de repente, os relacionamentos mudam ou novos fatos vêm à tona. É simplesmente fantástico o modo como a autora conduz os embates entre as personagens.
Já as diferenças que destaco: A Garota no Trem possui ritmo mais acelerado, gerando maior quantidade de acontecimentos. As personagens possuem melhor exploração e desenvolvimento psicológico, tratando-se de pessoas mais realistas. É possível observar não apenas características de personalidade, mas também comportamentos e problemas deles derivados bastante coesos e concretos. As personagens são complexas e esse é o ponto mais forte da trama: Observá-las, imaginar conhecê-las e tentar compreendê-las. Com traumas e problemas, cada personagem acrescenta ao enredo suspense e inúmeras possibilidades de caminhos para o desfecho.

Essa foi a experiência mais marcante da leitura: minha imaginação não parava. Muitos livros de suspense têm a capacidade de surpreender e, até mesmo chocar (especialmente ao término), mas poucos realmente forçam o leitor a pensar enquanto lê. É comum no gênero a obra guiar o leitor, muitas vezes enganando-o, e surpreendendo-o no final. Mas aqui, durante o trajeto, a mente acelera, tentando ultrapassar as linhas, é uma incrível sensação. O mistério de A Garota no Trem é eficiente, predominante e não deixa o leitor descansar. Eu lia e pensava diversas possibilidades, tentando me anteceder aos fatos. Criei, até mesmo, ideias absurdas sobre os segredos do livro; Portanto, este me fez pensar e carregar a sensação de que era algo mais forte que adivinhar o mistério, era como querer desenvolver tudo sozinha. A Garota no Trem vai além do termo "eletrizante" utilizado para mostrar o quanto uma obra acelera o coração e os neurônios, com um acontecimento atrás do outro: faz você tentar decifrar a trama a todo o custo.
A autora conquista no começo, arrebata durante todo o desenvolvimento, surpreende muito ao clímax e apresenta um final com ação, desafios e fecha o livro muito bem. Pensei em inúmeras opções para o desfecho, incluindo um parecido dado pela autora e, ainda assim, dou cinco estrelas ao livro, porque roer as unhas ao mapear todas as questões e possibilidades é raríssimo para mim.
Quem está no trem não é uma garota; é uma mulher adulta, com trinta e poucos anos. Essa é a faixa etária das personagens. Eu mudaria o título para "A Mulher no Trem" facilmente. Não é um livro juvenil ou young adult como haviam me perguntado. Outra questão é que, embora boa parte da trama ocorra na região da linha do trem, não é uma história passada exclusivamente dentro dele (sim, me perguntaram isso).

São três narradoras: Rachel, a protagonista; e duas outras mulheres importantes: Megan e Anna. Cada uma possui uma mancha no passado, do tipo que se tenta limpar, mas jamais desaparece. O segredo está na capacidade em escondê-la.
Rachel é a mulher no trem. Diariamente, sai pela manhã de Ashbury e vai para Londres; e depois no fim do dia retorna. Portanto, decorou o trajeto. Em uma das paradas (sua preferida) observa a casa número 15. Lá vive um casal que, aos olhos de Rachel, é lindo, feliz, apaixonado. Ela os nomeou "Jess e Jason" e de tanto observá-los, teceu um mundo fantasioso sobre o relacionamento e a rotina dos dois. Sempre que passa na frente da residência ela observa e absorve mais um detalhe para sua imaginação.
Rachel é alcoólatra. Sua capacidade em esconder isso está quase desaparecendo com a sobriedade. Mesmo assim, ainda tem seus segredos e tenta se agarrar ao que ela já foi, ao que já teve. Seu passado está diretamente ligado a essa linha de trem. Observando a felicidade de Jess e Jason nos poucos minutos que os vê ao dia, Rachel idealiza Jess como uma mulher fascinante; como poderia ter sido se a depressão e o álcool não a agarrassem.
Até que Rachel acha que viu uma coisa. Não tem certeza. E vem a notícia do desaparecimento de uma jovem mulher chamada Megan. Que mora ali, exatamente no número 15. Jess é Megan e Rachel passa a ter certeza de que viu algo importante. Resolve ir à polícia contar tudo. Desse modo, sua vida se transforma. Já era ruim, se torna um pesadelo. Rachel fica presa em um labirinto que mescla suas dores ao desaparecimento de Megan, interligando as vidas das três. Rachel, Megan e Anna aparentemente não têm muito em comum, mas no decorrer da trama, aos poucos, o leitor descobrirá como elas estão unidas. Não conto sobre Megan e Anna (e contei pouco sobre Rachel) para você descobrir isso pessoalmente!
Rachel é a principal narradora, mas divide esse papel com Megan e Anna. Rachel conta ao leitor a história até o ponto em que Jess (ou Megan) desaparece. A partir de então, começam os capítulos alternados, pois Megan vai narrando sua versão. Anna, moradora do número 23, é apresentada e posicionada na trama. Também começa a narrar o que sabe, sob seu ponto de vista. O leitor sabe que Megan narra fatos do passado recente, enquanto Rachel e Anna narram o presente. Não se preocupe, não é complicado. É mais complicado explicar do que conferir na prática (até porque tem a data nos capítulos).

A estrutura narrativa da autora é fabulosa, calculada, completa. Ela vai ao passado, constrói as personagens, mostrando como elas se interligam, assim como tudo ao redor da linha do trem. Até deixar o leitor completamente alerta e ansioso por mais. Não é um livro sobre apenas descobrir o mistério, mas sobre como um bom suspense deve ser. É uma obra que mesmo "acertando o final", você vai apreciá-la, simplesmente por ser excelente.
É o tipo de história que todo detalhe pode ser importante, é necessário prestar atenção, porque há o perigo de pistas falsas. Mas não aceite tudo exatamente como elas contam. Por motivos diferentes, elas podem confundir você. Não propositalmente, mas podem. Conforme citado, Rachel bebe demais. Megan e Anna possuem também seus problemas e falhas.
Além do leitor querer descobrir por que Megan desapareceu, vai desejar conhecer melhor essas três mulheres. Não importa se uma é mentirosa. Ou traidora. Ou egoísta. Não importam seus problemas de comportamento, impulsos ou falhas de caráter. Não julgue as personagens, tente analisar psicologicamente cada uma e terá uma leitura ainda mais proveitosa! Não precisa ser especialista para notar como todas têm problemas, mesmo que você não compreenda bem. Elas são pessoas comuns mergulhadas na realidade implacável de que o mundo é cheio de segredos. Todo mundo tem um. Mas em A Garota no Trem, segredos podem encobrir violência e crimes.
É um livro sobre como as aparências enganam. Somos manipulados e manipuláveis. Sabe o ditado "A grama do vizinho é sempre mais verde."? Pode ser aplicado ao livro. Nem sempre as coisas são o que parecem. Por detrás de uma pessoa perfeita, incontáveis defeitos ou problemas. E escondido dentro de um perdedor há sempre a possibilidade de um guerreiro se rebelar.
É uma mensagem sobre o quanto verdadeiramente você conhece uma pessoa. Sobre a surpresa em descobrir que você pode, talvez, não conhecer ninguém. Ou que aquele estranho completo tem mais em comum com você do que um familiar ou cônjuge.
A autora possui o modo perfeito de conduzir o leitor, sem entregar os segredos de uma vez. É impressionante, complexo, mas não assustador. Possui a carga ideal de drama e suspense, entrando para a lista de melhores thrillers que já tive o prazer de ler.
Viaje nesse trem e descubra que segredos esse trajeto esconde!

A autora:
Paula Hawkins trabalhou como jornalista durante quinze anos antes de escrever ficção. Ela mora em Londres.
A Garota no Trem é seu primeiro suspense, está sendo publicado em todo o mundo e teve os direitos cinematográficos comprados pela DreamWorks.

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