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21 de setembro de 2015

O Vilarejo, de Raphael Montes e Suma de Letras Brasil (Grupo Companhia das Letras)

O Vilarejo
Raphael Montes - Suma de Letras Brasil / Grupo Companhia das Letras
Ilustração: Marcelo Damm
96 páginas - 2015 - R$29,90
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Sinopse:
"Ilustrações coloridas dão vida a romance com elementos de horror gótico e suspense.
Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. É a partir daí que Raphael Montes cria sete histórias situadas em um vilarejo isolado, apresentando a lenta degradação dos moradores do lugar, e pouco a pouco o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pela neve e pela fome.
 As histórias podem ser lidas em qualquer ordem, sem prejuízo de sua compreensão, mas se relacionam de maneira complexa, de modo que ao término da leitura as narrativas convergem para uma única e surpreendente conclusão."

Resenha:
Raphael Montes é um dos grandes nomes do gênero policial atual no Brasil. Seu primeiro romance foi Suicidas, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2013. Dias Perfeitos, publicado em 2014, teve os direitos de tradução vendidos para treze países. Suicidas e Dias Perfeitos tiveram os direitos de adaptação vendidos para o cinema. Raphael escreve uma coluna mensal no blog da Companhia das Letras e outra no Jornal O Globo. Como roteirista, escreve para cinema e televisão, destacando a série Espinosa da GNT e o seriado Supermax da Rede Globo.
Além disso, já publicou vários contos em antologias variadas. Foi assim que conheci o trabalho do Raphael, através de dois contos pela Estronho, em 2011: Banquete (Demônios VII: Gula) e As Irmãs Valia, Velma e Vonda (Demônios VII - Inveja). Os contos são excelentes, portanto, fiquei muito empolgada com seu lançamento de agosto pela Suma de Letras Brasil, do Grupo Companhia das Letras: O Vilarejo.
Recebi um exemplar como cortesia da editora e me senti extremamente honrada com a surpresa: O livro veio com dedicatória e autógrafo do Raphael! Não esperava, especialmente por ser nominal. Eu havia terminado uma leitura e estava prestes a partir para a próxima quando O Vilarejo furou fila. O li com rapidez, pois é curto e, mesmo se tratando de contos, não pausei, por tamanha satisfação.


O exemplar é muito caprichado, tanto no visual quanto na revisão e diagramação. É composto por ilustrações em cores do Marcelo Damm. São maravilhosas, com traços finos e detalhados, representando bem o clima dos contos. Sempre mostrando uma cena forte, quase sempre o clímax de cada história. Mas sem spoilers, porque cada desenho aparece após o trecho referente.
O papel é o pólen soft bold, que eu adoro, com algumas páginas pretas que deixam o livro ainda mais sombrio. Em algumas páginas, tinta vermelha foi utilizada para fingir sangue respingado no papel. O resultado final é perfeito. Além disso, possui orelhas e traz capa que combina com o enredo.
Indicado por André Vianco e Raphael Draccon, O Vilarejo é um livro de suspense e horror. Dependendo do leitor, a sensação será de terror também. Isso, porque, os contos podem provocar ansiedade e medo que antecedem o clímax e, ainda assim, causar repulsa e choque logo em seguida. A uma narrativa possui qualidade impecável. Histórias tão arrepiantes e assustadoras, tanto na parte fantasiosa quanto na psicológica. Raphael Montes mostra características que remetem Stephen King. Pode ser apenas questão de tempo para Montes ser o King brasileiro.
Quem não gosta muito de contos pode ser convencido a ler: as sete histórias são interligadas e assim que chegar ao ápice da última, descobrirá uma ligação ainda mais intensa. Todos os contos se passam no mesmo vilarejo, aproximadamente ao mesmo tempo ou com diferença apenas de anos ou, no máximo, uma década ou um pouco além. Portanto, são histórias independentes e sem ordem concreta, mas que se unem para tecer uma única trama direta: A desgraça e decadência de um vilarejo e seus habitantes.


O livro traz prefácio e posfácio onde o autor explica a origem dos contos. Mexe com a mente do leitor plantando a ideia de que talvez o vilarejo possa ter existido, ao menos em forma de folclore. O prefácio já me deixou muito animada, porque é exótico: uma breve história antes da história central, que me fez pesquisar a respeito e descobrir o livro Se um Viajante numa Noite de Inverno. Depois que cheguei ao posfácio fiquei arrepiada: Ótimo final. Raphael é genial e inova com sete histórias arrepiantes e uma "origem" curiosa (não posso contar!).
O tema dos contos são os tradicionais pecados capitais. Segundo o padre e teólogo Peter Binsfeld (1545-1598) cada pecado é provocado por um dos sete reis do inferno: Belzebu (gula), Leviathan (inveja), Lúcifer (soberba), Asmodeus (luxúria), Belphegor (preguiça), Mammon (ganância) e Satan (ira). Neste livro, os pecadores são moradores de um vilarejo que parece deslocado em relação ao mundo. Não é possível dizer com exatidão a época ou a localidade. Os pecados chegam ao extremo de violência, tortura e morte. Cada conto mostra um e ao término da leitura, todos se unem.
A narrativa é sempre em terceira pessoa e a escrita é intrigante, ágil e simples, contribuindo para uma leitura movimentada. Como o enredo já é pesado, com muito sangue, é ótimo o texto ser de fácil absorção, sem detalhes e descrições excessivos. No entanto, o estilo é magnífico, um exemplo perfeito de texto ótimo, enxuto e, ainda assim, de alta qualidade.


O ponto forte do livro é descobrir as ligações entre um conto e outro, perceber a linha temporal e a vida em comunidade do vilarejo. A impressão é de que o próprio vilarejo é uma personagem; é vivo e protagoniza sua história através dos moradores. A cada conto, o leitor descobre mais um pouco sobre personagens que já participaram de contos anteriores. Então, são sete contos formando uma só trama. Todas as conexões são nítidas e compreensíveis.
O autor se destaca pela forma como conduz o quebra-cabeça. Mais ainda que o suspense, horror e terror, ele possui grande talento para desenvolver a trama. Não me lembro de ter lido uma obra assim. Os contos podem ser lidos em qualquer ordem, exceto por Um Homem de Muitos Nomes; este realmente precisa ser lido por último.
Mais que assustador, o livro é inteligente. Indispensável para fãs de terror e horror. Excelente para quem procura uma leitura breve, porém de qualidade. Histórias recheadas de personagens perturbadas, vingativas, perdidas, cruéis e egoístas.
O pior da humanidade está neste vilarejo pequeno, inóspito e sangrento; o leitor também encontra no vilarejo de Raphael Montes o melhor do horror nacional!


Os contos:
Banquete para Anatole*
As Irmãs Vália, Velma e Vonda* (meu conto preferido!)
O Negro Caolho
A Doce Jekaterina*
A Verdadeira História de Ivan, o Ferreiro
O Porquinho de Porcelana
Um Homem de Muitos Nomes

*Publicados em 2011 em antologias da Editora Estronho. Havia lido dois deles e desconfiado que remetiam ao mesmo vilarejo. Bela surpresa Raphael Montes ter prosseguido com o projeto em um livro solo!


O autor:
Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na Playboy e na prestigiada revista americana Ellery Queen Mystery Magazine.
Suicidas (Saraiva), romance de estreia do autor, foi finalista do prêmio Benvirá de Literatura 2010, do prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do prêmio São Paulo de Literatura 2013. Dias Perfeitos (Companhia das Letras) teve os direitos de tradução vendidos para treze países, entre eles Alemanha, Tawain e Estados Unidos.
Suicidas e Dias Perfeitos tiveram os direitos de adaptação vendidos para o cinema.
Atualmente, Raphael assina uma coluna mensal no Blog da Companhia das Letras e outra no jornal O Globo. Além disso, escreve roteiros para cinema e TV, como a série Espinosa (GNT) e o seriado de terror Supermax (Rede Globo).
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