Longe de Casa de Malala Yousazai e Seguinte (Grupo Companhia das Letras)

Longe de Casa: minha Jornada e Histórias de Refugiadas pelo Mundo (We Are Displaced)
Malala Yousazai - Editora Seguinte / Grupo Companhia das Letras
Tradução: Lígia Azevedo
184 páginas - R$ 39,90 (impresso) e R$ 27,90 (ebook) - trecho
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Sinopse:
"Neste livro, a mais jovem ganhadora do prêmio Nobel da paz conta sua história de migração e dá voz a garotas que estão entre os milhões de refugiados pelo mundo.
Ao longo de sua jornada, a paquistanesa Malala Yousafzai visitou uma série de campos de refugiados, o que a levou a pensar sobre sua própria condição de migrante — primeiro dentro de seu país, ainda quando criança, e depois como ativista internacional, livre para viajar para qualquer canto do mundo, exceto sua terra natal.
Em Longe de casa, que é ao mesmo tempo um livro de memórias e uma narrativa coletiva, Malala explora sua própria trajetória de vida e apresenta as histórias de nove garotas de várias partes do mundo, do Oriente Médio à América Latina, que tiveram que deixar para trás sua comunidade, seus parentes e o único lar que conheciam.
Numa época de crises migratórias, guerras e disputas por fronteiras, Malala nos lembra que os 68,5 milhões de deslocados no mundo são mais do que uma estatística — cada um deles é uma pessoa com suas próprias vivências, sonhos e esperanças."

Resenha:
Longe de Casa: minha Jornada e Histórias de Refugiadas pelo Mundo foi publicado em inglês ano passado e será lançado no Brasil em 19 de março pela Editora Seguinte, selo jovem do Grupo Companhia das Letras. Ótimo momento, pois como estamos no mês de comemoração ao Dia Internacional da Mulher, mais pessoas podem ser atraídas para esta obra. Nela, Malala Yousazai, a mais jovem ganhadora da História do Prêmio Nobel da Paz, organizou relatos de oito meninas e moças refugiadas de variadas partes do globo. O livro contém também outras duas mulheres como colaboradoras (uma refugiada e uma voluntária), além de informações e dados sobre a maior crise migratória da História. Malala também deixa seu depoimento pessoal sobre o assunto e sua experiência de vida, além de dar espaço às meninas convidadas. Ela conta somo se sente fora do Paquistão, como foi sua adaptação no Reino Unido e sua visita á sua terra natal após 6 anos. Mas esta não é apenas mais uma parte da história de Malala, mas também a de outras nove refugiadas. Se prepare para se emocionar e refletir bastante com a leitura, mas pare e pense agora mesmo sobre este dado atual: Mais de 68,5 milhões de pessoas, vítimas de guerras e conflitos armados, são obrigadas a deixar seus lares.

"Éramos uma multidão de desconhecidos marchando juntos rumo a um destino comum e também desconhecido."

Destas, 40 milhões são deslocadas internas, ou seja, que se encontram em risco dentro de seus próprios países, porém foram arrancadas de casa de alguma forma; 25,4 milhões de pessoas são refugiadas oficiais, pois cruzaram fronteiras internacionais; e ainda: existem 3,1 milhões de solicitantes de refúgio. De todas estas pessoas, 85% estão em países em desenvolvimento. Outro dado que chama a atenção é que 57% dos refugiados do mundo vêm de três países: Sudão do Sul (2,4 milhões), Afeganistão (2,6 milhões) e Síria (6,3 milhões), o que demonstra que a situação nestas nações é gravíssima. Myanmar (1,2 milhão) e Somália (quase 1 milhão) são os próximos no rank. Por outro lado, os países que mais acolhem refugiados são Turquia (3,5 milhões), Paquistão, Uganda (1,4 milhão cada), Líbano (1 milhão), Irã, Alemanha (pouco menos de 1 milhão cada), Bangladesh (932 mil) e Sudão (pouco mais de 900 mil). Uma observação ainda mais alarmante é que aproximadamente 10 milhões de refugiados se tornaram apátridas, ou seja, perderam suas nacionalidades e não possuem nenhuma outra. Elas perdem quaisquer direitos civis básicos como saúde, educação, emprego e liberdade.
Sobre a faixa etária, 52% dos refugiados são menores de 18 anos de idade; são aproximadamente 35,6 milhões de crianças e adolescentes que estão longe de casa, enfrentando quase sempre luto e violência, passando necessidades como fome, perdendo a noção de humanidade e a importância de se orgulharem de suas raízes; muitas estão desacompanhadas e órfãs; certamente todas acumulam um estresse traumático inimaginável. Elas deveriam estar seguras, em seus lares e comunidades, e deveriam estar brincando e frequentando a escola.

"Nunca deixa de me chocar que as pessoas considerem a paz algo garantido. Sou grata por ela todos os dias. Nem todo mundo tem essa sorte. Milhões de homens, mulheres e crianças testemunham guerras diariamente."

Zaynab Abdi. Fotografia do Twitter: @ZaynabAbdi1,
Malala, a paquistanesa que enfrentou o Talibã para continuar indo para a escola e que quase morreu após a tentativa de assassinato praticada pelo grupo terrorista, luta pelo direito das meninas à educação. O mundo todo conheceu a sua história, que se destacou mais ainda após o discurso na ONU e o Nobel. Ela possui a organização Malala Fund e é ativista defensora das meninas. Conheci sua história na época do lançamento de sua autobiografia no Brasil. Resenhei a obra publicada pela Companhia das Letras (esta possui também uma versão juvenil pela Seguinte e uma adaptação para o público infantil pela Companhia das Letrinhas) e passei a recomendar sempre que possível o livro. Portanto, Longe de Casa foi prioridade na minha lista de leitura e, assim como Eu Sou Malala, também é um livro essencial.
Além de cursar faculdade no Reino Unido, Malala viaja pelo mundo como ativista palestrando e o mais importante: conversando com as meninas. E como Malala foi obrigada a deixar seu amado lar no Paquistão, ela sabe como é ser refugiada. Por se tornar uma voz importante, Malala decidiu mostrar oito meninas refugiadas ao mundo neste livro, quase todas que ela conheceu pessoalmente: Zaynab, Sabreen, Muzoon, Najlaa, María, Analisa, Marie Claire e Ajida. São relatos breves em primeira pessoa, porém muito emocionantes, sempre introduzidos pela Malala. ao final, mais informações sobre cada uma das dez colaboradoras. Embora a obra seja curta, com menos de 200 páginas, eu parava para me recompor de tão comovida que ficava. Cheguei a chorar algumas vezes, tentei imaginar o que estas meninas vivenciaram e fiquei pensando em como quase 70 milhões de pessoas estão passando por isto neste exato momento, sendo mais da metade menores de idade. Eu não consigo imaginar e por mais que eu já me comovesse com tantas histórias nas notícias, foi com a leitura de Longe de Casa que eu desmoronei.

"Só voltaria para casa se tivesse a garantia de que minha família seria tratada com dignidade. E a pergunta é: quando isso será possível?"

Muzoon Al-Mellehan. Foto do Twitter: @muzoorakan1.
São as histórias que mais se destacaram para Malala nos últimos anos. Meninas que deixaram seus lares por sofrerem (ou temerem sofrer) perseguição por motivos religiosos, de raça ou etnia, violência generalizada ou guerras e conflitos armados. Além de medo, fome, sede, frio, risco de morte, Malala se atenta a várias outras questões, principalmente psicológicas. Como elas se sentem? Como administram autoestima e retomam suas vidas? É interessante que o livro traz relatos de meninas diferentes, de locais diversos, em diferentes situações, pois algumas saíram de casa jovens demais, enquanto outras já eram moças. Há narrativas de meninas que já finalizaram seus processos, ou seja, se encontram em total segurança, mas outras ainda estão em risco, e acho que foi isso que mais mexeu comigo.
São tantos pontos importantes e muito complexos, como por exemplo, os sentimentos em relação à mudança e a situação de refugiada. Elas se sentem gratas, mas não é apenas gratidão; há a saudade, por melhor que estejam em seus novos lares, muitas têm memórias insubstituíveis;  o alívio também as envolve; embora recebam apoio e empatia, encaram também preconceito e bullying; Muitas sentem mais que dor pela situação de refugiada, pois a raiva e a frustração são complexas; algumas superam e viram a página sem nem desejarem mais abordar o assunto, enquanto outras procuram por identidade pessoal e cultural, pois não ignoram suas raízes, e precisam ser ouvidas. Há as que decidem fazer alguma coisa, para retribuir a nação que as acolhe ou para tentar ajudar outras pessoas que enfrentam situação igual ou semelhante.

"Quero terminar os estudos para poder voltar ao meu lindo lar e levar justiça comigo. Quero reconstruí-lo."

Ajida. Foto do Twitter: @MalalaFund.
Malala acrescentou o depoimento bastante empoderador da refugiada que conheceu durante a seleção da nova funcionária para a direção de sua fundação. Acho importante mostrar um caso de alguém que além de dar a volta por cima, é bem sucedida e, neste caso, ajuda outras pessoas em situação de risco. Fora que pode servir como exemplo e estímulo para outras que ainda sofrem.
Completando o livro, a narrativa de uma mulher estadounidense voluntária. Ela ajudou a família de uma das colaboradoras do livro a se sentir em casa. Destaque para como os relatos de refugiada e voluntária se complementam em meio ao enorme contraste de suas respectivas situações. É ótimo para deixar claro que a ajuda é necessária, transformadora e poderosa, mas também devemos enxergar nossos privilégios como não refugiados.

"Não tinham encanamento, muito menos banheiro próprio. A casa era iluminada por velas. Na verdade estavam impressionados com o tamanho daquele lugar. Percebi na mesma hora a extensão do meu privilégio. Onde eu via tantos problemas, eles viam oportunidades."

Todas as histórias me marcaram. Não é possível destacar nenhuma. Somente sei que tentei segurar as lágrimas, porém não aguentei mais enquanto lia o depoimento de Marie Claire. Fui vencida e acabei chorando por todas as meninas. E além de enfrentarem tudo que refugiados sofrem, incluindo a perda de direitos humanos, sofreram machismo, um obstáculo a mais (afinal, meninas correm o risco de casamentos forçados, redes de prostituição e maiores taxas de violência sexual e de evasão escolar). Mas o incrível mesmo, e neste ponto precisamos agradecê-las, é a força e resistência para prosseguirem com suas vidas e relatar os acontecimentos e sentimentos. Como Malala, estas meninas não se calam. São verdadeiras super-heroínas bravas e corajosas. Agradeço a cada uma delas por compartilharem seus relatos; agradeço à Malala por utilizar sua popularidade para dar voz e espaço a tantas outras; agradeço ao Grupo Companhia das Letras pela publicação da obra.

"Quando penso em refugiados e em todos aqueles que foram obrigados a migrar, penso em resiliência. Coragem. Bravura."

María. Foto do Twitter: @MalalaFund.
É um livro que merece ser lido por todos para não nos esquecermos da importância da preservação e manutenção dos direitos humanos e de como a educação é essencial para uma sociedade mais justa e igualitária; deve ser trabalhado em salas de aula; pode ser lidos por pré-adolescentes.
Minha leitura foi um arquivo de prova em formato digital para avaliação antes do lançamento, uma cortesia da editora. Portanto, não avalio o material do exemplar físico, mas acredito que mantenha o padrão da Seguinte, com páginas amareladas e orelha especial. Acrescentarei fotos assim que a editora postar em suas redes sociais. A tradução é de Lígia de Azevedo.

Marie Claire e Malala. Foto do site da Washington Adventist University.
Quer ajudar de alguma forma os refugiados? Com este livro, você já faz algo. As meninas foram remuneradas por suas histórias (exceto Malala, Jennifer e Farah) e a renda será usada pelo Malala Fund para educação de meninas. Existem outras maneiras de contribuir, através de doação em dinheiro ou se voluntariando em alguma ong voltada aos refugiados em sua região. Você pode conversar com as pessoas para conscientizá-las sobre a gravidade do problemapostar na internet, nas redes sociais, divulgar o trabalho de pessoas, empresas ou quaisquer outros órgãos que ajudem e apoiem refugiados. Ao conhecer alguém que seja deslocada ou refugiada, demonstre respeito e compreensão. Só o simples fato de demonstrar empatia já ajudará muito, porque ainda há muito preconceito e xenofobia em nossa sociedade.
Saiba mais sobre o assunto no site da ACNUR, clicando aqui.

A autora:
Malala Yousazai, militante pela educação do vale do Swat, no Paquistão, chamou a atenção do público ao escrever para a BBC Urdu a respeito da vida sob o Talibã e sobre a luta de sua família em defesa do direito à educação feminina. Em outubro de 2012, Malala foi perseguida pelo Talibã e atingida na cabeça por um tiro quando voltava de ônibus da escola. Contrariamente às expectativas, sobreviveu e agora continua sua campanha por educação por meio do Malala Fund, uma organização sem fins lucrativos de apoio educacional em comunidades ao redor do mundo.
Twitter | Instagram
Malala Fund: SiteTwitter | Instagram


Dicas de leitura para quem gostou ou se interessou por Longe de Casa (clique em cada título para saber mais):


Eu Sou Malala (Malala Yousafzai, Christina Lamb e Companhia das Letras)Persépolis Completo (Marjane Satrapi e Companhia das Letras); O Mundo de Aisha (Ugo Bertotti e Nemo)O Melhor que Podíamos Fazer (Thi Bui e Nemo); Para Poder Viver (Yeonmi Park e Companhia das Letras); Nujeen (Nujeen Mustafa, Christina Lamb e Universo dos Livros); A Pequena Guerreira (Giuseppe Catozzella e Record); O Diário de Myriam (Myriam Rawick, Lobjois e DarkSide Books)Primeiro Mataram meu Pai (Lounh Ung e Harpercollins Brasil).

Um comentário

  1. Oi Tati
    Assim que fiquei sabendo do lançamento deste livro, eu corri e postei no blog, isso porque desejo muito ler, eu admiro Malala, sua garra e força de vontade imensa!
    Quero sempre saber mais dela e agora mais ainda, esses depoimentos são inspiradores para uma vida melhor, com mais empatia! Adorei sua postagem sobre o livro e todas os trechos que colocou.

    Beijos Mila
    http://dailyofbooks.blogspot.com/

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