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28 de maio de 2018

Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley e Biblioteca Azul (Globo Livros)

Admirável Mundo Novo (Brave New World)
Aldous Huxley - Biblioteca Azul / Globo Livros
Tradução: Lino Vallandro e Vidal Serrano
312 páginas - R$ 39,90 (impresso) e R$ 26,50 (ebook)
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Sinopse:
"Uma sociedade inteiramente organizada segundo princípios científicos, na qual a mera menção das antiquadas palavras “pai” e “mãe” produzem repugnância. Um mundo de pessoas programadas em laboratório, e adestradas para cumprir seu papel numa sociedade de castas biologicamente definidas já no nascimento. Um mundo no qual a literatura, a música e o cinema só têm a função de solidificar o espírito de conformismo. Um universo que louva o avanço da técnica, a linha de montagem, a produção em série, a uniformidade, e que idolatra Henry Ford."

Resenha:
Admirável Mundo Novo é um dos clássicos mais importantes, não apenas da ficção científica, mas da literatura em geral. Junto a 1984 de George Orwell e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, é um dos principais livros de distopia ou antiutopia já publicados. Foi escrito em 1931 pelo inglês Aldous Leonard Huxley, filósofo e escritor nascido em 1894 e falecido em 1963. A primeira vez que o li foi em 2009 (sei disso graças ao Skoob); uma edição antiga da Editora Globo. Agora tive o prazer de reler a obra, que desde 2014 é publicada pela Biblioteca Azul, da Globo Livros, integrando uma linda coleção com outras obras do autor, sempre com seu nome destacado em capas de cores fortes. O exemplar possui páginas amareladas, orelhas largas e tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano. A edição tem ainda um prefácio escrito pelo autor em 1946.
É uma sátira à cultura ocidental, uma reflexão sobre os papéis sociais da ciência, uma previsão dos avanços biológicos e tecnológicos, uma crítica ao consumismo exagerado e um alerta ao risco da sociedade se deixar alienar e ser controlada pelo estado e/ou pelo mercado. Huxley partiu do questionamento: como o conhecimento científico e as tecnologias podem ser usados ​​para melhorar a vida humana e criar estados bem ordenados a partir do caos social e econômico da Europa do pós-guerra? É interessante observar um pouco do contexto social do início do século XX para compreender bem os itens que compõem a base do livro.
Particularmente destaco o Fordismo, o Curriculum, o Behaviorismo, a Grande Depressão e a eugenia. Se quer ler as definições desses itens, clique no botão abaixo; ou continue com a resenha.



No romance, situado numa Londres do século XXVI, Huxley mostra que o caos econômico e social causou uma reação radical onde o resultado é uma sociedade dividida em castas dentro de um império científico mundial:  os alfas, os gamas, os betas, os deltas e os ípsilons. O destaque é a estabilidade social absoluta, plena estagnação criativa e fabricação e controle de cidadãos. No ano 632 depois de Ford, o slogan da sociedade é "comunidade, identidade e estabilidade".
Para o Estado Mundial, ninguém foi tão importante na transformação do mundo quanto Henry Ford. Ele é reconhecido como um deus e considerado um pilar da sociedade. Seu projeto de produção usado inicialmente em automóveis foi o responsável por permitir que os humanos sejam produzidos em massa. As personagens falam "Oh, Ford" ou "Nosso Ford", no lugar de "Oh, Deus" ou "Nosso Senhor". Muitas vezes "Nosso Freud" é dito no lugar, pois as pessoas do Estado Mundial pensam que Sigmund Freud e Henry Ford foram a mesma pessoa. Provavelmente porque Freud popularizou a ideia de que a atividade sexual livre e de múltiplos parceiros é essencial à felicidade humana, pois ninguém deve reprimir seus desejos sexuais.
É uma sociedade que fabrica seus cidadãos em laboratório de forma eugênica, sem a necessidade de relações humanas. Não existem mais famílias, só o conceito já é uma abominação completa e o amor é impróprio e o sexo, estimulado. Não há nenhum laço de parentesco.
O embrião é produzido em úteros artificiais, muitas vezes com o mesmo código genético replicado em massa, com as características essenciais para a profissão que ele terá quando adulto. São modificados conforme a necessidade, da aparência a estatura ou massa muscular. Então, cada pessoa possui o nível de inteligência ideal para seu futuro emprego, apenas o suficiente para executar a função, não muito para se sentir frustrado ou entediado. Um único óvulo fecundado pode render até 96 gêmeos através do Processo Bokanovsky.


Além de manipulação genética, o sistema se sustenta com o condicionamento dos embriões que continua durante toda a vida, principalmente na infância e adolescência. Graças a mensagens subliminares repetidas incessantemente enquanto as crianças dormem se tornam adultos condicionados a aceitarem seu lugar na sociedade. Portanto, teoricamente, todos são felizes.
Para fortificar essa satisfação, existem várias drogas de controle hormonal que impedem o envelhecimento, o sobrepeso e a maioria das doenças. E o principal: a soma, uma droga sem efeitos colaterais aparentes que deixa qualquer um feliz, satisfeito, realizado.
Todos têm todas as necessidades atendidas, desfrutam de excelente saúde, não temem a morte, possuem horários de trabalho suportáveis, vida sexual sem restrições de parceiros e muito entretenimento. Como são condicionados e de intelecto restrito, a maioria não nota que vive em uma sociedade controladora e altamente coletivista. A clonagem criou grandes grupos de pessoas idênticas trabalhando lado a lado. Porém quanto mais ao alto da pirâmide social, menos exemplares da pessoa existem. Portanto, as castas mais baixas são formadas por grandes quantidades de mesmos materiais genéticos, executando o mesmo trabalho, com exatas características. Eles se sentem confortáveis com isso, como uma sensação de pertencimento. Conforme você observa as castas acima, às quais pertencem os intelectuais e líderes, menos indivíduos repetidos encontra e estes possuem maiores regalias e luxos.
Portanto, não há necessidade de violência e repressão por parte do estado, pois ninguém se rebela. Todos estão tão felizes, satisfeitos e confortáveis. Nesta sociedade, se destacam algumas características: a supressão das emoções, a ignorância e a apatia, entretenimentos vazios e o sexo promíscuo.


Mas nem mesmo os indivíduos alfas e betas se sentem frustrados ou infelizes, visto que são os mais inteligentes? É o que acontece com o alfa Bernard Marx. Ele se sente solitário, desconfortável e inconformado com a funcionalidade serena e apática da sociedade engenhosamente bem ordenada à sua volta. Ele é psicólogo, então seu trabalho com o aprendizado do sono o faz estar ciente dos métodos utilizados nas lavagens cerebrais dos indivíduos, para mantê-los pacíficos e conformados. Embora seja um alfa, é mais baixo em estatura que a média da casta, o que lhe dá um complexo de inferioridade. Além disso, ele tem sido um desastre se relacionando com as mulheres. Ele cede às investidas da bela Lenina Crowne, uma trabalhadora de incubatório, muito popular e sexualmente desejável. Sob ameaças de seu chefe de ser exilado para a Islândia devido às suas críticas ao sistema e inconformidade, ele viaja com Lenina para um pueblo em Malpaís, uma reserva de selvagens, onde pretende observar a sociedade de lá, que ainda vive de modo obsoleto: as pessoas nascem de modo natural, valorizam os laços sanguíneos e relações monogâmicas, veem com naturalidade as doenças e o envelhecimento, falam outras línguas e mantêm religiões. Bernard e Lenina encontram Linda, uma mulher originária do Estado Mundial perdida na reserva, e descobrem alguns segredos sobre ela, incluindo o filho John. Ele nunca foi aceito pelos aldeões, mas nunca compreendeu a aversão de Linda por ele, que o criou falando do Estado Mundial. O ensinou a ler e tentou explicar sobre o mundo civilizado. Bernard e Lenina levam Linda de volta e John, o Selvagem, interessado em ver o admirável mundo novo, enquanto Bernard se prepara para evitar seu exílio e então, choques e questionamentos culturais e sociais ocorrem, a personagem que representa o que mais próximo de vilania podemos encontrar entra em cena, surgem muitas respostas e justificativas para o funcionamento do admirável mundo novo e o livro fica ainda mais interessante.


O livro é narrado em terceira pessoa e tem vários pontos de vista. Foi uma releitura muito interessante de modo geral, e que continua empolgante e com incontáveis reflexões. Na primeira vez que li, não me incomodou tanto, mas agora, o racismo me pareceu gritante. Todas as pessoas das castas altas são caucasianas. A cor da pele escurece conforme a inferioridade social do indivíduo. E as descrições físicas dos ípsilons, por exemplo, são de que suas aparências são tão grosseiras e inferiores como sua importância na sociedade. As pessoas da reserva que ainda vivem do modo arcaico, vistos como selvagens, basicamente se assemelham aos nativos norte-americanos, e também tenho minhas dúvidas quanto a escolha do autor, me parece também preconceito. Além disso, há enorme machismo, pois os homens das melhores castas são verdadeiramente pensadores e intelectuais, enquanto os melhores exemplares de mulheres são apenas boas para sexo e diversão superficial, somente possíveis boas procriadoras ou companhias agradáveis.
Quase nove décadas depois a base de Admirável Mundo Novo ainda se mantém atraente, o que é incrível, pois foi escrito numa época anterior à televisão e internet. O autor critica o capitalismo e o consumo desenfreados e a falsa felicidade que a modernidade e tecnologia podem provocar sem se preocupar com valores éticos e humanos. Ele antecipou desenvolvimentos em genética, endocrinologia, farmacologia, psicologia, cinema e música. O alerta parece ainda mais urgente. Não é apenas através da repressão e violência que um governo totalitário pode se apoiar; o maior perigo talvez seja o controle e alienação da sociedade partindo do culto ao progresso, modernidade e tecnologia, que se popularizam facilmente.


Além de Henry Ford e Sigmund Freud, outras pessoas reais homenageadas no livro são: William Shakespeare, Thomas Robert Malthus, H. G Wells, Ivan Pavlov, Reuben Rabinovitch e John Henry Newman, dentre outras.

O autor:
Aldous Leonard Huxley nasceu em 26 de julho de 1894, na Inglaterra. Em 1916, publicou seu primeiro livro, uma coletânea de poemas. A partir de 1921, sua reputação literária se estabeleceu, através de Crome Yellow. Em seguida, escreveu Antic Hay (1923), Folhas Inúteis (1925) e Contraponto (1928), sátiras onde analisa de modo espirituoso e implacável os dissabores do mundo moderno. No período anterior à Segunda Guerra Mundial, sua obra adquiriue tons mais sombrios, incluindo o célebre romance Admirável Mundo Novo (1932), antiutopia que descreve a desumanizada sociedade do futuro, e Sem Olhos em Gaza (1936), uma novela pacifista.
Em 1937, deixou a Europa e se mudou para a Califórnia. Além de ensaios sobre assuntos tanto culturais quanto religiosos, em que se nota a forte influência da mística oriental, Huxley publicou O Tempo Deve Parar (1944), O Macaco e a Essência (1949), A Ilha (1962) e As Portas da Percepção (1954), onde descreveu suas experiências com a mescalina.
Aldous Huxley faleceu em 22 de novembro de 1963, curiosamente mesmo dia do assassinato de John Fitzgerald Kennedy.

Os demais livros da coleção Aldous Huxley pela Biblioteca Azul:


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