[Resenha] Céu Sem Estrelas, Iris Figueiredo e Seguinte (Grupo Companhia das Letras)

Céu Sem Estrelas
Iris Figueiredo - Seguinte (Grupo Companhia das Letras)
360 páginas - 2018 - R$ 39,90 (impresso) e R$ 27,90 (eBook) - trecho
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Sinopse:
"Um romance sensível e envolvente sobre autoestima, família e saúde mental.
Cecília acabou de completar dezoito anos, mas sua vida está longe de entrar nos trilhos. Depois de perder seu primeiro emprego e de ter uma briga terrível com a mãe, a garota decide ir passar uns tempos na casa da melhor amiga, Iasmin. Lá, se aproxima de Bernardo, o irmão mais velho de Iasmin, e logo os dois começam um relacionamento.
Apesar de estar encantado por Cecília, Bernardo esconde seus próprios traumas e ressentimentos, e terá de descobrir se finalmente está pronto para se comprometer. Cecília, por sua vez, precisará lidar com uma série de inseguranças em relação ao corpo — e com a instabilidade de sua própria mente."

Resenha:
Céu Sem Estrelas é o mais recente Young Adult da Editora Seguinte, selo jovem do Grupo Companhia das Letras, lançado em final de junho durante a II FLIPOP - Festival de Literatura Pop, ocorrida em São Paulo. Iris Figueiredo, de São Gonçalo, região metropolitana do RJ, já foi blogueira literária, é formada em produção editorial pela UFRJ, pós-graduada em transmídia e atua como escritora, editora e tradutora. Publicou outros três livros, Dividindo Mel (Draco, 2011) e a duologia Confissões On-Line (Generale, 2013 e 2015), além de contos nas antologias Meu Amor É um Anjo (Draco, 2011) e Cantigas no Escuro (Pohl Editorial, 2018).
Iris teve a ideia para Céu Sem Estrelas em 2011, mas foi somente cinco anos depois que ela trabalhou nele e o finalizou. Não havia lido ainda nada dela, mas a tenho acompanhado pelo Twitter e admirado seu trabalho. Portanto, ao ter a chance de escolher seu novo livro dentre as opções da Companhia das Letras aos blogs parceiros, não deixei a oportunidade passar e estou mais que satisfeita com a leitura, estou totalmente apaixonada: foi amor à primeira vista! Não só pela capa lindíssima. Me apeguei muito a trama logo no começo, o que foi realmente estranho, era como se eu já conhecesse bem as personagens. Todavia, foi a escrita da autora que me arrematou imediatamente. Tão fluida, agradável e natural. Acho que deste modo e neste tom, eu leria qualquer outro livro da Iris e espero que ela publique outras histórias bonitas, realistas e representativas como esta, que aborda autoconhecimento, amadurecimento, relacionamentos e saúde mental.


A transição da adolescência para a vida adulta é complicada, assustadora e imprevisível. Nem sempre planos acontecem como queremos. Quase sempre nem planejamos nada concretamente ainda, com tantas incertezas, inseguranças e dúvidas sobre o futuro.
A protagonista Cecília está exatamente neste momento, pois completou dezoito anos de idade e terminou o Ensino Médio para cursar Desenho Industrial na UFF. Se não bastasse a dificuldade em se adaptar a nova rotina, ela perdeu o emprego na livraria. A vida parece uma bagunça, porém ela nunca foi fácil para Cecília. Ela não sabe quem é seu pai, foi criada praticamente só pela avó materna e sempre teve problemas com a mãe, mas agora o relacionamento entre elas parece ter se deteriorado de vez.
Devido a briga e o desemprego, Cecília vai morar um tempo na casa da melhor amiga, a Iasmim, onde a família classe média alta a recebe de braços abertos. Além dos pais de Iasmim, Cecília passa também a conviver com Bernardo, seu cruch de infância, o irmão mais velho da amiga e também estudante da UFF. Mas Cecília achava que ele jamais se interessaria por ela, "apenas" uma amiga da irmã e uma menina que veste manequim GG.
Não é isso o que acontece, porque logo eles iniciam um relacionamento. E Bernardo, a coestrela do livro, apesar de estar num momento diferente, tem seus próprios receios e questionamentos sobre a vida e o futuro. Ele reflete muito sobre seus estudos na faculdade e sua futura carreira, somado a isto, pensa muito sobre relacionamentos, sobre a importância e profundidade deles, se perguntando por que aparentemente não tem nenhuma amizade verdadeira.
Cecília também pensa sobre tudo isso, sobre seu papel em sociedade e além dos problemas familiares se intensificando, enfrenta também uma autoestima muito frágil devido ao sobrepeso. A situação de Cecília possui um agravante: ela lida com transtornos mentais, embora não saiba exatamente quais. Ela possui sintomas de depressão e ansiedade, com crises de pânico e começa a somatizar, ampliando as adversidades em sua vida.


Ainda que os temas sejam delicados, são tratados com respeito e seriedade. A obra é triste e dramática na medida certa, sem pesar desnecessariamente, mas causando reflexão, emoção e focando na atenção que a saúde mental precisa. E o melhor, sendo realista e mostrando que devemos tratar de doenças mentais com o mesmo cuidado que tratamos as doenças físicas.
A narrativa é em primeira pessoa, se alternando entre Cecília e Bernardo. O livro é dividido em duas partes e é na segunda que os conflitos e problemas se agravam. O final é completamente emocionante!
As personagens secundárias são ótimas e passam longe de estereótipos, assim como os diálogos críveis e nada robóticos. A autora consegue desenvolver bem os relacionamentos de modo natural através de conversas e atitudes. São jovens adultos e suas falas são compatíveis, porque se tem uma coisa que não gosto é quando o discurso fica desequilibrado, infantil demais ou adulto demais, mas Céu Sem Estrelas acerta neste item. Tudo aliado a escrita maravilhosa que ressalto novamente. Pelo lado da Cecília há a mãe, o padrasto, a avó, uma prima e as amigas Stephanie e Rachel. Além da família de Bernardo, ou seja, Iasmim e seus pais, aparecem relacionamentos surgidos da faculdade.
O livro está recheado de representatividade como pano de fundo, as pessoas possuem etnias diferentes, corpos diferentes e gostos diferentes e isso é essencial para um bom YA.
As cidades de Niterói e São Gonçalo, no estado do Rio de Janeiro são o cenário e os principais locais são a UFF, a casa de Iasmim e Bernardo e a casa de dona Marília.


Estou emocionada, muito feliz e recomendando Céu Sem Estrelas para o mundo. Deve ser publicado em outros idiomas, atingir o máximo possível de pessoas, especialmente jovens. Marquei com cinco estrelas e como favorito no Skoob e aponto como meu YA nacional preferido, com certeza um dos melhores do gênero e um dos meus livros queridinhos para a vida! Acho que não lia um Jovem Adulto tão cativante desde Por Lugares Incríveis da Jennifer Niven, também da Seguinte.
Uma leitura bela e prazerosa, que vai comover e abraçar, especialmente os de pessoas que enfrentam ou enfrentaram quadros de depressão e/ou outras desordens psicológicas ou psíquicas. Pois esta obra não apenas aborda o assunto de forma educativa e informativa, ela desmistifica o tabu de que problemas de saúde mental devam ser generalizados ou que apenas pessoas "loucas" precisam de tratamento psicológico. Não só ensina e mostra, mas também provoca empatia, sensibilidade e, o mais importante: respeito. Isso mesmo, após a leitura, se você nunca passou por um problema semelhante ao de Cecília, vai se esforçar para compreender quem sofre assim, vai respeitar, se importar e ajudar. Também é uma arma contra a gordofobia, também através da sensibilização. Para mim, este é o maior poder de um livro, fazer quem lê se colocar no lugar de pessoas diferentes.
Entre tantas noites sem estrelas, tanta escuridão triste e tanta nebulosidade que esconde o brilho da vida para tantas pessoas, este livro é uma constelação completa, que ilumina e aquece o coração de quem lê, trazendo esperança, conforto e fé de que tudo pode terminar bem e que não devemos desistir, mesmo que percamos várias vezes, a vitória é possível. Não deixemos as estrelas se apagarem para nós e para as pessoas ao nosso redor. Sejamos empáticos, compreensivos e solícitos em cada ação cotidiana, porque ao nosso lado pode estar alguém passando por graves problemas. Ilumine o céu de alguém e não deixe que o seu se apague, é difícil, mas não impossível. Leia Céu Sem Estrelas. Presenteie alguém com ele, talvez seja o brilho que aquela pessoa precisa.


O exemplar segue o padrão da Seguinte, com páginas amareladas, orelhas e marcador recortável. Os trabalhos de revisão e diagramação estão perfeitos. A ilustração da capa magnífica e tão em sincronia com uma cena importante da história é de Malena Flores e o trabalho gráfico é de Alceu Chiesorin Nunes.
O exemplar físico custa R$ 39,90 e o ebook R$ 27,90. Quer ler o começo da história? A Companhia das Letras disponibiliza um trecho como amostra. Clique aqui para ler.



Nunca se esqueça: não se envergonhe de seus problemas. Se você enfrenta um momento difícil, busque por auxílio psicológico ou psiquiátrico. Se alguém do seu convívio aparenta precisar, a poie, a ajude. Procure o Centro de Atenção Psicossocial mais próximo. É gratuito, é do Sistema Único de Saúde. Ou uma faculdade de Psicologia na sua região, geralmente atendem gratuitamente ou a preços populares.

Música que não saiu da minha cabeça durante a leitura: Beautiful da Christina Aguilera:


A autora:
Nasceu em 1992, na região metropolitana do Rio de Janeiro. É formada em produção editorial pela UFRJ e pós-graduada em transmídia. Já atuou em diversas áreas do mercado editorial e manteve por muitos anos o blog Literalmente Falando. É autora da duologia Confissões On-line: Bastidores da Minha Vida Virtual (Generale, 2013) e Entre o Real e o Virtual (2015).
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Bastidores das fotos: minha cachorra Chikorita adorou tentar roubar as luzinhas.

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