[Resenha] Um Casamento Americano de Tayari Jones e Editora Arqueiro

Um Casamento Americano (An American Marriage)
Ruta Sepetys - Arqueiro
Tradução: Alves Calado
228 páginas - R$ 44,90 (impresso) e R$ 24,99 (ebook)
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Sinopse:
"Em Um Casamento Americano, Tayari Jones aborda temas como o racismo e o papel do negro na sociedade.
Um dos títulos do Clube do Livro da Oprah Winfrey em 2018.
Os recém-casados Celestial e Roy são a personificação do sonho americano e do empoderamento negro. Mas um dia os dois são separados por circunstâncias imprevisíveis: Roy é condenado a doze anos de prisão por um crime que Celestial sabe que ele não cometeu.
Mesmo impetuosa e independente, Celestial é dominada pelo desamparo e busca conforto nos braços de um amigo de infância.
Quando a condenação de Roy é anulada repentinamente depois de cinco anos, ele sai da prisão pronto para retomar a vida com a esposa.
Um casamento americano lança um olhar perspicaz ao coração e à mente de três pessoas unidas e separadas por forças além do seu controle, e que precisam lidar com o passado enquanto seguem – com esperança e dor – em direção ao futuro."

Resenha:
Um Casamento Americano (An American Marriage, 2018), quarto romance da autora best-seller Tayari Jones, se popularizou com indicações muito respeitosas: foi selecionado por Oprah Winfrey para seu clube do livro, além de ter sido uma das leituras de verão de 2018 de Barack Obama. A obra recebeu o Prêmio Aspen Words e um NAACP Image Award e foi publicada em mais de quinze países. Chegou ao Brasil em abril de 2019 pela Editora Arqueiro, que cedeu um exemplar digital para esta resenha. O ebook foi lido no Kindle e está perfeito, com ótima revisão e tradução de Alves Calado. A capa da edição brasileira é lindíssima e com significado. A silhueta masculina com o uniforme laranja de presidiário e os galhos de uma antiga árvore têm identidade.
A premissa parece simples: protagonistas recém-casados são abalados por uma injustiça sem precedentes que expõe problemas de relacionamento que estavam escondidos. Ademais, novos conflitos e adversidades surgem com a prisão do marido inocente. Mas a trama é mais complexa e profunda que aparenta; explora bastante o comportamento e relações humanas, sem pudores, porém as questões ultrapassam as amorosas e sobre casamento. É também sobre racismo, identidade, laços familiares, maternidade / paternidade, diferença de classe, machismo e o sistema de justiça criminal dos Estados Unidos e as consequências de um erro causado pelo Estado a um cidadão e sua família. Celestial e Roy se casam e iniciam uma vida juntos. Roy é preso e acusado injustamente. Enquanto ele permanece na penitenciária, Celestial tem a ajuda dos pais e do melhor amigo Andre para continuar a viver e avançar com sua empresa. Enquanto isso, o advogado e tio de Celeste tenta reverter a decisão do Estado. Acompanhamos também como os pais de Roy encaram o pesadelo de ter o filho preso injustamente. O relacionamento de Roy e Celestial é abalado gradualmente pela situação.

"Estou tentando escrever nesse papel alguma coisa que faça você se lembrar de mim — o eu de verdade, não o homem que você viu de pé num tribunal de uma cidadezinha, completamente abalado."

O enredo é desenvolvido com um fio principal cronológico sobre a prisão de Roy, todavia conta também com variações com flashbacks que viajam pela vida dos três narradores: Roy, Celestial e Andre. Nem sempre estas memórias têm ligações com o tópico principal, contudo são essenciais para a construção das personagens e também justificar suas atitudes e escolhas. Logo, o livro possui narrativa em primeira pessoa e teor bastante psicológico. Isso contribui para que você se apegue às personagens, tanto para adorá-las ou detestá-las, concordando ou não com suas atitudes e opiniões. Um dos maiores acertos da autora é certamente criar personagens muito realistas e de atitudes críveis, de personalidades acinzentadas e muito além de estereótipos, especialmente Roy.
Ele é o injustiçado da trama e o sofredor, mas está longe de ser um herói perfeito. Embora ele tenha pensamentos e falas machistas / possessivas em relação à esposa, por exemplo, e eu tenha sentido raiva dele, simpatizei com ele mesmo assim, porque para mim foi impossível imaginar o que ele sofreu. Desespero, raiva, tristeza, medo, uma mistura de tudo, e a dúvida agravante que ele carrega: será que era o homem errado no lugar errado ou o homem de cor errada no lugar errado? A injustiça e o encarceramento interrompem não apenas a recente vida de casados, mas também da carreira de alguém trabalhador, honesto e esforçado, pois Roy rumava a um futuro bem-sucedido.
Imperfeição também em Celestial ou Andre. Sem dar spoilers, mas eles também não são as melhores pessoas do mundo, gostei deles entretanto. Cada um tem seus próprios obstáculos, como Celestial que deseja ser uma mulher de negócios reconhecida sem depender de um homem, ou Andre, que possui o tom da pele mais claro que os negros com quem convive e em alguns momentos se sente de certo modo privilegiado numa sociedade racista, mas ainda assim, sofre com isso.

"...havia uma bandeira dos confederados pendurada em todos os quartos [do hotel]. Minha mãe estava lavando uma banheira quando a bolsa estourou, mas decidiu que eu não começaria a vida embaixo das estrelas e faixas daquela bandeira."


A questão principal de Celestial, ou seja, sobre esperar a longa pena de Roy ser cumprida, também se destaca. Roy esperaria por ela, incólume e fiel? Aos poucos a resposta definitiva surge. Porque chega-se a um momento em que Celestial está a mais tempo com o marido na prisão do que conviveu com ele como marido e esposa. Então ela se sente na obrigação de esperar e apoiá-lo, mas não suporta mais a situação como um todo; se sente culpada por prosseguir com a vida e a conquistar alguns sonhos, como sua produção de bonecas artesanais. Estimulada pelo próprio Roy, sua inspiração, e que não está presente na escalada dela como empreendedora, Celestial amplia o negócio e abre uma bela loja. Os compromissos a afastam cada vez mais do marido presidiário. Eles trocam cartas, mas estas se tornam cada vez mais breves e menos numerosas, ao menos por parte dela. O tempo entre uma visita e outra, por outro lado, se alarga. Enquanto Roy sofria com a falta de Celestial, eu me perguntava o que estava acontecendo com ela. Pois o livro é assim: não entrega tudo de uma vez numa sequência única. A narrativa vai e volta e apresenta itens pouco a pouco e eu realmente gostei disso. Depois temos o acréscimo da narrativa de Andre, uma pessoa fortemente ligada ao casal, mas de fora do relacionamento, para apresentar mais detalhes e um outro ponto de vista.
Foi bem interessante conhecer as três perspectivas e narrativas. O momento de troca de cartas foi uma manobra inteligente da autora, porque foi suficientemente útil para nos mostrar a intimidade que se esvaía, mas deixando um fio de dúvida no ar, pois, até que ponto as pessoas são realmente sinceras em mensagens escritas, sem o olho no olho? Você sente que talvez exista algo além das palavras escritas e quer descobrir.

"Para as mulheres é diferente. Eles tratam você como se estivesse indo visitar o seu cafetão. Absolutamente todos eles dão risadinhas, como se a gente devesse ter sido mais esperta."

O livro poderia ser um pouco mais longo, mas a autora foca mais nas consequências que no acontecimento em si, portanto, detalhes sobre a acusação e o processo tribunal, por exemplo, são apenas vislumbres. O importante é que Roy não cometeu o crime, Celestial sabe disso, mas não foi possível provar a inocência aos olhos do júri. É notável que a injustiça foi impulsionada pelo racismo, assim como é fato que júris são mais propensos a condenar um homem negro do que um homem branco quando incriminados com a mesma evidência. Posso não compreender de leis americanas, mas tive a sensação de que Roy não teve um julgamento correto, mas conforme citado, a autora não se concentra nisso e a parte do julgamento é bem rápida. Então se você espera exploração do lado criminal da história, não há, o livro é sobre como Roy e Celestial se conheceram, posteriormente se apaixonaram e se casaram e, finalmente são separados pela injustiça.. Não é sobre o crime.
Gostei da forma como a autora desenvolveu o enredo, se concentrando mais nas questões psicológicas, sem receio de expor as fragilidades das personagens e suas escolhas. Mas achei que faltou mais ousadia na abordagem, especialmente na questão racista, e, também, no desfecho. Achei o final agridoce, mas conduzido de modo flácido, visto que parecia se direcionar a um final mais feminista, pois Celestial é quem parecia ser a responsável pela decisão final, ou seja, continuar ou não com Roy. Não sei explicar minha sensação, mas me faltou alguma coisa no clímax e desfecho para realmente achar o livro excelente. Mas o realismo é mantido. Ainda continua bom, me fez refletir sobre casamento, racismo e injustiça, mas o final não seguiu o mesmo nível.

"É o destino do negro. Ser carregado por seis ou julgado por doze."

Uma observação legal é a oportunidade de se ler uma história escrita por uma negra americana da Geórgia sobre o sul dos Estados Unidos e abordando o racismo, mas fora do clichê que erroneamente imaginamos quando pensamos em literatura do sul dos EUA, que costuma ser a Guerra Civil Americana.
A mensagem é fortíssima: injustiça criminal contra uma pessoa não afeta apenas ela, mas sim muitas outras, especialmente sua família e todos que a amam. Pessoas negras são mais propícias a sofrerem estas injustiças e os brancos precisam assumir isso. Tayari Jones aborda com sinceridade, eficácia e intensidade a assustadora questão da injustiça racial e suas gravíssimas consequências. Um romance dramático atual e necessário.


“Um retrato emocionante das consequências de uma condenação injusta na vida de um jovem casal afro-americano.” – Barack Obama.

“Um dos muitos dons de Tayari é o de tocar a nossa alma com suas palavras – e de fazer com que essas palavras sejam magníficas” – Oprah Winfrey.

“Um livro brilhante e de partir o coração. Inesquecível.” – USA Today.


A autora:
Tayari Jones é autora de quatro romances, entre os quais Silver Sparrow, integrante da lista de livros recomendados pela Associação Nacional de Educação dos Estados Unidos. Ganhadora de vários prêmios literários, ela faz parte do corpo docente do Departamento de Artes da Rutgers em Newark. Também é pesquisadora visitante no Black Mountain Institute, na Universidade de Nevada.
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