[Resenha] O Cemitério de Stephen King e Suma (Grupo Companhia das Letras)

O Cemitério (Pet Sematary)
Stephen King - Editora Suma / Grupo Companhia das Letras
Tradução: Mário Molina
424 páginas - R$ 51,90 (impresso) e R$ 27,90 (ebook) - trecho
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Sinopse:
"O livro que inspirou o filme O Cemitério Maldito.
Louis Creed, um jovem médico de Chicago, acredita que encontrou seu lugar em uma pequena cidade do Maine. A boa casa, o trabalho na universidade e a felicidade da esposa e dos filhos lhe trazem a certeza de que fez a melhor escolha. Num dos primeiros passeios pela região, conhecem um cemitério no bosque próximo à sua casa. Ali, gerações de crianças enterraram seus animais de estimação. Mas, para além dos pequenos túmulos, há um outro cemitério. Uma terra maligna que atrai pessoas com promessas sedutoras. Um universo dominado por forças estranhas capazes de tornar real o que sempre pareceu impossível. A princípio, Louis Creed se diverte com as histórias fantasmagóricas do vizinho Crandall. No entanto, quando o gato de sua filha Eillen morre atropelado e, subitamente, retorna à vida, ele percebe que há coisas que nem mesmo a sua ciência pode explicar. Que mistérios esconde o cemitério dos bichos? Terá o homem o direito de interferir no mundo dos mortos? Em busca das respostas, Louis Creed é levado por uma trama sobrenatural em que o limite entre a vida e a morte é inexistente. E, quando descobre a verdade, percebe que ela é muito pior que seus mais terríveis pesadelos. Pior que a própria morte - e infinitamente mais poderosa."

Resenha:
O Cemitério (Pet Sematary), do Mestre do Terror Stephen King, é um dos livros mais importantes de sua carreira. A obra foi publicada originalmente em 1983, entre Christine e A Hora do Lobisomem, e indicada ao World Fantasy Award como melhor livro. Ganhou um filme dirigido por Mary Lambert em 1989 (uma sequência foi lançada em 1992) e, em 1997, uma dramatização adaptada por Gregory Evans para a BBC Radio 4. A banda The Ramones gravou a música tema do filme, lançada no álbum Brain Drain. O filme Cemitério Maldito se tornou um cult e popularizou o livro.
Ao ganhar uma nova adaptação cinematográfica em 2019, dirigida por Kevin Kölsch e Dennis Widmyer, a Editora Suma, do Grupo Companhia das Letras, preparou uma sobrecapa temática para o livro e organizou uma leitura coletiva online. A #SumaLendoOCemitério ocorreu de 18 a 31 de maio e participei graças ao ebook cedido pela Suma através da plataforma NetGalley. Infelizmente me adoentei e atrasei um pouco a leitura. Além de ser um livro que desejava há muito, fui surpreendida com a complexidade inesperada. Caso queira ler o debate sobre O Cemitério, ele foi realizado em duas partes, uma no dia 24  e outra no dia 31. Mas contêm spoilers, lógico. Já a resenha não, pode ler!

"Smucky, ele era obediente." "Trixie, atropelada na estrada." "Marta, nossa coelha de estimação." ...



King, de 71 anos de idade, publicou mais de cinquenta livros best-sellers, mas O Cemitério se destaca e é particularmente complexo e perturbador para ele próprio, porque a obra rompeu a linha que separa criador e criação, realidade e ficção. Muito do que acontece no livro, aconteceu na vida de King: a mudança para uma casa no interior do Maine, o cemitério de animais de estimação próximo, a estrada perigosa e movimentada na porta e a morte do gato da filha. Sobre isso, na entrevista publicada pela Entertainmente Weekly em 29 de maio de 2019, ele comenta: "Nós o enterramos no cemitério de bichos. O nome dele era Smucky. Ela fez uma pequena cruz que dizia ‘Smucky – ele era obediente’. Mas olha, ele era um gato. Ele não era obediente p@#&% nenhuma. (Risos) Mas ela amava aquele gato." Com a perda do gato da família, King observou o luto da filha e a partir de então começou esboçar a ideia central. Ainda segundo a entrevista, ele imaginou na época: "Bem, e se você enterrasse coisas no cemitério de animais de estimação e elas voltassem?"
Assim surgiu a premissa, mas a questão sobrenatural, logicamente, é invenção. Para criar a área além do cemitério de bichos, ele se inspirou na figura mitológica algonquian Wendigo, um espírito canibal. No local há outro cemitério bem mais antigo, um cemitério indígena micmac, uma terra que irradia forças estranhas. King homenageia o conto A Pata do Macaco de W. W. Jacob (disponível para Kindle Unlimited) e faz referências e a música Blitzkrieg Bop dos Ramones.

"— E o que existe lá? — Um cemitério de bichos — disse Crandall. — Não é tão estranho como pode parecer — disse Crandall, fumando e se balançando na cadeira. — é a estrada. Ela tira a vida de muitos animais. Na maior parte, cachorros e gatos, mas não só."

Ilustração incrível feita por Robert Sammelin para a Entertainment Weekly.
A trama se passa no começo da década de 1980, a narrativa é em terceira pessoa e o protagonista é o médico Louis Creed. Ele tem um novo emprego, na universidade do Maine, compra uma casa no interior e se muda de Chicago com a esposa Rachel, a filha Eillen, o filho Gage e o gato de estimação Church. Na frente, uma estrada supermovimentada e perigosa repleta de caminhões enormes. Ao fundo, um cemitério de bichos exótico criado pelas crianças locais, onde tradicionalmente as pessoas enterram seus animais. A nova vida é promissora, o casal idoso que mora do outro lado da pista, Jud e Norma Crandall, é muito hospitaleiro e tudo corre bem até a morte bater à porta dos Creed.
Louis é cético, científico e convive com a morte em sua carreira como médico. Já sua esposa enfrentou o luto precoce na família e a morte é um assunto muito complicado e traumatizante para ela. Church é atropelado e morto e, como é um livro de King, volta à vida! É um gato meio-vivo, meio-morto, fedorento e... zumbi? Ás vezes estar morto é melhor.
Mas a história não para aí, choca e verdadeiramente assusta. Na verdade, me impressionou, pois eu não esperava um determinando acontecimento, mas acima de tudo, me abalou e fiquei meio triste; na verdade há muita tristeza nas entrelinhas. Fiquei pensando na fragilidade da vida; em como de repente ela acaba e ninguém pode fazer nada a respeito. O lado sobrenatural é criativo, marcante e terrível. Não é à toa que King criou um clássico instantâneo, um cult admirado.
Destaco como personagem o vizinho Jud. Gostei dele, da forma como nos conta a história local, tanto das pessoas como do lugar, e do relacionamento dele com Louis.
Além disso, o livro possui ótima estrutura, várias surpresas e um final memorável!

"O solo do coração de um homem é mais empedernido. Um homem planta o que pode... e cuida do que plantou."

Church nos filmes: versão de 2019 / versão de 1989.
Um marido e pai dedicado que toma decisões erradas ao ser influenciado pela magia macabra de um local muito antigo. Ele se envolve com forças desconhecidas e, desesperado, ao tentar fazer o melhor pela família, abre uma brecha para coisas ruins acontecerem. Um local pode acumular história e conter grande poder de tradições, ao ponto de intervir em vidas. O cemitério indígena me fascinou, pois emana mistério, suspense e terror iminente, um local que deveria permanecer intacto e isolado. Eu temia cada vez mais pela família Creed.
Porém antes de todo item sobrenatural e fictício, O Cemitério é sobre luto e morte. Sobre como cada pessoa reage de uma forma diferente e muito íntima com a perda de um ente querido; sobre como é o momento em que a criança descobre o significado da morte; sobre como geralmente não a aceitamos em um primeiro instante, principalmente quando não parece o momento justo, mesmo a morte sendo inevitável e natural pra todos; sobre como ela é simultaneamente tão misteriosa e assustadora e como às vezes ela pode ser libertadora, especialmente após um grande sofrimento como uma doença arrasadora.
Esta é a questão principal do livro e mesmo que King seja conhecido como autor de sobrenatural, terror e horror, eu sempre interpreto suas histórias, por mais fantásticas que sejam, como verdadeiras vitrines do comportamento humano, como manifestações da realidade, como espelhos de nós mesmos. E sempre me impressiono!

"Quando um animal de estimação é atropelado na estrada, uma criança nunca esquece."

O Cemitério dos Bichos no filme de 2019.
Como minha leitura foi em formato digital, não posso avaliar o exemplar físico, mas não tive nenhum problema com o ebook lido no Kindle. A tradução é de Mário Molina e a revisão da equipe é excelente.

O autor:
Stephen King é autor de mais de cinquenta livros best-sellers no mundo. Os mais recentes incluem Outsider, Revival, Mr. Mercedes, Escuridão Total Sem Estrelas, Doutor Sono, Joyland e Novembro de 63. Em 2003, King recebeu a medalha de Eminente Contribuição às Letras Americanas da National Book Foundation e, em 2007, foi nomeado Grão-Mestre dos Escritores de Mistério dos Estados Unidos. Ele mora em Bangor, no Maine, com a esposa, a escritora Tabitha King.
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Abaixo, trailer do filme de 1989. Quer assisti-lo? Está disponível no Google Play Filmes para aluguel por R$ 4,90 e compra por R$ 23,90.



Trailer do filme de 2019:



Trilha sonora de 1989:



Trilha sonora de 2019:


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