[Resenha] Uma Mulher no Escuro de Raphael Montes e Companhia das Letras

Uma Mulher no Escuro
Raphael Montes - Companhia das Letras / Grupo Companhia das Letras
256 páginas - R$ 49,90 (impresso) e R$ 34,90 (ebook)
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Sinopse:
"Victoria Bravo tinha quatro anos quando um homem invadiu sua casa e matou sua família a facadas, pichando seus rostos com tinta preta. Única sobrevivente, ela agora é uma jovem solitária e tímida, com pesadelos frequentes e sérias dificuldades para se relacionar. Seu refúgio é ficar em casa e observar a vida alheia pelas janelas do apartamento onde mora, na Lapa, Rio de Janeiro.
Mas o passado bate à sua porta, e ela não sabe mais em quem pode confiar. Obrigada a enfrentar sua própria tragédia, Victoria embarca em uma jornada de amadurecimento e descoberta que a levará a zonas obscuras, mas também revelará as possibilidades do amor. Um psiquiatra, um amigo feito pela internet e um possível namorado — qual dos três homens está usando tudo o que sabe para aterrorizar a vida de Vic? E o que afinal ele quer com ela?
Na literatura nacional, Raphael Montes é unanimidade quando se trata de livros de suspense. Uma mulher no escuro traz sua primeira protagonista feminina e confirma o autor como um dos mais originais da atualidade — além de deixar o leitor intrigado do começo ao fim."

Resenha:
Em quem você pode confiar? Neste suspense psicológico de alto nível, Raphael Montes, autor de Suicidas, Dias Perfeitos, O Vilarejo e Jantar Secreto, sucessos de crítica e público, explora a questão através de sua primeira protagonista feminina. O resultado é o realista e perturbador Uma Mulher no Escuro, lançamento de junho da Companhia das Letras, onde Victoria Bravo, única sobrevivente do ataque a facadas sofrido por sua família há vinte anos, reencontra o assassino. Mas ela não sabe quem ele é. Pode ser seu único amigo, feito pela internet, o interesse romântico que conheceu na cafeteria ou o psiquiatra que sabe tudo sobre ela. Muito mais que um thriller viciante sobre quem é o assassino, é uma obra densamente psicológica que aborda temas muito sérios e complexos, como as diversas consequências de abusos e traumas na infância que permanecem durante a vida adulta, mas influenciam as vítimas em diferentes formas. Uma leitura que não consegui largar e que ainda me faz pensar em variadas questões, especialmente em como pode nascer um psicopata. As personagens certamente não vão me abandonar tão cedo, pois adoro refletir e pesquisar sobre questões psicológicas. Se você também gosta da complexidade da mente humana e um enredo instigante, Uma Mulher no Escuro é o livro certo!


Ambientada no Rio de Janeiro, a obra também nos leva a uma rápida visita à Região dos Lagos, no interior do estado, até Iguaba Grande. Sou carioca e vivo nesta região há dez anos, além de ter morado em Iguaba. No Rio de Janeiro, o autor passeia por diversos bairros, como Lapa, Cinelândia, Copacabana, Catete, Ilha do Governador. Este último é o local onde ocorreu o crime central da história. Por coincidência, bairro onde vivi no Rio. Portanto, ressalto a forma incrível como o autor descreve os cenários, pois conheço a maioria. Descrever não é a forma correta, ele realmente coloca quem lê no ambiente em questão, de modo muito envolvente. Não é uma ambientação romantizada, e sim muito realista e honesta e eu gostei bastante, de verificar que os cenários realmente são como mostrados.
Victoria é uma jovem de vinte e quatro anos de idade que perdeu pais e irmão mais velho em um crime horrendo. Um dos estudantes da escola da qual seus pais eram donos invadiu a residência da família, esfaqueou violentamente e pichou de tinta preta todos os integrantes. Victoria tinha apenas quatro anos de idade e foi a única sobrevivente. Criada então pela tia-avó, quem ela visita semanalmente, Victoria mora em um pequeno apartamento na Lapa e trabalha em uma cafeteria de um amigo da família, no centro do Rio. Ela carrega traumas físicos e psicológicos, como a dificuldade em se relacionar com outras pessoas, especialmente homens, e o histórico de alcoolismo. Possui apenas um amigo (ou o que estaria mais próximo de um), o Arroz, e o passatempo preferido deles é visitar imóveis disponíveis para aluguel, desde que tenha alguém morando no local. Eles fingem ser um casal interessado no imóvel e observarem a vida de quem vive no local. Parece meio doentio, ao menos anormal. Tentando mudar um pouco sua vida antissocial, Victoria aceita então o convite para um lanche do cliente assíduo da cafeteria, o escritor Georges. E entre uma amizade estranha e uma tentativa desajeitada de relacionamento romântico, Victoria conta boa parte dos acontecimento ao psiquiatra, o Dr. Max, que lhe ajuda a se relacionar melhor com as pessoas.

Foto: Pizabear.
Até o dia em que alguém invade seu apartamento e o picha com tinta preta, mesmo ato cometido à ela e sua família assassinada. Será um imitador, um susto de muito mau gosto ou o retorno de Santiago, o assassino? Victoria procura a polícia e tudo retorna de uma só vez: lembranças dolorosas, informações esquecidas, perguntas nunca respondidas e sua vida em risco.
A partir de então, o livro se torna ainda mais instigante e atraente. Realmente não consigo explicar, mas fiquei muito curiosa e fascinada com o perigo iminente e a tensão no ar. O estilo do autor é rico, mas de fácil compreensão, além de extremamente instigante, ou seja, aquele tipo de história que prende, que te faz pensar em muitas possibilidades, que te impressiona e te convida a especular. O mais legal é duvidar de todas as personagens, cheguei ao ponto da neurose (no bom sentido) de desconfiar até dos aparentemente mais inocentes, não desconfiava apenas dos três homens em questão (o amigo, o namorado, o médico), eu tentava dissecar tudo e todos.
No avançar do livro, algumas outras personagens surgem, relacionadas ao passado dos pais de Victoria e/ou de Santiago. Tudo porque chega às mãos da protagonista, mesmo após duas décadas, parte de um diário escrito por Santiago do final da infância à adolescência. Com isso, Victoria tem novos nomes relacionados ao assassino e aos pais, e até a ela mesma. Com revelações chocantes, Victoria descobre novas pistas sobre o caso e uma pessoa muito importante que ela nem sabia que existia. O que levou Santiago a cometer esse crime bárbaro? Outras pessoas estariam envolvidas? Victoria deseja descobrir a verdade, tanto para compreender porque sua família foi assassinada como para impedir um potencial novo ataque a si. Quem é Santiago? Mas Victoria descobre muito, muito mais...


A narrativa é em terceira pessoa, mas existem pequenos "interlúdios" em primeira pessoa e no presente, que são do assassino. Eu relia estas partes em busca de pistas sobre a identidade dele. Além disso, o diário de Santiago lido por Victoria também incrementa a trama.
Se você gosta de romances de suspense atuais com protagonistas mulheres e imperfeitas mas corajosas, que lidam com problemas e traumas e um crime assombrador, Uma Mulher no Escuro é leitura perfeita. Victoria é uma protagonista marcante e complexa, pois ela é a vítima e possui muitos problemas, mas ela os supera, se desenvolve e cresce como pessoa, enfrentando heroicamente todos os obstáculos. Mais que vítima traumatizada, ela é uma sobrevivente. Não uma coitadinha. Ela assume seus defeitos e fragilidades e encontra sua força para encarar o que estiver por vir, mesmo seu pior pesadelo. Victoria não é passiva, ela investiga, busca por respostas e não deixa o medo dominá-la, mesmo sofrendo de crises de pânico, por exemplo. Admirável ver como ela dispensa a hiperproteção ao redor, principalmente vinda de homens que supostamente desejam o seu bem, para ela mesma enfrentar seus problemas. Uma prova de que uma pessoa frágil e traumatizada, até mesmo manipulada ou dependente de outras, pode sim se tornar mais forte, ativa e decidida sobre sua vida. Pensei muito sobre isso por causa da protagonista, sobre reaprender a viver, a recomeçar.
Então quem curte livros com mulheres complexas e de atitude como Uma Mulher na Janela, A Garota no Trem ou Garota Exemplar, vai adorar Uma Mulher no Escuro, e se você busca por uma obra ambientada no Brasil, dentro da nossa realidade, será uma leitura ainda mais memorável. O livro também é indicado para quem gosta de filmes clássicos de suspense como os de Alfred Hitchcock e fãs de literatura criminal e obras que exploram ao máximo a complexidade das profundezas da mente humana. Um suspense impossível de largar.
O mais legal da minha experiência é que fui surpreendida, porque eu não tinha certeza sobre a nova identidade de Santiago, o assassino da família de Victoria, mesmo na reta final da leitura. Descobri o segredo da família de Victoria, mas não consegui acertar quem era o assassino.

O exemplar da Companhia das Letras possui capa linda de Rafael Nobre, excelente revisão, páginas amareladas e orelhas.
Conheça os demais livros de Raphael Montes: Dias PerfeitosSuicidasO Vilarejo (resenha aqui) e Jantar Secreto.


O autor:
Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Escreveu os romances Suicidas, Dias Perfeitos, O Vilarejo, Jantar Secreto e Uma Mulher no Escuro, todos sucesso de público e de crítica, traduzido em mais de 20 países e com os direitos de adaptação vendidos para o cinema. Atualmente, Raphael assina uma coluna semanal em O Globo, apresenta um programa de literatura na TV Brasil, o Trilha de Letras, e escreve roteiros para cinema e para TV.
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