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Resenha: Ascensão, de Stephen King e Suma (Grupo Companhia das Letras)

Ascensão (Elevation)
Stephen King - Editora Suma / Grupo Companhia das Letras
Tradução: Regiane Winarski
Ilustrações: Mark Edward Geyer
168 páginas - R$ 59,90 (impresso) e R$ 39,90 (ebook) - trecho
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Sinopse:
"Uma história fascinante, curiosa e comovente sobre um homem cujo misterioso problema ajuda os habitantes de Castle Rock a superar as diferenças e se tornar uma comunidade.
Scott Carey tem muito em que pensar — o projeto enorme que pegou no trabalho; o casal lésbico que mora na casa ao lado e o cachorro delas, que insiste em fazer as necessidades no seu quintal; e a súbita e inexplicável perda de peso das últimas semanas.
Apesar de não querer ser estudado e examinado, Scott decide compartilhar a questão com seu velho amigo, o dr. Bob Ellis. Afinal, apesar dos números decrescentes na balança, sua aparência continua a mesma — além disso, seu peso não varia quando está nu ou usando roupas pesadas, quando está de mãos vazias ou carrega algo no colo. Não importa o que ele faça ou coma, Scott está cada vez mais leve — embora não mais magro —, e conforme seu peso se aproxima de zero, ele sabe que logo nada vai prendê-lo ao chão.
Scott não quer se preocupar com o que vem pela frente; ele ainda tem tempo para resolver todas as suas questões antes do Dia Zero, e por que não começar pelas mais difíceis? Por exemplo, encarando o preconceito que suas vizinhas têm sofrido da comunidade — e dele — e fazendo o possível para ajudar.
Amizades improváveis, a maratona anual da cidade e a misteriosa condição de Scott são a fórmula para grandes transformações. Incrivelmente alegre e profundamente triste, Ascensão é um verdadeiro antídoto para nossa cultura intolerante."

Resenha:
Ascensão (publicado originalmente em 2018 como Elevation), de Stephen King, foi lançado no Brasil em 2019 pela Editora Suma, do Grupo Companhia das Letras, com tradução de Regiane Winarski, uma das melhores do ramo. O formato é em capa dura, o mesmo de A Pequena Caixa de Gwendy, outra novela do autor (em parceria com Richard Chizmar) passada em Castle Rock, cidade fictícia no estado do Maine, cenário de clássicos como A Zona Morta e Cujo e que originou a série de TV da Hulu. A história se assemelha mais a um conto de King que um romance, visto que ele é famoso por escrever calhamaços e contos longos. Mas não é apenas o tamanho da obra que chama a atenção.
Talvez este seja o livro do Mestre de Terror que mais se afaste de seu estilo tradicional. Não é terror ou suspense sobrenatural, embora o conflito principal traga curiosidade e, em certos momentos, tensão e melancolia, sem deixar o lado fantástico de lado. Não há monstros, assassinatos ou fantasmas. No entanto, a ameaça é a intolerância e o preconceito, assim como uma condição inevitável do protagonista. Não existem cenas desnecessárias, informações extras sobre a cidade, excesso de personagens, muito menos descrições minuciosas. A sensação de pertencimento ao Kingverse existe ao citar um evento de A Pequena Caixa de Gwendy e a se referir a It; a Coisa, por isso, não é uma história cheia de referências a outras obras de King, até porque não há espaço.
A narrativa corre em terceira pessoa sob poucos capítulos. Cada um contém uma ilustração em preto-e-branco de Mark Edward Geyer.


Scott Carey, o protagonista da trama, é um homem com aproximadamente 110 kg de peso. Ele nem sabia ao certo, porque evitava subir na balança. No entanto, ele está tendo uma perda considerável e repentina de quilos. Ao monitorar quantos estão desaparecendo de seu corpo e a velocidade com que isso acontece, Scott sabe que a aparência não muda. E ele já aceitou os fenômenos física e biologicamente inexplicáveis, como seu peso não aumentar caso suba na balança segurando qualquer coisa pesada. E o número na balança só diminui, mesmo comendo muito mais propositalmente. Nada que ele faz impede a perda de massa, embora não emagreça a olho nu.
Isto é interessante: não é uma trama do tipo que o protagonista descobre o problema e tenta de todas as formas lutar para resolvê-lo. O livro começa com uma sensação de ser a metade, com a impressão de que muita coisa já aconteceu com Scott em relação ao conflito principal. Será que ele duvidou, ignorou, se desesperou? Não se sabe, pois agora ele se encontra no momento da aceitação. Ele se importa, tanto que planeja coisas, mas ele não pensa em fazer nada para evitar a perda de peso, porque sente que é inevitável. Ele não quer mídia, pesquisadores, nada em cima dele, apenas viver a vida da melhor forma possível, ficando cada vez mais energético. Então ele se enche de positividade para usufruir o que resta de sua massa corporal enquanto pode, visto que a perda é exponencial, mas sem loucuras de "fazer o que ainda não fez". Ele pensa em um bem maior, além de si mesmo. E talvez seja essa a ironia: ele perde parte de si ao ser altruísta; e elevar seu ser pode ser um sacrifício.


Recém-divorciado, vive sozinho em Castle Rock com seu gato de estimação. Portanto, ele decide compartilhar o que está acontecendo com seu amigo, residente da mesma cidade, o Dr. Bob Ellis, que lhe garante sigilo total.
Enquanto cria um site para uma loja grande de departamentos, Scott quer trégua com o casal de vizinhas que se mudou recentemente. Deidre McComb e Missy Donaldson são donas do novo restaurante de Castle Rock e diariamente saem para caminhadas com seus cachorros, mas não recolhem as fezes que os boxers sempre deixam no gramado de Scott. Ao tentar conversar com elas, é recebido com pedras nas mãos por Deidre. Mas ao observar melhor sua comunidade, percebe que elas estão com o restaurante em risco devido à homofobia da população, que não gosta de um casal lésbico assumido vivendo na cidade. Até mesmo Dr. Bob pede para Scott não contar à esposa Myra que estiveram no restaurante de Deidre e Missy, pois ela desaprovaria.
Presenciando a situação muito errada e desnecessária, Scott decide mudá-la. Uma vez que ele aceita sua nova condição, sua recém-descoberta leveza, ele literalmente corre com ela, elevando-se acima da sociedade, mas desejando fazê-la também ascender como ele.


Não é um livro sobre explicações e detalhes, não é ficção científica. É mais uma fantasia, uma trama non-sense sobrenatural. É sobre como pessoas altruístas e empáticas, que sentem e praticam o bem e respeitam os outros e o diferente, têm consciências mais leves. Estão níveis acima das demais. É sobre como se vive melhor sem se apegar a sentimentos nocivos como medo e intolerância.
A condição inexplicável e sobrenatural de Scott atinge a própria Castle Rock, pois a cidade e seus habitantes tradicionalmente preconceituosos parecem mudar drástica e repentinamente. É como se o peso da intolerância evaporasse do local, deixando a vida mais positiva, a convivência em sociedade mais harmoniosa e o futuro, mais otimista.
Mais que uma crítica às comunidades ultraconservadoras, King traz um pouco de esperança ao mostrar como pode ser possível lutar contra o preconceito e pensamentos retrógrados espalhando empatia e amor. Através de situações rotineiras e insistência pela paz, o protagonista faz uma microssociedade mudar de comportamento. É um conto longo sobre como revolução pode ser feita com amor e união, que é possível surpreender em meio a uma briga ou discussão e responder com bondade. Embora um tanto utópico, Ascensão é um livro onde o autor expressa o desejo esperançoso pela mudança de sua sociedade. Fica a mensagem: faça a sua parte como pessoa cidadã, com empatia e altruísmo, e eleve seu espírito. Somente assim nossa sociedade poderá ascender.


É uma boa novela, com um protagonista supercarismático, com boa representatividade feminina e LGBT+, mas infelizmente é muito curta. Aparentemente é muito simples (acredito que seja proposital) mas profunda em reflexões (que podem não alcançar a todos). Se fosse apenas pela estrutura e tamanho, seria comercializada como parte de antologia, porém a importância do tema, seu desenvolvimento e necessidade de debate, com certeza fizeram com que percebessem o destaque necessário da obra ser publicada separadamente.
Livro indicado para quem deseja uma história melancólica, mas que faça bem. Para quem quer ler King, porém não quer um calhamaço, com fatos ou personagens demais. Se procura por um suspense de gelar a espinha, um terror de tirar um sono ou um policial sobrenatural assustador, este não é o livro. Ascensão é para aquecer o coração de esperança, pensando em como as sociedades poderiam mudar para melhor se as pessoas se respeitassem; por outro lado, a leitura pode entristecer, porque na vida real a maioria parece não desejar ascender. Mesmo assim, aproveitando o trocadilho, é uma leitura leve, para elevar o humor.


O livro também é uma homenagem a Richard Matheson (1926 - 2013), autor de ficção especulativa conhecido por Eu Sou a Lenda, Outros Reinos, Amor Além da Vida e Em Algum Lugar do Passado. O nome do protagonista de Ascensão é o mesmo do de The Shrinking Man (posteriormente The Incredible Shrinking Man - O Incrível Homem que Encolheu), romance de ficção científica de Matheson, publicado em 1956 e adaptado para um filme duas vezes (em 1957 e em 1981). O Scott Carey de Matheson não para de encolher de tamanho, perdendo peso e estatura, enquanto o de King perde massa corporal, porém efeito invisível aos olhos. O Incrível Homem que Encolheu teme diminuir tanto ao ponto de desaparecer, e em Ascensão, o medo é a chegada do Dia Zero, ou, o dia em que ele pesará zero gramas. Se um dos temas da novela de Matheson é o medo de perder a masculinidade perante a sociedade, em Ascensão King explora como a homofobia e a intolerância fazem muito mal e, por vezes demais, matam.


Stephen King é autor de mais de cinquenta livros best-sellers no mundo. Os mais recentes incluem Outsider, Revival, Mr. Mercedes, Escuridão Total Sem Estrelas, Doutor Sono, Joyland e Novembro de 63. Em 2003, King recebeu a medalha de Eminente Contribuição às Letras Americanas da National Book Foundation e, em 2007, foi nomeado Grão-Mestre dos Escritores de Mistério dos Estados Unidos. Ele mora em Bangor, no Maine, com a esposa, a escritora Tabitha King.
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O novo livro do Stephen King é Com Sangue (If it Bleeds) e já está em pré-venda na Amazon. O lançamento será em 16 de setembro. Reserve seu exemplar!


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