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[Resenha] Outsider, de Stephen King e Suma (Grupo Companhia das Letras)

Outsider (The Outsider)
Stephen King - Editora Suma / Grupo Companhia das Letras
Tradução: Regiane Winarski
528 páginas - R$ 59,90 (impresso) e R$ 39,90 (ebook) - trecho
Comprar: Amazon | Livraria Cultura | Livraria da Folha | Google Play | Kobo | Saraiva

Sinopse:
"Um crime indescritível. Uma investigação inexplicável. Uma das histórias mais perturbadoras de Stephen King dos últimos tempos.
O corpo de um menino de onze anos é encontrado abandonado no parque de Flint City, brutalmente assassinado. Testemunhas e impressões digitais apontam o criminoso como uma das figuras mais conhecidas da cidade — Terry Maitland, treinador da Liga Infantil de beisebol, professor de inglês, casado e pai de duas filhas.
O detetive Ralph Anderson não hesita em ordenar uma prisão rápida e bastante pública, fazendo com que em pouco tempo toda a cidade saiba que o Treinador T é o principal suspeito do crime. Maitland tem um álibi, mas Anderson e o promotor público logo têm amostras de DNA para corroborar a acusação. O caso parece resolvido.
Mas conforme a investigação se desenrola, a história se transforma em uma montanha-russa, cheia de tensão e suspense. Terry Maitland parece ser uma boa pessoa, mas será que isso não passa de uma máscara? A aterrorizante resposta é o que faz desta uma das histórias mais perturbadoras de Stephen King."

Resenha:

Outsider significa "forasteiro" e é o título do livro do Stephen King lançado nos Estados Unidos em maio de 2018 e que chegou ao Brasil pela Editora Suma apenas um mês depois. A imprensa, a crítica especializada e os leitores fiéis consideram Outsider uma obra "Stephen King Raiz", ou seja, com as principais características que fizeram dele o mestre do terror atual. Contém muito suspense, terror psicológico, horror gore, violência, boas personagens e humor mórbido. Outro motivo para você ler é que será adaptado em uma minissérie televisiva ou de streaming com 10 episódios, produzida por Jack Bender e Marty Bowen e com roteiro de Richard Price, segundo informações do site Deadline.
A primeira metade do livro pode ser considerada literatura policial, pois apresenta um crime, uma investigação e a prisão do suposto culpado e não possui ainda os elementos sobrenaturais. Mas já deixa no ar que a análise da atrocidade possui muitas lacunas e itens bizarros. Sendo uma história do King já se imagina que o desenvolvimento do enredo ainda trará surpresas sombrias ou espantosas. Enquanto isso, o suspense se mantém firme e forte, rodeado por paranoia, medo e ansiedade, assim como a sensação de que há algo muito errado com a investigação da polícia e que o perigo ainda está à solta. O sobrenatural chega de forma explícita aproximadamente na metade do livro, que se antes já estava ótimo, se torna fantástico!


Stephen King homenageia autores de ficção policial e mistério: os contemporâneos Harlan Coben (série Myron Bolitar) e Lisa Gardner (série D. D. Warren), e os clássicos Arthur Conan Doyle (criador do Sherlock Holmes) e Edgar Allan Poe (considerado o pai da literatura policial). Este último tem destaque com referências e citações do conto William Wilson.
Assim como os estilos desses autores, King se inspirou em duas lendas folclóricas muito antigas e tradicionais: uma de origem germânica (Doppelgänger) e outra de origem Ibérica (Coco, ou Cuco, Coca, Cuca, Cucu, Cucuy, Cucuí, Koko). A primeira fala de uma aparição sobrenatural de uma réplica exata de alguém, como um espírito duplo, que geralmente quando visto carrega mau presságio, geralmente morte iminente. É uma crença difundida em várias mitologias. Já a segunda lenda era/é utilizada para assustar crianças desobedientes ou que não querem ir dormir. É de um ser sobrenatural que sequestra crianças e se alimenta delas. Aqui no Brasil é conhecida como Cuca, mas há também outras versões como Bicho-Papão e Homem do Saco.
King foca no ditado "toda lenda tem um fundo de verdade" e junta as duas lendas ao criar a sua própria assombração: o Forasteiro. Uma observação interessante é que não é um monstro fantástico sem sentido ou muito místico; King criou regras de funcionamento para ele. Não é porque é um ser sobrenatural que não siga leis físicas bastante verossímeis, consequentemente, críveis.

"...disse que ele estava flutuando do lado de fora da janela. Falou que tinha cara de massinha e canudos no lugar dos olhos. Qualquer um acharia que foi um pesadelo, não?"



King vai da lenda para a ficção científica, porém de forma mais branda (como um eco da trama), com a teoria da existência de universos paralelos, o multiverso. Isso significará mais para quem já leu a série A Torre Negra.
E se há dúvidas sobre qual livro do King se passa no mesmo universo de outro, Outsider é quase uma continuação da Trilogia Bill Hodges, formada por Mr. Mercedes, Achados e Perdidos e Último Turno. Embora Outsider seja um livro totalmente independente e autônomo e oficialmente um volume único (logo se você busca uma leitura não pertencente a uma série, não se preocupe), uma personagem da trilogia Bill Hodges surge na metade da trama, participa ativamente e possui papel importante e decisivo, de fato se tornando a coestrela. Por isso, Outsider pode também ser considerado quase um spin-off dessa trilogia (acho que é a melhor definição). Quem já leu precisa urgentemente adquirir Outsider, acredito que será empolgante. Já eu que não a li, não estou apta a apontar exatamente, mas existem vários spoilers e pós-créditos diretos da trilogia. Não achei isso negativo, na verdade o contrário, pois fiquei com muita vontade de ler Bill Hodges, mesmo já ciente do futuro, principalmente pela personagem em questão, realmente gostei dela.

"— Não há fim para o universo.
Ela olhou para ele, solene.
— Isso mesmo. Essa merda não tem fim."


E esse é outro ponto forte que sempre aprecio no King: as personagens, sempre tão plausíveis, humanas, cheias de inseguranças e de propósitos  para o bem ou o mal, ou ambos.
Terry Maitland, treinador da Liga Infantil de beisebol, professor de inglês, casado, pai de duas filhas, cidadão exemplar e admirado pelos conterrâneos, é suspeito do assassinato cruel de Frankie Peterson, um menino de doze anos de idade. A equipe policial local chefiada por Ralph Anderson (o protagonista) e o promotor público do condado Bill Samuels logo prendem o treinador, com provas inquestionáveis, incluindo amostras de DNA. Mas Maitland possui um álibi também incontestável. E agora, é possível uma pessoa estar fisicamente presente em dois lugares ao mesmo tempo? Assim começa Outsider.
Temos as famílias Peterson e Maitland, testemunhas, investigadores, a esposa de Anderson e o advogado de Maitland no núcleo principal, até a chegada de mais personagens, incluindo o Forasteiro, o monstro da trama.
A narrativa é em terceira pessoa com variados pontos de vista, acontece nas fictícias Flint City e Cap City, no estado Oklahoma, e dura apenas duas semanas, logo tem um ritmo frenético de acontecimentos. São doze capítulos, subdivididos em partes dinâmicas.
Gosto muito de como King apresenta informações e características. Ele costuma preencher suas tramas na medida certa, fazendo você se interessar o suficiente pelas pessoas, lugares e acontecimentos, mas ao mesmo tempo sem sobrecarregar. Por motivos variados, todo livro do King me marca com ao menos uma cena memorável. Outsider possui várias, como a do dia da denúncia no tribunal (uma balbúrdia visualmente interessante) e todas as assustadoras cenas com o Forasteiro!


Minha experiência com Outsider foi incrível, excelente e além das minhas expectativas, pois pensei que se tratava "apenas" de uma trama criminal bem escrita, contudo vai além, é um "terror-policial-sobrenatural" com várias esquisitices sinistras e mistério macabro. Me senti como num excelente episódio da minha série televisiva preferida, Arquivo X (X-Files). Uma curiosidade é que Arquivo X possui um episódio "monstro da semana" da quinta temporada roteirizado pelo King. E não apenas a investigação paranormal me lembrou a série, mas a interação entre certas personagens, quase idêntica a relação Dana Scully e Fox Mulder, onde ela é cética e só acredita em provas reais, enquanto ele está sempre aberto ao sobrenatural e inexplicável. As discussões entre algumas personagens soaram muito semelhantes.
Dizer que recomendo Outsider para leitores fiéis do King é desnecessário, mas se você gosta do King precisa (claro!) de Outsider, impossível não curtir. Consequentemente recomendo para quem quer conhecer seu trabalho e deseja começar por uma obra mais recente. Será um bom primeiro contato, especialmente se a pessoa gostar de ficção policial.


"Monstros são reais e fantasmas são reais também. Vivem dentro de nós e, às vezes, vencem." Adoro esse pensamento do King e concordo cem por cento. A parábola de "os monstros somos nós" é muito intensa em Outsider, principalmente no último terço da história e no desfecho, que é aparentemente simples, mas cheio de significado. Cada assassino brutal é um monstro aos olhos de uma pessoa comum. Quantas vezes você viu uma notícia criminal e logo pensou "que monstro!"? Portanto, em Outsider, o monstro não difere dos serial killers frios e sem empatia e remorso. Há até uma justificativa sobre ser natural para ele praticar tais atos grotescos, quando King reflete rapidamente sobre a ética em matar para se alimentar. Se um vampiro, por exemplo, mata para se alimentar, ele não se considera um monstro. Mas e quando sente prazer em matar?
Mas a mensagem principal de King é o questionamento de onde está a humanidade nessas pessoas cometendo crimes tão hediondos. Nos sentimos incapazes de aceitar, como se somente um monstro ou um ser inumano, sobrenatural, fosse capaz de cometê-los. Embora nesta obra tenhamos um ser sobrenatural terrível e de carne e osso, mais uma vez King alerta sobre como o monstro pode ser qualquer um. A crueldade pode estar dentro de uma pessoa socialmente imaculada ou de alguém que já se arrependeu e se redimiu, por exemplo. Pode partir de quem menos se espera. Porque, lamentavelmente, a maldade não possui rosto e ela pode assumir qualquer um


"— Não parece um monstro, parece?
— Eles quase nunca parecem."



Você pode ler um trecho com o início da trama no site do Grupo Companhia das Letras (clique aqui).
O exemplar possui o capricho tradicional da Editora Suma: miolo em papel amarelado, orelhas e trabalho perfeito de diagramação, revisão e tradução, que é da essencial Regiane Winarski.
Editora Suma já anunciou as próximas publicações dele aqui no Brasil. Além de Elevation, o novo livro ainda inédito (será publicado nos Estados Unidos em outubro), a Suma vai lançar em 2019 na coleção de clássicos Biblioteca Stephen King, aquela linda em capa dura e conteúdo extra, Trocas Macabras e A Metade Sombria, ambos fora de catálogo e muito desejados e solicitados.

O autor:
É autor de mais de cinquenta livros best-sellers no mundo inteiro. Os mais recentes incluem Revival, Mr. Mercedes, Escuridão Total Sem Estrelas (vencedor dos prêmios Bram Stoker e British Fantasy), Doutor Sono, Joyland, Sob a Redoma (que virou uma série de sucesso na TV) e Novembro de 63 (que entrou no TOP 10 dos melhores livros de 2011 na lista do New York Times Book Review e ganhou o Los Angeles Times Book Prize na categoria Terror/Thriller e o Best Hardcover Novel Award da Organização International Thriller Writers). Em 2003, King recebeu a medalha de Eminente Contribuição às Letras Americanas da National Book Foundation e, em 2007, foi nomeado Grão-Mestre dos Escritores de Mistério dos Estados Unidos.
Ele mora em Bangor, no Maine, com a esposa, a escritora Tabitha King.
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