[Resenha] O Sal das Lágrimas de Ruta Sepetys e Arqueiro

O Sal das Lágrimas (Salt to the Sea)
Ruta Sepetys - Arqueiro
Tradução: Vera Ribeiro
320 páginas - R$ 49,90 (impresso) e R$ 29,99 (ebook)
Comprar na Amazon - baixar trecho do livro

Sinopse:
"Inverno de 1945, Segunda Guerra Mundial. Quatro refugiados, quatro histórias.
Joana, Emilia, Florian, Alfred. Cada um de um país diferente. Cada um caçado e assombrado pela tragédia, pelas mentiras e pela guerra. Enquanto milhares fogem do avanço do exército soviético na costa da Prússia, os caminhos desses quatro jovens se cruzam pouco antes de embarcarem em um navio que promete segurança e liberdade. Mas nem sempre as promessas podem ser cumpridas...
Profundamente comovente, O sal das lágrimas se baseia em um acontecimento real. O navio alemão Wilhelm Gustloff foi afundado pelos russos no início de 1945, tirando a vida de mais de 9 mil refugiados civis, entre eles milhares de crianças. É o pior desastre marítimo da história, com seis vezes mais mortos que o Titanic.
Ruta Sepetys, a premiada autora de A vida em tons de cinza, reconta brilhantemente essa passagem por meio de personagens complexos e inesquecíveis."

Resenha:
O Sal das Lágrimas foi originalmente publicado em 2016 e chegou ao Brasil pela Editora Arqueiro em fevereiro de 2019. Ruta Sepetys, estadunidense filha de um refugiado lituano, é autora de ficção histórica. A Vida em Tons de Cinza, recentemente renomeado como Cinzas na Neve, também foi lançado aqui e ambos, embora totalmente independentes, possuem personagens em comum, além do momento e temática: a situação de refugiados, especialmente oriundos das repúblicas bálticas e da Prússia Oriental, durante a Segunda Guerra Mundial, imprensados em meio ao ápice do conflito entre a União Soviética e a Alemanha Nazista.
Em Cinzas na Neve a protagonista Lina tem vários flashbacks contendo Joana, protagonista de O Sal das Lágrimas; já neste, protagonizado por Joana, a relação entre elas é apenas citada, porém sempre deixando muito claro que a ligação entre elas é forte e vai além do parentesco. Mais que primas, Lina e Joana são amigas, e a separação que a guerra causa é terrivelmente dolorosa. Portanto, os livros são interligados, mas não como numa série, nem mesmo um é sequência do outro. Podem ser lidos separadamente e em qualquer ordem. Particularmente recomendo que Cinzas na Neve seja lido primeiramente, pois assim a correlação entre as protagonistas de cada livro é feita e você acompanha com mais sensibilidade a apego O Sal das Lágrimas do que ao contrário.

Pensei nos inúmeros refugiados que percorriam a dura e longa trilha para a liberdade. Quantos milhões de pessoas teriam perdido a casa e a família durante a guerra?



A Alemanha invadiu a Rússia em 1941 e nos quatro anos seguintes, as duas nações cometeram inúmeros crimes e atrocidades contra os civis inocentes. Incontáveis refugiados se deslocavam pela região em busca de segurança e conhecidos.O Wilhelm Gustloff era um navio de 208 metros de comprimento e 56 de altura. Originalmente construído para cruzeiros de férias, com comodidades como piscina, salões de jantar, de música e de baile, cinema e biblioteca. Tudo foi arrancado para tentar acomodar o maior número possível de refugiados que seriam repatriados pela Alemanha. Por isso, acaba levando mais de 9 mil pessoas à bordo (aproximadamente a metade composta por crianças), sendo que ele deveria comportar pouco mais de mil. Infelizmente torpedos de um submarino russo atingiram-no, provocando o maior desastre marítimo da História e os sobreviventes formaram cerca de dez por cento do total.
Por isso, se inicia a leitura já sabendo do destino final do navio, mas fica aquela dúvida sobre o que acontecerá com cada uma das personagens. Queria saber se alguma delas sobreviveria, quem e como retomaria a vida; também precisava saber como seriam suas interações e, no caso dos que morreriam, como seriam seus últimos momentos. Então o que seria spoiler é na verdade o que mantém o fluxo da trama. Certamente é desafiador escrever sobre um fato em que já se conhece o desfecho e ainda assim manter o foco, a atenção de quem lê e o suspense. Mas a autora consegue!
O maior destaque para mim foram as personagens inesquecíveis.

"Hitler vinha exterminando milhões de judeus e tinha uma lista crescente de indesejáveis, que vinham sendo mortos ou aprisionados. Stalin estava destruindo a população da Polônia, da Ucrânia e do Báltico.
A brutalidade era chocante. Atos vergonhosos de desumanidade."


Embora a lituana Joana seja a protagonista central, o livro é narrado também por outras três: a polonesa Emilia, o prussiano Florian e o alemão Alfred. De origens e países diferentes, cada um possui um objetivo, mas todos se encontram nas portas de um navio alemão prestes a receber refugiados civis. Portanto, o livro traz narrativa em primeira pessoa alternada por quatro pessoas distintas, todas muito enriquecedoras e interessantes. Essa diferença engrandece o desenvolvimento do enredo, dando mais dinamismo e pluralidade, mostrando não apenas olhares que diferem no aspecto cultural, mas também de caráter e opinião. É uma escrita acessível e simples, que enlaça e conquista, e uma narrativa muito satisfatória e que apreciei bastante, certamente um dos pontos fortes do livro.
A jovem Joana, uma heroína cativante, sonha em estudar Medicina e já atua como ótima enfermeira. É uma pessoa muito solícita e aparentemente doce, mas que esconde um grande segredo e carrega uma culpa que a corrói. Quem já leu Cinzas na Neve basicamente sabe sobre o que ela se refere, mas ainda assim permanece aquela dúvida sobre algo a mais.
Já Florian, um anti-herói e para mim o mais fascinante, é um jovem prussiano envolvido em uma missão secreta curiosa e empolgante, carregando um tesouro, falsificando documentos e contando mentiras.
Emilia é uma adolescente quase adulta e de aparência frágil e inocente, mas carrega talvez algo mais pesado e complicado que todos, incluindo um histórico perturbador. É a personagem mais bem desenvolvida na trama, pois comecei com uma imagem dela na cabeça e terminei enxergando-a de forma muito distinta, e num sentido bastante positivo.
Já Alfred não é tão complexo como aparentava inicialmente. Mas é basicamente o vilão da trama, porque eu só consigo ver um nazista deste modo, como vilão. Ele é psicopata, mas não daquele tipo inteligente e clichê. E a maior ironia é que embora apoie cegamente a mensagem de pureza ariana hitlerista, ele, mesmo alemão, jamais se enquadraria como "bom e puro alemão". No fundo ele sabe disso e perpetua sua frustração.
Temos outras personagens em destaque, especialmente o Poeta dos Sapatos, um idoso sapateiro encantador e inteligente, e o Menino Errante, um órfão de aproximadamente 5 anos de idade que carrega um papel com um endereço e um coelho de pelúcia roto. O Poeta e o Menino me conquistaram de tal modo que eu sofria antecipadamente por eles, pois pensava em como personagens secundários sofrem em histórias de desastres. Outras duas mulheres também integram o elenco suplementar, uma bastante direta e a outra uma cega corajosa.

"Essa era outra coisa que a guerra também não podia tirar de mim. Os nazistas não podiam impedir o vento e a neve. Os russos não podiam roubar o sol nem as estrelas."


A autora possui mais dois livros inéditos no Brasil, ambos de ficção históricaOut of the Easy, de 2013, que se passa no sul dos Estados Unidos durante a década de 1950, e The Fountains of Silence, ainda inédito em inglês, com previsão de lançamento para outubro de 2019. A trama se passa na Espanha durante a ditadura franquista e, caso seja publicado no Brasil, não perderei esta obra por nada! Torço na verdade pela publicação das duas pela Arqueiro.
Amei Cinzas na Neve e com O Sal das Lágrimas concluí que gosto muito do estilo de Ruta Sepetys. Ela mantém uma sensibilidade incrível e respeitosa sobre momentos historicamente importantes e particularmente muito dolorosos. Ela realmente considera o sofrimento e batalha das pessoas que vivenciaram as situações que apresenta em seus livros. Venero o trabalho de autores que fazem isso, que transformam fatos reais e momentos históricos marcantes em tramas inesquecíveis, para que qualquer pessoa possa conhecer ao menos um pouco do que tantas outras enfrentaram e sentiram, tentando manter boa parte da veracidade, e ainda assim trazer uma obra envolvente e leve. Principalmente períodos sombrios e complexos, sem deixar morrer a luta e a resistência de tantos sobreviventes. É dramático, interessante, romântico, belo e suave, não é uma ficção histórica difícil de acompanhar. Um livro adulto mas simples totalmente avassalador!
A edição possui ótima revisão e tradução de Vera Ribeiro; o exemplar físico possui orelhas, páginas amareladas e boa diagramação.


Agradecimento às corujas da Praia do Forte de Cabo Frio e a um labrador pela participação nas fotos.
"Um romance superlativo, escrito com maestria. Um poderoso trabalho de ficção histórica." – The Wall Street Journal.

"Brutal. Lindo. Genuíno." – Sabaa Tahir, autora de Uma Tocha na Escuridão.

"Um romance arrebatador. A autora mescla a história mundial com a história de seus antepassados, estabelecendo personagens cheios de nuances. Detalhes vívidos pontuam a prosa enxuta." – The Washington Post.

"Ruta age como uma defensora do povo refugiado tão frequentemente ignorado – populações inteiras perdidas nas fendas da história." – The New York Times.


A Arqueiro publicou também Neve nas Cinzas, que já foi resenhado. Confira!



A autora:
Nascida e criada em Michigan, nos Estados Unidos, é filha de um lituano refugiado. Em Cinzas na Neve, vencedor do prêmio Golden Kite e adaptado para o cinema em 2018, Ruta pôde dar voz às centenas de milhares de pessoas que, de alguma forma, foram atingidas pelo genocídio perpetrado por Stalin contra os povos bálticos.
Suas ficções históricas já foram publicadas em mais de 60 países. O Sal das Lágrimas, também publicado pela Editora Arqueiro, teve os direitos cinematográficos adquiridos pela Universal Pictures, venceu o Goodreads Choice Awards e recebeu a Carnegie Medal em Literatura.
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Dicas de leitura para quem se interessou ou gostou de O Sal das Lágrimas (clique no título para saber mais):


A Menina que Roubava Livros (Markus Zusak, Intrínseca); Uma Constelação de Fenômenos Vitais (Anthony Marra, Intrínseca)O Rouxinol (Kristin Hannah, Arqueiro); Somos os que Tiveram Sorte (Georgia Hunter, Record)A Chave de Sarah (Tatiana de Rosnay, Suma)Fique onde Está e então Corra (John Boyne, Seguinte); O Diário de Anne Frank (Anne Frank, Record); A Garota do Casaco Azul (Monica Hesse, Rocco Jovens Leitores)Um Amor Perdido (Alyson Richman, Bertrand Brasil).

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