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Resenha: Valentes, de Duda Porto Souza, Aryane Cararo e Seguinte (Grupo Companhia das Letras)

Valentes: Histórias de Pessoas Refugiadas no Brasil
Duda Porto Souza e Aryane Cararo - Editora Seguinte (Grupo Companhia das Letras)
Ilustrações: Rafaela Villela
296 páginas - R$ 79,90 (impresso) e R$ 39,90 (e-book)
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Sinopse:
"Das mesmas autoras de Extraordinárias, Valentes é uma obra de referência sobre o tema do refúgio no Brasil.
A questão dos refugiados tem ganhado holofotes pelo mundo inteiro, mas o preconceito, a xenofobia, as fake news e o medo frequentemente atrapalham a discussão. Para auxiliar na compreensão desse tema tão complexo e combater a desinformação, as jornalistas Aryane Cararo e Duda Porto de Souza reuniram histórias de vida emocionantes, de pessoas de mais de quinze nacionalidades, que vieram para o nosso país pelos mais variados motivos ― desde dificuldades financeiras até perseguição baseada em raça, religião, nacionalidade, orientação sexual, identidade de gênero ou opinião política ―, todas em busca de um lugar onde pudessem de fato viver.
Com uma linguagem acessível, a obra também traça um panorama histórico do refúgio no Brasil e no mundo, apresentando conceitos e dados, e traz infográficos sobre os principais conflitos que geraram esses fluxos migratórios. O resultado é um material humano e sensível, que dá voz a quem precisa ser ouvido e celebra as diferenças que tornam nossa nação tão plural."

“A ampla pesquisa e os recortes históricos de Valentes tornam a obra uma referência de informação da causa que nos une: a humanitária.” ― Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Resenha:
Em novembro de 2017 as jornalistas Aryane Cararo e Duda Porto de Souza publicaram pela Editora Seguinte, o selo jovem do Grupo Companhia das Letras, um projeto inédito no país, que alavancou uma série de lançamentos semelhantes nos meses seguintes: Extraordinárias: Mulheres Revolucionárias do Brasil. Com um time de ilustradoras brilhantes, a obra mostra como quarenta brasileiras mais quatro "abrasileiradas" participaram ativamente na construção do Brasil, em educação, arte, direitos humanos, indígenas e trabalhistas, justiça, política, medicina, urbanismo, meio ambiente, igualdade de gênero, esporte. Extraordinárias se tornou um tesouro para mim, tanto que ao saber que a dupla publicaria mais um livro pela Seguinte, também de não ficção, dnão hesitei em colocá-lo na minha lista de desejos antes mesmo do lançamento.
Publicado em agosto de 2020, a Companhia das Letras me enviou um exemplar para resenha no blog e, assim como Extraordinárias, Valentes: Histórias de Pessoas Refugiadas no Brasil, o livro físico está lindíssimo! O formato é grande (20 por 25 centímetros) e capa, quarta capa e orelhas são em papel brilhoso com efeito metalizado em um dourado muito bonito, e ilustrações foscas. Esta edição conta ainda com o marcador de páginas destacável na orelha, páginas brancas e as ilustrações muito ricas e coloridas.
A diagramação e o projeto gráfico são fantásticos, pois são muitos mapas, esquemas, infográficos, citações, tabelas e complementos. Tudo claro, organizado, didático e colorido, transformando o livro em uma ferramenta poderosa e muito atraente para se aprofundar no tema. A equipe de revisão, preparação, pesquisa e consultoria realizou um trabalho perfeito. As ilustrações e letreiramento são de Rafaela Villela, que realizou um trabalho primoroso e caprichado.


O público-alvo pode até ser o juvenil, mas é uma leitura recomendada a todos. Assim como Extraordinárias, Valentes deveria estar em todas as bibliotecas do Brasil. Como material educativo, pode ser adotado por escolas como livro paradidático, porém qualquer pessoa interessada no tema, mesmo as mais leigas no assunto, vão apreciar e usufruir de uma leitura interessante, esclarecedora e, principalmente, que derruba mitos e falsas informações que acabam circulando sobre os refugiados. O conteúdo é espetacular, com esclarecimentos e biografias essenciais para que seja possível compreender melhor o que é ser migrante, apátrida e refugiado e o mais importante: como podemos melhorar a situação dessas pessoas, incluindo-as na sociedade.
São vinte relatos verídicos e atuais sobre pessoas estrangeiras que se tornaram refugiadas e vieram ao Brasil. De diferentes países, faixas etárias e gêneros (incluindo LGBTQI+), elas têm em comum o sonho do recomeço e de oportunidades de vida. Que não deveria ser um sonho, e sim um direito.
Para a compreensão máxima de cada história, foi necessário contextualizar cada uma. Pois estas pessoas abandonaram muitas coisas, como posses, lares, amigos, parentes, carreiras. Mais que histórias pessoais, existem fatos externos e intransponíveis, as causas que fizeram tantas pessoas abandonarem tudo. Cada relato é precedido por um resumo excelente e instrutivo sobre a História do país de origem e região. Não é um texto completo, pois seria impossível e desnecessário, porém são informações e dados confiáveis, necessários e primordiais para que a leitura possa ser uma experiência completa e ainda mais rica. Primeiramente, um texto explicativo sobre os problemas e/ou conflitos do país, mas prepare-se, pois em seguida, vem a emoção.


As histórias de cada pessoa refugiada é contada em formato de reportagem, de documentário, em terceira pessoa e com várias falas e citações dos biografados, além de uma ilustração de cada uma. Alguns dados foram evitados para protegê-las, mas a maior parte dos acontecimentos que fizeram com que saíssem de seus países é contada. São histórias muito tristes, até mesmo desesperadoras e, embora as autoras mantenham a relevância dos acontecimentos, elas não fixam gratuitamente nas dores. Claro, situações violentas, ruins e com risco de vida são apresentadas, mas nada de exploração ou dramatização. Elas evitam expor desnecessariamente a dor e os traumas, contando somente o necessário para que se compreenda os motivos de cada uma ter vindo ao Brasil. Mostram também como foram as primeiras impressões acerca dos brasileiros e da nação, as estranhezas e dificuldades na adaptação e na aceitação por parte da sociedade brasileira. Mas também existem casos de bom recebimento, ajuda, apoio e calor humano, o que emociona e traz reflexão sobre como deve ser a solidão, as dúvidas e o medo de ser refugiado. A melhor parte dos relatos é certamente encontrar vitória, felicidade e sucesso em histórias de vidas tão emocionantes. Fiz algumas pausas durante a leitura para tentar imaginar como deve ser ver a sua vida desmoronar drasticamente e se tornar refugiado e, até mesmo apátrida; como deve ser ter que abandonar tudo e todos, muitas vezes já presenciando mortes, violência, desastres e perdas, e fugir e pedir refúgio a um país desconhecido; sem ter dinheiro ou bens e, até mesmo, documentação; e desejar apenas ter um local para se viver, trabalhar e continuar seus planos e sonhos. Se a mudança para outro país, até mesmo estado ou cidade, já é difícil, mesmo com tudo planejado, imagine ir assim, sem escolha, sem alternativa, sem nada?
Os relatos são organizados por continente e país: Ásia (Vietnã, Síria, Palestina e Afeganistão), África (Marrocos, República Democrática do Congo, Angola, Mali e Moçambique), Europa (ex-Iuguslávia) e América Latina (Venezuela, Bolívia, Colômbia, Paraguai, Haiti e Cuba).



O livro traz o histórico do refúgio no Brasil, destacando os mais de vinte anos da Lei de Refúgio, e entidades e eventos que teceram a forma como acolhemos e recebemos os estrangeiros refugiados. Aponta as dificuldades universais, como a validação de diplomas e o aprendizado do português do Brasil, e debate e explica muitos recortes como a diferença entre bullying e xenofobia, e empecilhos específicos da população LGBTQI+ e o racismo e o machismo encontrados. Além da busca por seu lugar em um novo país e cultura, refugiados e refugiadas encontram preconceitos dolorosos.
Mais que informar, comover e destacar o assunto, a obra traz soluções e inspirações para todos. Com soluções duradouras de refúgio e inúmeros dados e exemplos, é possível, através do aumento da propagação da informação e da diminuição da de fake news, acolher e fazer com que as pessoas refugiadas sejam mais incorporadas à sociedade brasileira. Não é verdade, por exemplo, que "o Brasil tem recebido refugiados demais" (o Brasil possui apenas 0,04 % de refugiados), que "os refugiados roubam o trabalho dos brasileiros" (a taxa de desemprego entre refugiados é bem maior que a da população em geral. A maioria atua em subempregos ou na informalidade. Há casos de exploração e regime de semi-escravidão) ou que "os refugiados não se esforçam para falar português" (92 % dos refugiados em 2019 falavam português).
O livro é completo, compreensível e esclarecedor, e possui estrutura organizada, com sumário, introduções sobre o tema e o refúgio no Brasil, as vinte histórias com (todas com o texto "entenda a crise"), falas inspiradoras, glossário, referência extensa e informações sobre como apoiar refugiados. 
A informação e o conhecimento são essenciais para fortalecer a empatia e levar a realidade e a verdade a um número cada vez maior de pessoas. Especialmente no atual momento do Brasil, onde mentiras, intolerância e preconceito têm aumentado. Por isso, Valentes: Histórias de Pessoas Refugiadas no Brasil é mais que um livro; é um instrumento para se tentar fazer do Brasil um país melhor para se viver, para todas as pessoas, sejam brasileiras, estrangeiras ou refugiadas, sem distinção. Leia um trecho do livro aqui, vale a pena!






Leitura recomendada: Longe de Casa, Minha Jornada e Histórias de Refugiadas pelo Mundo, de Malala Yousafzai e Seguinte (leia a resenha)




Contribua!
Dica do livro para contribuir com o trabalho de organizações que proporcionam novas oportunidades para pessoas refugiadas no Brasil:

As autoras:


Duda Porto de Souza é responsável pela criação da primeira Biblioteca Multilíngue Infantil pública do Brasil, localizada em São Paulo. Jornalista, já colaborou com diversas publicações do segmento infantil. Já participou do desenvolvimento de exposições de grande público, além de atuar como consultora na criação da primeira galeria de arte de Manaus. É professora-convidada do curso de Artes Visuais do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo.

Aryane Cararo é jornalista há vinte anos, com foco no universo materno e infantil, especialmente em literatura infantojuvenil. Trabalhou como editora-chefe da revista Crescer e foi editora do suplemento infantil Estadinho, além de ter colaborado com jornais e revistas diversos. Tem pós-graduação em jornalismo literário pela ABJL e mestrado em estética e história da arte pelo MAC-USP.

A ilustradora:
Rafaela Villela nasceu em são Pauloa e já viveu na Suiça e no México. formada em design gráfico pelo Centro Universitário Belas Artes de são Paulo, trabalha como ilustradora freelancer e quadrinista. É autora dos livros independentes Mertini e A Vida e Outras ansiedades, lançados na CCXP em 2018 e 2019, respectivamente.
Aprecie o trabalho da Rafaela no Instagram @rafavillela.art.

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