[Resenha] A Intérprete de Annette Hess e Editora Arqueiro

A Intérprete (Deutsches Haus)
Annette Hess - Arqueiro
Tradução: Ivo Korytowski
272 páginas - R$ 44,90 (impresso) e R$ 27,99 (ebook)
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Sinopse:
"Tendo como pano de fundo os julgamentos de Auschwitz, este sucesso internacional de Annette Hess conta uma história arrebatadora sobre uma jovem disposta a enfrentar a família e a sociedade para expor as verdades mais sombrias de sua nação.
Para Eva Bruhns, a Segunda Guerra Mundial é apenas uma memória nebulosa da infância. Ao fim dos conflitos, Frankfurt estava arruinada, vítima dos bombardeios dos Aliados.
Agora, em 1963, a cidade está totalmente reconstruída e Eva espera, ansiosa, pelo pedido de casamento do namorado rico, sonhando com uma vida longe dos pais e da irmã.
Porém, seus planos são alterados quando o impetuoso advogado David Miller a convoca para atuar como intérprete nos julgamentos do campo de concentração de Auschwitz.
À medida que se envolve com as testemunhas polonesas, Eva começa a questionar seu futuro e o silêncio da família sobre a guerra. Por que os pais se recusam a falar sobre o que aconteceu? Ela ama mesmo o namorado e será feliz como uma dona de casa?
Determinada a fazer justiça, Eva se une a um time de promotores empenhado em condenar os nazistas – uma decisão que mudará o presente e o passado de seu país."

Resenha:
A Intérprete é o primeiro romance da alemã dramaturga e roteirista Annette Hess, uma mistura de romance histórico com drama passado em 1963. A protagonista é uma jovem tradutora de vinte e poucos anos que atua como intérprete nos julgamentos de Auschwitz e tem sua vida impactada profundamente. Enquanto traduz documentos e depoimentos de poloneses que testemunham contra alguns dos principais acusados pelo Holocausto, Eva Bruhns percebe que nunca mais será a mesma e que o passado a assombrará para sempre. Ela confronta a nação, a família e a si mesma quando descobre quantos crimes e atrocidades foram cometidos durante a Segunda Guerra Mundial. Uma história sobre amadurecimento e busca por independência e justiça. Um soco no estômago sobre como não fazer nada pode ser tão prejudicial quanto fazer coisas nocivas. Quem finge não ver ou saber é também culpado ou cúmplice de crimes horrendos? Os alemães que cruzaram os braços e ficaram quietos durante o Holocausto são tão culpados quanto os oficiais nazistas que assassinaram? E os que estavam "apenas" seguindo ordens, quais suas responsabilidades nas mais de 6 milhões de mortes? Este é o tema de A Intérprete, publicado em 21 países — lançado no Brasil pela Editora Arqueiro (e cedido ao blog para esta resenha) com tradução de Ivo Korytowski, excelente revisão e exemplar em páginas amareladas.


Eva mora em Frankfurt com os pais, donos de um restaurante tipicamente alemão, a irmã, enfermeira em uma maternidade, o irmão, uma criança que adora brincar com seus bonecos de soldadinhos, e o cachorro da família, um dachshund idoso. Agora, em 1963, a Alemanha foi reconstruída após a derrota na Segunda Guerra Mundial e, para Eva, assim como para a maioria dos cidadãos alemães, estas são memórias que devem permanecer no passado. Ela namora Jürgen, herdeiro de uma grande empresa de venda de itens para o lar, e aguarda ansiosamente pelo pedido de casamento do amado, mesmo sob algumas dúvidas. Eva mal pode esperar para sair de casa, mudar de vida e atuar como dona de casa, embora ela e o futuro noivo possuam divergências em opiniões e gostos pessoais.
No momento, além de ajudar no restaurante dos pais, trabalha em um escritório de tradução e, por acaso do destino, acaba sendo contratada emergencialmente para fazer uma rápida tradução do polonês para o alemão. Ela nem imaginava a importância do pequeno e confuso serviço que acabava de realizar e recebe o convite para ser a intérprete e tradutora oficial de polonês / alemão nos ilustres julgamentos de Auschwitz.
À princípio, Eva sente que os julgamentos são importantes, embora não saiba exatamente o quanto e nem imagine o impacto cultural que causarão em seu país e em todo o mundo. Mas logo sente estranheza no comportamento dos pais e da irmã, pois estes simplesmente ignoram a relevância de seu novo trabalho e as notícias sobre o caso. Jürgen vai além ao demonstrar insatisfação total com a noiva, visto que ele deseja uma esposa submissa, recatada e caseira.
Paralelamente, a maioria dos colegas no Ministério Público e envolvidos nos julgamentos aparenta não confiar na capacidade de Eva para o cargo, especialmente os homens.


Apenas como obstáculos iniciais, Eva precisa vencer sua própria insegurança, porque ela sente nervoso com a tamanha responsabilidade que parece estar por vir. Ela não se sente à altura do desafio e tem receio de errar nas traduções e interpretações. Em segundo lugar, apesar de Eva não saber ainda os verdadeiros motivos, a família e o namorado não a apoiam. Simplesmente desdenham do serviço e dos julgamentos e todos preferem que ela abandone o trabalho e se dedique ao provável casamento. O namorado, então, é muito machista, mas não é o único: parece que quase todos nos julgamentos o são, porque duvidam da capacidade de Eva, jovem e mulher, contratada apenas por ser a última alternativa.
Assim sendo, esta é uma trama sobre desenvolvimento e amadurecimento pessoal, independência feminina e consolidação da autoestima. Eva precisa confiar em si mesma, assumir as responsabilidades do cargo e mostrar o quanto é capaz, se impondo sobre a família, namorado e todos os homens ao redor, ganhando o respeito merecido.
Mas então a temática dos julgamentos também pesa na trama. Ao descobrir e refletir obre o genocídio cometido pelo Nazismo, Eva questiona o comportamento e atitudes de toda a nação, até chegar a um ponto muito doloroso: a ligação de seus pais ao Holocausto.
Tudo parece errado: os pais, a irmã, o noivo, o país, a justiça e a própria Eva. Como absorver e entender erros e crimes tão sinistros e gigantescos? Será que ela vai aguentar conhecer os detalhes dos julgamentos de Auschwitz? E quando perceber que está muito mais ligada a eles que imaginara? O que se pode fazer para remediar crimes históricos?


A narrativa ocorre em terceira pessoa e, embora foque quase que completamente na protagonista, temos acesso a acontecimentos ligados a outras personagens. A trama começa lenta e talvez seja demorado para algumas pessoas perceberem que o ponto principal não são os julgamentos, mas sim a própria Eva e sua interpretação dos fatos, representando um indivíduo entre tantos outros alemães da época. A partir da metade o livro se tornou muito interessante e a última terça parte fez toda a evolução do enredo valer a pena, embora eu tenha divergido quanto a gostar ou não de certos desenvolvimentos. Por exemplo, adorei a conscientização e amadurecimento de Eva e a forma como começou a lutar pelas coisas que achava corretas. A protagonista busca por independência e é o grande destaque. Ela muda bastante e não é uma heroína perfeita e sim uma pessoal crível. Já os rumos de algumas personagens não me agradaram, especialmente o da irmã de Eva e o de David Miller, colega de Eva nos julgamentos.
O que menos gostei no livro foi Jürgen. Ele é machista, tóxico, perturbado e egoísta. Torci a todo momento para Eva terminar o relacionamento e esquecê-lo. Atuar como intérprete nos julgamentos expande a visão de Eva sobre o mundo e a vida, portanto seria natural e óbvio ela se livrar de um futuro casamento nocivo.


Lutando contra o machismo, criando confiança em si mesma e descobrindo os horrores cometidos por seu país na Segunda Guerra, Eva ruma a um caminho sem volta. Como ser humano, jamais será a mesma — uma jovem alemã de classe média, inocente e despreocupada. Eva descobre muitas coisas, tem acesso a informações oficiais e irrefutáveis e depoimentos impactantes. Por isso muda de uma cidadã ignorante e se torna uma pessoa consciente, informada e até mesmo engajada e emocionalmente ligada ao acontecimento.
Um livro que traz os julgamentos de Auschwitz e o Holocausto e suas consequências como pano de fundo, mas que destaca a mudança em um indivíduo e a necessidade de toda uma sociedade assumir suas responsabilidades e erros. Muito mais que uma trama sobre julgamentos e fatos históricos, é sobre o impacto deles na personalidade e vida da protagonista. Sobre como acontecimentos e decisões de uma sociedade influenciam e mudam todas as vidas, atuando em cada pessoa, mesmo quando se tenta ignorar a História e o mundo ao redor. Você pode se empenhar em ignorar fatos importantes, por achar que não estão diretamente ligados à sua vida, e achar que não tem responsabilidade só porque se omite, mas serão apenas tentativas e fingimento. Você é parte da sociedade, queira ou não, e é responsável pelo andamento da História.
É também uma reflexão sobre como somente as vítimas verdadeiramente sentem o ocorrido; por mais que se tente colocar no lugar do outro, deve-se sempre respeitar o lugar de fala e o destaque de quem sofreu. Por mais que Eva busque compreender e sinta empatia (e isso é importante sim), ela não é a vítima. Ela, assim como todos que não sofreram o Holocausto na pele, nunca saberá como foi o mesmo.
Um livro sobre conscientização, amadurecimento e comprometimento.

A autora:
Annette Hess nasceu em Hanover e inicialmente estudou pintura e design de interiores, especializando-se mais tarde em dramaturgia. Atuou como jornalista e assistente e, desde 1998, trabalha exclusivamente como roteirista, tornando-se famosa por suas séries de televisão. Recebeu inúmeras premiações, incluindo o Prêmio Grimme, o Prêmio de Autores de Frankfurt e o Prêmio da Televisão Alemã. A intérprete é seu primeiro romance, que já foi vendido para 21 países.
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Um comentário

  1. Oi Tati, tenho algo que não me deixa ler livros com tema relacionado a guerras, principalmente segunda guerra mundial.
    Curti sua resenha, mas não leria este livro, mas quem sabe no futuro né.

    Beijos Mila

    Daily of Books Mila

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