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16 de dezembro de 2011

O Planeta dos Macacos, Pierre Boulle, Agir

O Planeta dos Macacos (Le Planète de Singes)
Pierre Boulle - Pocket Ouro/Editora Agir - Coleção Grandes Filmes
206 páginas - Ano: 2008 (escrito em 1963)
Tradutor: André Telles

Sinopse:
"No ano de 2500, o professor Antelle, o físico Arthur Levain e o jornalista Ulysse Mérou deixam a Terra. Eles embarcam numa nave cósmica, em direção ao extraordinário sol vermelho Betelgeuse, na constelação de Órion. O destino encontra-se a 300 anos-luz da Terra e até atingi-lo passam-se, em nosso planeta, cerca de três séculos e meio, enquanto os viajantes, devido à dilatação do tempo, têm a sensação de passarem-se apenas dois anos.
Finalmente, eles se surpreendem ao aterrissar em um planeta com cidades, casas, florestas…
Um planeta igual à Terra? Quase. Existe uma diferença: aqui, os macacos reinam e os homens vivem em estado selvagem, quando não estão enjaulados e escravizados. O que terá acontecido com a espécie humana?"
Skoob

Box com os 5 filmes antigos
+ o de 2001
Sobre a franquia:
Conheço a série de filmes antiga pois meu pai era fã. Também adoro os filmes mais recentes. Posso até ousar e me intitular fã também. Foi difícil conseguir comprar este livro e com sorte comprei numa livraria online por apenas R$17,00. Uma edição novinha recém saída da gráfica.
DVD do novo filme, de 2011
A versão original e verdadeira é esse livro publicado em 1963. O primeiro filme da série antiga (O Planeta dos Macacos, 1968) foi baseado nele. Com grandes diferenças, claro, como quase toda adaptação para o cinema.
O segundo (De Volta Ao Planeta dos Macacos, 1970), terceiro (Fuga do Planeta dos Macacos, 1971), quarto (A Conquista do Planeta dos Macacos, 1972) e quinto (Batalha Pelo Planeta dos Macacos, 1973) filmes da série antiga tiveram o roteiro do próprio Pierre Boulle.
Trinta e três anos após seu lançamento, o primeiro filme ganhou um remake (Planeta dos Macacos) e em 2011 a franquia ganhou um novo filme (Planeta dos Macacos: A Origem).
O autor faleceu em 1994 e não pode ver a série nova.

[Atualização 20/07/2014.] Estreia nos cinemas a continuação de Planeta dos Macacos: A Origem e seu título é Planeta dos Macacos: O Confronto.



[Fim da atualização.]

Resenha:
Não sei como resenhar um livro tão genial. Um clássico da Ficção Científica literária que deveria ser tão famoso quanto os filmes. Narrativa empolgante e muito bem escrita, com detalhes.
O ponto de partida: um casal encontra um manuscrito perdido no espaço e começa a lê-lo. A narrativa passa a ser em primeira pessoa e isso a faz ser bastante eficiente. As surpresas e situações vividas pelo protagonista são tão nossas quanto dele, devido à perfeição do autor em nos cativar e projetar as cenas. Um romance narrado de forma extremamente habilidosa.

Boulle não se preocupa em explicar o funcionamento exato das espaçonaves, das viagens interplanetárias, nem dos aparatos científicos no geral. Ele se foca na área antropológica. Ele critica a sociedade do século XX e essas críticas permanecem até hoje.
A versão cinematográfica de 1968.
Um livro atemporal. Mesmo sendo de 1963, ele é totalmente atual. O autor utiliza de um exagero fantasioso para criticar a sociedade humana em diversos sentidos. Nesta resenha aproveito para demonstrar as críticas que eu percebi e também pontos de reflexão que me consumiram durante a leitura. Outros leitores, concordando ou não comigo, com certeza também terão suas próprias conclusões. Afinal, este é um livro prazeroso, mas escrito para nos fazer pensar, e muito.

A forma como o homem em geral trata os animais e age como o dono do planeta Terra e de tudo que nele existe. Boulle joga os humanos no papel de animais, e escolheu os macacos para nos substituírem. A história choca, imagino como deve ter chocado os leitores de 1963. Agora o efeito não é exatamente o mesmo, pois a maioria das pessoas já assistiu a pelo menos um dos filmes, ou no mínimo conhece a história.
Poderiam ser cães, gatos, porcos, jacarés, formigas... a crítica seria a mesma. Talvez se ele tivesse escolhido animais que geralmente são consumidos como alimento pelos humanos, o choque fosse maior, pois mostraria o homem vendido em açougue e consumido como hambúrgueres. Mas a escolha pelos macacos é óbvia, os primatas se assemelham a nós em diversos aspectos e são muito utilizados em testes de vários tipos.

Outra crítica que percebi está na nossa humanização. No livro presenciamos duas situações diferentes dos humanos que estão no planeta dos macacos: um deles resiste aos instintos e luta para ser reconhecido como ser lógico e pensante; o outro sofre um curioso processo de desumanização. Refletimos se é correto utilizarmos a palavra humanização no sentido de ser civilizado.
Será que somos realmente civilizados? O que nos difere dos animais? O raciocínio, a linguagem? Conseguimos lidar com nossos instintos e emoções? Ainda somos animais? E os animais, são mesmo nossa propriedade? Até onde nossa inteligência nos faz céticos e cruéis?

Ulysse, que apesar de estar numa viagem pelo espaço junto com outros dois cientistas, é na verdade jornalista. É ele quem conta a história, é através dele que conhecemos o planeta dos macacos (Soror) e sentimos na pele como é ser um humano nesse mundo.

1973: o quinto filme, Batalha Pelo Planeta dos Macacos
O protagonista sente-se perdido, curioso, chocado e assustado nesse mundo estranho, não apenas pelo fato dos primatas dominarem a mais alta posição na sociedade, e serem tão inteligentes, hábeis e evoluídos. O que mais aterroriza o visitante é perceber que os humanos de Soror não falam, e não esboçam possuir nenhum tipo de comunicação inteligente nem sombra de raciocínio. Os humanos são animais.
Notamos esse conflito do observador em diversos trechos do livro. Uma situação que mais contribuiu para notar esse choque vivido por ele é sua relação com a chipanzé Zira e com a mulher Nova.

Zira, tão esperta e inteligente, trabalha no laboratório e é muito civilizada e bem vestida, ao ponto de confundir Ulysse, o protagonista. Apesar da aparência grotesca, ela possui um brilho sagaz no olhar, que o homem define numa palavra improvável: humanidade.
Nova, a mulher linda e de corpo e traços perfeitos não passa de um ser irracional, com comportamento bestial e selvagem. Mesmo parecendo ser menos idiota do que os humanos restantes, ainda assim não é capaz de compreender nada. Ulysse se sente cada vez mais intrigado com isso, ao comparar o olhar de Nova ao da Zira e ter apenas uma palavra para defini-lo: animalesco.
Ele sente atração por ambas, tanto pela chipanzé que estuda os humanos quanto pela humana com quem divide a sua cela.

Os testes em animais. Testes em laboratório, tão comuns na indústria farmacêutica, de cosméticos, de produtos de higiene, na medicina. Os primatas de Soror fazem tudo isso com os humanos, dissecam seus cérebros, observam seu comportamento em cativeiro, testam medicamentos e vacinas, os enviam ao espaço em satélites. Cobaias - pois os humanos não possuem alma nem raciocínio. Alguns primatas sentem nojo deles, simples bichos. Parece horrível. Mas é exatamente isso que os homens fazem com os animais!

Mais um ponto a ser questionado: a origem dos humanos, a origem da vida. A evolução, nossas ligações com os animais. A vida em outros planetas, estaremos sozinhos?
Os próprios primatas de Soror buscam por essas mesmas questões, e os acompanhamos seguindo os cientistas símios. Eles procuram conhecer sua origem e o porquê das diferenças de raças. Exatamente como nós fazemos.
No planeta Soror os primatas estão divididos em três clãs e categorias: a dos chipanzés, a dos gorilas e a dos orangotangos - outra tacada fantástica do autor. Cada grupo possui suas características e propósitos. Mesmo tendo sido decretada a paz e igualdade entre eles, disparidades ainda existem.

O remake feito em 2001.
O final nos surpreende duas vezes. Se não bastasse uma cena chocante, o autor nos joga em outra surpresa. Porém considero a modificação desse final realizada no filme de 1968 melhor e mais marcante, tanto que tornou-se uma das cenas clássicas da Ficção Científica cinematográfica.

As principais diferenças que notei entre o livro e o filme: a sociedade dos macacos é mais avançada no livro, enquanto no filme é mais arcaica (mas o autor nos mostra por um breve instante como era a sociedade passada de Soror. A mudança foi feita no filme porque os orçamentos foram baixos em 1968 e isso foi mantido em 2001 por ser um remake); os humanos no livro andam completamente nus (mudança feita no filme por motivos óbvios); os macacos do filme são mais cruéis que os do livro (para chocar ainda mais).

Recomendo este livro perfeito a todos. Os fãs dos filmes e de Ficção Científica em geral tem obrigação em ler o livro.

Trechos:

"-Reconheço que estes testes são excessivamente chocantes para quem não está acostumado. Mas pense que, graças a eles, nossa medicina e nossa cirurgia realizaram progressos imensos de um quarto de século para cá.
Esse argumento não me comovia em nada, assim como tampouco a lembrança que eu tinha do mesmo tratamento aplicado a chipanzés num laboratório terrestre."
"Fui tomado por um terror mortal quando vi a tropa avançar. Após ter sido testemunha de sua crueldade, julgava que iriam promover um massacre generalizado.Os caçadores, todos gorilas, caminhavam na frente."
 "Alguns homens, mais franzinos, não participavam do tumulto. Mantinham-se a distância, perto das grades, e, quando viam um macaquinho enfiar os dedos num saco, estendiam-lhe mãos em súplica."
"Penso muito em Nova. ... nunca mais  entrei em sua jaula; o respeito humano me refreou. Ela não é um animal?"
O filme da franquia que conta a origem de tudo, 2011.

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