A Batalha dos Deuses, vários autores, Novo Século

A Batalha dos Deuses
Juliano Sasseron, Sid Castro, Sérgio Pereira Couto, Felipe Santos, Estevan Lutz, Simone O. Marques, Fernando Henrique de Oliveira, Albarus Andreos e Márson Alquati.
Editora Novo Século - R$29,90
176 páginas - Ano: 2011
Organização e apresentação: Juliano Sasseron
Capa: Carlos Eduardo Gomes

Sinopse:
"A humanidade criou os deuses à sua imagem e semelhança. Ou seria o contrário?
Ao longo de milhares de anos, diversos panteões disputaram corações e mentes dos mortais, numa batalha que ainda não terminou, culminando no advento da ciência, esta que é, para muitos, o novo deus único. Mas qual seria o destino de tantos deuses e deusas quando seus crentes e adeptos perdem a fé? Desapareceriam num limbo de deuses perdidos, perderiam a imortalidade ou simplesmente sumiriam, como se nunca tivessem existido? Jesus, Maomé e Krishna confabulam entre si, observando homens que tentam se igualar aos deuses. Thor brande seu martelo nas tempestades, orientando os últimos vikings e valquírias em mundos perdidos na névoa. Os destinos do mundo são escritos pelos deuses maias nas páginas de um livro sagrado. A chegada do Deus Único expulsa os deuses antigos, celtas, romanos, egípcios e tupis, num confl ito que prossegue até hoje e além. Juliano Sasseron reuniu autores reconhecidos da fi cção especulativa, dando a eles o destino dos deuses de um panteão com o surgimento de uma nova fé ou ordem."

Novo Século | Skoob

Conto a conto:
  • Ragnarök - Sid Castro;
  • O Carvalho e o Visco - Simone O. Marques;
  • Nhanderuvuçu - Felipe Santos;
  • Pontifex Maximus - Fernando Henrique de Oliveira;
  • Popol Vuh - Sérgio Pereira Couto;
  • A Menina que Olhava- Albarus Andreos;
  • A Última Ceia de Mitra - Estevan Lutz;
  • O Legado Anunnaki, um breve relato da história da Terra - Márson Alquati;
  • Consciência Quântica - Juliano Sasseron.


Resenha:
Esta é a primeira antologia publicada pela Editora Novo Século e chegou até minhas mãos graças a cortesia do meu Escritor Amigo Estevan Lutz (autor do Cyberpunk O Voo de Icarus), que possui o conto A Última Ceia de Mitra que unido a outros oito escritores, construíram A Batalha dos Deuses.

A capa fosca do livro possui detalhes de brilho nas letras e uma imagem no fundo que combina exatamente com a ideia central: deuses interligados às vidas dos humanos. Todo conto possui uma mini biografia sobre o autor e charmosas páginas pretas, intercalando-os. As orelhas do livro são bem grandes e elegantes, com as informações básicas sobre os contos.

Diversos pontos de vista podem surgir durante a leitura do livro. Algumas pessoas poderão acusar alguns contos de serem anticristãos ou ateus. Outras dirão que o que intitulamos hoje como mitologia nunca foi religião verdadeira.
Logo no nas primeiras páginas, durante a apresentação escrita pelo organizador Juliano Sasseron nos deparamos com um resumo de como as civilizações mudam, e seus deuses mudam com elas. Em como detalhes de uma religião antiga são reciclados numa nova e em como existe a necessidade do ser humano em buscar deuses e explicações sobre a vida.
Como ele avisa no prefácio: "A proposta aqui é o entretenimento do leitor. Assim, muitas vezes optamos por 'licenças poéticas' e preferimos usar o mito em vez da realidade."


Penso que em primeiro lugar realmente vem o entretenimento e em segundo a criatividade e a originalidade. Por que não misturar o fantástico ao real? Por que não aceitar que religião e mitologia para serem classificadas como uma ou outra dependem exclusivamente da crença do indivíduo?
Apesar de ser ficção para divertir, percebemos que cada autor realizou pesquisas mitológicas e históricas antes de criar seu conto fantástico.
Pessoalmente acho que o livro é enriquecedor nesse sentido: refletimos sobre as diferenças e semelhanças existentes nas incontáveis religiões e suas variantes na atualidade e no passado. Pensarmos na intolerância religiosa como um atraso, em como desprezar uma religião diferente da sua é o preconceito mais antigo e mais poderoso que existe, sempre existiu e provavelmente sempre existirá.

Já li diversos livros sobre mitologias diversas, incluindo didáticos. E por me interessar sobre o assunto, independente de religião, me encantei com o tema desta antologia desde o primeiro dia em que a vi na internet, tanto que a divulguei no blog. Quando o Estevan me disse que enviaria um exemplar para mim, eu vibrei de empolgação.

Recomendo este livro para quem gosta de mitologias variadas, de aventuras mesclando deuses e homens, real e fantasioso. Para quem sabe liberar a mente antes de abrir um livro, se divertir e, (por que não?) aprender algo sobre deuses antigos e esquecidos ou imaginar civilizações diferentes, dotadas de crenças desconhecidas. Entre as teorias e fatos históricos famosos ou não, e a pura imaginação rica desses autores, A Batalha dos Deuses é um livro interessante e nem um pouco monótono.

O conto de abertura é Ragnarök, de Sid Castro. Nos deparamos com vikings e sua poderosa mitologia nórdica mesclada à uma fantasia brasileira. Navios vikings se deparam com o desconhecido, com Valquírias e diversos outros tipos de guerreiras e Amazonas, e uma terra conhecida como Hy-Breasail. Um dos contos fantásticos nacionais mais criativos que já li. Adoro mitologia nórdica e me surpreendi com a forma que Sid Castro mesclou a outros elementos.

Em segundo lugar vem O Carvalho e O Visco de Simone O. Marques. Este trabalho é o mesmo tema central em As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley: O Deus Único cristão que chega apagando os Deuses Celtas antigos, agora considerados adorados apenas por pecadores.

O terceiro conto é Nhanderuvuçu, de Felipe Santos. Um de meus preferidos, pois pouquíssimo conheço sobre a mitologia amazônica, o que é vergonhoso. Fora poucas lendas do folclore aprendidas na escola e um único livro de ficção lido, não conheço nada sobre o assunto. O conto foi uma bela surpresa, não apenas por me apresentar as divindades dos índios brasileiros, mas também pela narrativa épica! Os Deuses interagem diretamente no mundo dos homens e duelam entre si, depois da chegada do Deus dos brancos colonizadores. Conto fabuloso!

Fernando Henrique de Oliveira traz o conto Pontifex Maximus e não parece um conto de autor estreante, pois é muito bom. Nesta história, sob o ponto de vista de um imperador romano, acompanhamos como os Deuses Romanos foram dando lugar ao Cristianismo. Os próprios deuses do Império Romano foram completamente copiados e absorvidos dos gregos e depois trocaram esses mesmos deuses pelo Cristianismo. Nesta história, observamos o destino de um dos mais grandiosos impérios que já existiu.

Em Popol Vuh, Sérgio Pereira Couto mostra um pouco do panteão maia e esse foi mais um conto onde a mitologia mais me interessou, pois eu não conheço mitologia dos povos antigos americanos. O texto segue um estilo mais diferente dos anteriores, pois tudo supostamente ocorre no presente. Criatividade, curiosidade e aventura de um jovem o levam numa viagem extraordinária.

O conto seguinte é A Menina que Olhava e traz um toque mais sombrio e até mesmo de terror ao livro. Albarus Andreos também mantém sua história no presente e faz o uso de Deuses Egípcios influenciando a Humanidade de forma indireta. O final é muito interessante e arrepiante.

E chega o conto de Estevan Lutz, o que mais me deixava curiosa. Em A Última Ceia de Mitra, Estevan faz uso de seu dom em escrever Ficção Científica de qualidade e nos apresenta uma atualidade alternativa, onde o antigo culto à Mitra permanece, sendo esta a principal religião ocidental, e não o Cristianismo. Uma história curiosa e diversos pontos do culto antigo foram mantidos pelo autor (é só dar uma pesquisada na internet para conferir), e misturados à missa católica. Mitra já foi adotada por diversas mitologias, como a indiana, a persa e até mesmo a greco-romana, tendo decaído juntamente com o Império Romano, após este ter adotado o Cristianismo como religião oficial. O conto do Estevan é incrível, inquietante e ousado; e eu adoro isso!

O penúltimo conto é O Legado de Annunaki e foi um dos contos mais surpreendentes da antologia. Márson Alquati conta uma longa história, iniciando na antiga civilização suméria e chegando aos dias atuais de forma inigualável, utilizando a teoria dos deuses astronautas. Como já li o livro de Erich Von Däniken fiquei boquiaberta com a facilidade com que Márson une essa teoria a fatos históricos e bíblicos de forma natural e empolgante. Eu adorei e parabenizo o autor pela inteligência e criatividade, uma história como sempre desejei ler sobre o tema.

Quem fecha a antologia é o próprio prefaciador e organizador: Juliano Sasseron. Em Consciência Quântica existe uma tentativa de mostrar como as religiões e as ciências andam unidas e em busca das mesmas questões existenciais. A mensagem que captei não é contra nem a favor dos religiosos ou ateus. Imagino que o autor quis mostrar que todas as crenças (e descrenças) existem e as pessoas são assim, a liberdade de escolha de cada um deveria ser respeitada.

Mesmo quem desconhece qualquer mitologia irá se divertir com o livro e quem sabe criar interesse pelo assunto? Aconselho que após a leitura de cada conto, o leitor faça uma breve pesquisa sobre a mitologia e época em questão, para poder observar os contos com um olhar mais abrangente e crítico. Exemplo? Após ler o conto do Estevan, pesquise sobre Mitra; após ler o conto da Simone, pesquise sobre os celtas; após o do Márson leia sobre a teoria dos deuses astronautas; e siga assim, conforme sua necessidade e curiosidade.

Contos que mais gostei: Foi dificílimo escolher meus contos preferidos: Ragnarök; Nhanderuvuçu; A Última Ceia de Mitra; O Legado Annunaki.

Trechos:
"Dessa vez o próprio Thorvaldr tomara o leme, orientando o navio através da bruma espessa, como se não quisesse deixar novamente o destino tecer suas regras. Ele agora parecia saber para onde seguiam, e os vikings, perdidos, apenas remavam, pois a grande vela era inútil naquela calmaria sobrenatural" - Ragnarök, de Sid Castro.
"Sou parte do povo que chamam de celtas, uma semente das tribos de guerreiros e druidas. Nossos deuses são partes do que somos, tanto as boas quanto as más. Assim como são partes dos bosques, das matas e dos mares." - O Carvalho e O Visco, Simone O. Marques.
"Um a um, os deuses se reuniram nos galhos da frondosa Árvore da Vida. Pajarás com seu enorme machado de fogo foi o primeiro a chegar, seguido por Anhangá com seu famoso arco, cuja flecha atirada por ele nunca errava o alvo." - Nhanderuvuçu, Felipe Santos.
"Olhou a imensidão dos seus soldados alinhados esperando um único sinal. Era uma batalha entre deuses, disputada por homens. Há muitos anos ele deixara o culto de Hércules. Agora, ele era um protegido de Júpiter, o mais imponente das divindades do panteão." - Pontifex Maximus, Fernando Henrique de Oliveira.
"A pirâmide era maior por dentro do que por fora. A escuridão parecia envolver a todos com um manto quase opressor. Será que o Grande Deus Que Nos Observa a Todos nos veria lá dentro ou só nos vê quando há seu olho, o Sol, no céu?" - Popol Vuh, Sérgio Pereira Couto.
"Se, ao contrário lá se permitisse usar de garranchos e ignorâncias, seriam o retrato do mundo injusto e violento de onde vinham . E a menina odiava que ela fosse assim: justa, boa, correta! Por isso, só queria seu mal." - A Menina que Olhava, Albarus Andreos.
"Pegou o pão das mãos do padre e levou-o à boca, desviou o olhar e recebeu o gole do jarro amparado pelo Corax. "Sangue de Mitra". Retornou à sua fileira de bancos." - A Última Ceia de Mitra, Estevan Lutz.
"Após uma série de experiências fracassadas, finalmente os cientistas a serviço de Enil conseguem desenvolver, a partir das matrizes capturadas, uma nova raça de escravos dotados da capacidade de procriação e inteligência." - O Legado de Annunaki, Márson Alquati.
"Nunca foi de crenças, mas algo naquele devaneio tinha lhe chamado atenção. Não conseguiu tirar as imagens do pensamento e as frases teimavam em permanecer na memória." - Consciência Quântica, Juliano Sasseron.

18 comentários

  1. A antologia por si só já possui um tema interessantíssimo, pois uma das coisas que mais acho interessante na cultura da humanidade é a sua diversidade de perspectivas do divino. A capa é muito bonita e casa perfeitamente com a ideia dos contos. Acho que todos os Deuses no final das contas são representantes da mesma coisa, considerando que a vida possui múltiplos lados é comum que existam vários conceitos de Deus e é ainda mais normal se pensarmos que uma sociedade é também fruto de sua condição social-histórica. Parabéns pela sua resenha, Tatiana. Ficou muito boa.

    Beijos!
    http://policialdabiblioteca.blogspot.com/

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    1. Muito obrigada por ler e comentar minha resenha meio longa, deu muito trabalho escrevê-la. O livro é 5 estrelas!!

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  2. Muito obrigado pelos elogios, Tatiana. Quando escrevi A Menina que Olhava, eu estava lendo (ou tinha acabado ler), o livro A Estrada da Noite, de Joe Hill. A presença escura caminhando ao lado do personagem é mesmo de dar arrepios! Quando dei este conto para minha mãe ler, ela disse que tinha achado horrível! No mesmo momento soube que tinha um bom conto nas mãos. Beijos.

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  3. Amo mitologias, principalmente a nórdica. Não conhecia esse livro, vou acrescentá-lo a minha lista =D Abraços!

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  4. Olá, Tatinda! Muito obrigado pela resenha! Como sempre, você mergulha na estória e na mente do autor!

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    1. Que bom que gostou, Estevan, porque eu amei o livro!!

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  5. Adorei seus comentários. Fico feliz que o livro tenha lhe agradado. O interessante é que cada conto atinge determinada pessoa de maneira diferente, isto demonstra que nós, autores, conseguimos passar nossas mensagens e cativar o público.

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    1. Obrigada por ler minha resenha e comentar, é sempre uma honra ver os autores por aqui!

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  6. Toda vez que vejo uma antologia claro que você me vem na cabeça, impossível não lembrar. Adoro temas mitológicos, mas como filme. Mitologia em livro costuma me cansar, mas pretendo dar uma chance aos que você indica aqui.
    O melhor de te conhecer foi saber que pessoas com gostos opostos, podem e devem se dar muito bem.

    Beijos
    Leitora Incomum

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    1. Sim, Fer essa é a magia da amizade! Conhecemos uns aos outros e descobrimos coisas interessantes. Vai por mim, experimente uma antologia. Quem ssabe a de chick-lit que será publicada pela Estronho?? Beijos.

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    2. AMO mitologias em tudo: livro, HQ, filme e game ahaha

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  7. Excelente resenha, Tati! Você soube captar a essência do livro e repassá-la em sua resenha. Em nome de todos os autores, gostaria de agradecer e parabenizá-la pelo maravilhoso trabalho... Obrigado e até a próxima!
    Afetuosos Abraços!

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    1. Oi, Márson, muito obrigada pela visita e elogio!! Eu amei o seu conto, sério mesmo, sempre quis ler algo assim, com a teoria dos deuses astronautas. Beijos.

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  8. Muito legal sua resenha, Tati. Em especial fico contente que tenha gostado de minha noveleta Ragnarök, em A Batalha dos Deuses. Sou mais afeito à ficção científica e essa foi minha primeira incursão na fantasia. As mitologias (ou religiões, dependendo de seu ponto de vista) de vários povos e culturas (incluindo a brasileira) são elementos fascinantes para se criar novos universos de fantasia.
    beijos
    Sid

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    1. Oi Sid, se essa foi sua 1ª vez na fantasia, saiba que deveriam existir outras. o conto ficou excelente!! Beijos.

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  9. Olá Tatinda, gostei muito da resenha. Me interesso bastante por esses temas, com certeza esse livro vai entrar na minha lista. Você já leu "Deuses Americanos" do Neil Gaiman? Ele também segue nesta linha, o livro é ótimo!

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    1. Oi, Diogo, ainda não o li, mas está na minha lista de desejos. Obrigada pela dica! Beijos.

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