ResenhaResenhaResenha Resenha
26 abril 2012

Cruzando o Caminho do Sol, de Corban Addison, Editora Novo Conceito

Cruzando o Caminho do Sol (A Walk Cross the Sun)
Corban Addison - Editora Novo Conceito
Tradução: Mariângela Vidal Sampaio Fernandes
448 páginas - Ano: 2012 - R$29,90


Sinopse:
"Sita e Ahalya são duas adolescentes de classe média alta que vivem tranquilamente junto de seus familiares, na Índia. Suas vidas tranquilas mudam completamente quando um tsunami destrói a costa leste de seu país, levando com suas ondas a vida dos pais e da avó das meninas. Sozinhas, elas tentam encontrar um modo de recomeçar a vida. Mas elas não devem confiar em qualquer um...
Enquanto isso, do outro lado do mundo, em Washington, D. C., o advogado Thomas Clarke enfrenta uma crise em sua vida pessoal e profissional e decide mudar radicalmente: viaja à Índia para trabalhar em uma ONG que denuncia o tráfico de pessoas e tenta reatar com sua esposa, que o abandonou.
Suas vidas se cruzarão em um cenário exótico, envolto por uma terrível rede internacional de criminosos.
Abrangendo três continentes e duas culturas, Cruzando o Caminho do Sol nos leva a uma inesquecível jornada pelo submundo da escravidão moderna e para dentro dos cantos mais escuros e fortes do coração humano."


Resenha:
Antes da resenha, reli muito bem a sinopse, porque estou com tanta vontade de comentar o livro que não posso, de forma alguma, soltar spoilers. Respirando fundo e tentando escrever uma resenha que esteja à altura. Não apenas do livro, mas também do tema e do turbilhão de pensamentos e sentimentos que me sufocam nesse momento pós-leitura.
Confesso que demorei um pouco para ler o livro, pois os temas centrais são tão impactantes que me fizeram mais refletir e pesquisar sobre eles que ler: tráfico humano, escravidão moderna e pedofilia.
O livro é ótimo, polêmico e nos faz pensar em como existem submundos dentro da sociedade. Como as leis civis e de direitos humanos são ignoradas bem debaixo do nariz de cidadãos comuns e corretos; que jamais desconfiam que algo realmente vil, terrível, escandaloso, grotesco, possa estar ocorrendo todos os dias, bem próximo a eles. Como a realidade pode ser falsa, maquiada, escondida. Em como não conhecemos nada da natureza humana. Ou seria desumana??

O livro é bem estruturado em quatro partes e trinta e três capítulos e um epílogo. No final existe uma nota do autor, o que quase me fez bater com o livro em minha própria cabeça. Não, repito: o livro é ótimo! O problema é que após inúmeras pesquisas sobre o assunto durante a leitura, nas últimas páginas o autor deixou explicações e referências sobre "onde, como e por que" ele próprio se aprofundou, incluindo links! Acho que esta nota deveria ter sido colocada antes da história.
Talvez esteja no final de propósito, pois ao terminar, o leitor fica inquieto, revoltado, estupefato! Então vem essa importantíssima nota do autor para nos fazer jamais esquecer que o problema é global e tão antigo quando a Humanidade.
Nessa nota, o seguinte trecho me foi especial: "Se você trabalha na mídia ou detém uma plataforma pública, mesmo que seja apenas um blogue, pode utilizar essa plataforma para despertar a consciência sobre o problema."
E eu pensei se com uma resenha eu poderia fazer algo. Concluí que não acrescenta nada à luta contra a escravidão e exploração humana, mas pelo menos expresso minha opinião, não apenas sobre o livro, mas pelo tema.

A forma como o autor escreve também é bem organizada, não existem capítulos desnecessários e os acontecimentos fluem. Já nas primeiras páginas não há enrolação sobre a introdução das personagens principais e a ação se inicia rapidamente. São apresentados cenários e protagonistas.
Nos revezamos entre a Índia e a vida de duas irmãs de classe alta, bonitas e cultas, que possuem uma família feliz com pais realizados e casa á beira mar; e a vida de um advogado experiente que vive nos Estados Unidos e passa por momentos ruins no escritório em que trabalha e com a mulher que é indiana e o abandonou.
Os conflitos iniciais são intensos. As meninas ficam órfãs e perdidas após um tsunami destruir a região onde vivem. O advogado não supera um grande trauma e sente-se cheio de dúvidas e perdido quanto ao rumo de sua profissão. Sem precisar de grandes trechos impactantes ou floreios literários, o autor de forma muito simples já consegue cativar o leitor com as personagens e seus problemas imediatos. As meninas são Ahalya de 17 anos e Sita, de 15. O que fazer após perder absolutamente tudo? Casa, família e paz? O advogado é Thomas, e sua (ex?) esposa é Priya.
As personagens secundárias também são excelentes, e são muitas. Cada uma está no livro para causar determinado fato. Ninguém é desperdiçado e não fica confuso para o leitor.

O grande forte do enredo está no que acontece com essas três pessoas em destaque. Você torce demais pelas meninas, página após página. A forma como Thomas entra na vida delas é incrível (apesar do leitor já saber que isso ocorrerá). A ligação que passa a existir entre eles é forte, convincente e emocionante.
O autor nos mostra um pouco da cultura e vida na Índia, os bastidores das diversas ONGs, polícia e Justiça (não apenas na Índia) que lutam contra o tráfico humano, pedofilia e escravidão forçada. Uma enorme rede que enfrenta corrupção, desleixo político, burocracia e bandidos.
A rede contra a pedofilia/escravidão/tráfico humano é grande, eu nem imaginava que existam tantas pessoas altruístas que praticamente deixam de viver suas vidas totalmente para se dedicarem a uma causa humana tão comovente.
No entanto, a rede clandestina dessa exploração e praticante do crime contra a vida e liberdade parece maior. É muito complexa, obscura e entrelaçada.
Os cenários mudam constantemente, viajamos por três continentes e conhecemos a vida de muitas vítimas (a maioria menor de idade), heróis (só existe essa palavra para nomear as pessoas que de forma direta e indireta agem contra isso) e criminosos nojentos, desprovidos de caráter, ética, respeito e consciência.

E para mim, pior que esses bandidos de corpos e corações são os que os apoiam! Sim, o consumidor. O sujo cidadão que paga para estuprar menores de idade. O que acessa vídeos e fotos, dando visitas a sites de pedofilia. Pessoas da pior escória da sociedade, que participam de grupos secretos e frequentam bordéis onde as mulheres e crianças são prisioneiras, exploradas, escravizadas.
Existem ainda os participantes indiretos, os cúmplices, os omissos e os que auxiliam indiretamente. Às vezes escondem uma pessoa na própria casa por uns trocados. E mesmo os que nada fazem, mas sabem "onde e quem". Sabem e ignoram!

A vida que elas são obrigadas a ter não é vida nem prisão; é o inferno na Terra. Enganadas, raptadas, presas, espancadas, envergonhadas, estupradas, humilhadas, marcadas para sempre. Jogadas de um lado para o outro, como se suas vidas não valessem nada. Ah, mas valem! São negociadas descaradamente, suas vidas são barganhadas. Elas veem dinheiro sujo enriquecendo bolsos podres.
Mesmo as que não sofrem o abuso sexual, sofrem a escravidão e espancamentos durante trabalhos pesados forçados ou são obrigadas a traficarem drogas. Algumas sofrem um pouco de tudo, e a grande dor não é apenas física; é psicológica, emocional, espiritual.
Sonhos e inocência são arrancados delas da pior forma possível. Algumas são vendidas ou exploradas pelos próprios parentes, outras desaparecem e a família nunca mais as encontra, sem ao menos imaginar se estão vivas.

O autor mostra em detalhes esse mundo terrível e chocante.
Me interessei pela parte jurídica e burocrática, pois por ser advogado envolvido com os direitos humanos internacionais, tendo entrevistado vítimas e salvadores e tendo se aprofundado diretamente no esquema desses crimes, ele soube nos apresentar a batalha diária para tentar salvas essas pessoas.
Quanto aos abusos por elas sofridos, o autor nos comove na medida certa, sem nenhum melodrama. Afinal, não há a necessidade disso. Tudo que acontece com elas já possui dor e sofrimento necessários para nos atingir fortemente. Por diversas vezes tremi, imaginando o sofrimento das meninas.

Percebi o quanto sou egoísta e finalmente formei uma opinião sobre isso. Porque antes, por mais que eu me comovesse com histórias assim, uma pequena e injusta parte de mim pensava em como essas mulheres caíam nessa rede. Como deviam ser ingênuas. Por que permaneciam? Por que não escapavam, denunciavam? Ingenuidade, na verdade, minha. Na maioria das vezes: simplesmente não há como fugir e/ou resistir! Me senti uma completa idiota e sem coração por um dia ter pensado essas coisas sobre as vítimas de escravidão e prostituição forçada.

Apesar de ser ficção, com personagens criadas para isso, imagino quantas "Sitas", "Ahalyas", "Natalias", "Ivanas", "Natashas" sofrem nesse mundo. Não importa o nome, nem nacionalidade, idade ou como caíram nas garras imundas desses criminosos. O que importa é que cada uma é um ser humano, e deveria ter o direito a uma vida livre e normal. Nem consigo imaginar.
Admirável a força, a coragem, a esperança e a fé das irmãs do livro, e também de Thomas!
O autor incrimina a sociedade, informa como tudo acontece, choca o leitor e nos arranca lágrimas por cada menina desse mundo, não importa a etnia, que se perde e quase sempre morre nessa rede de escravidão e prostituição.

Não deixem de assistir ao booktrailer. Ah, e a pulseirinha do kit da Novo Conceito é uma das coisas mais fortes presentes na história.


Trechos:
"'Então esta noite eu vou ser vendida também', pensou ela. O horror que isso lhe causava a deixou entorpecida. Ela vestiu seu traje de sedução e foi atrás de Sumeera pelas escadas,"
"Ele tranquilizou, persuadiu, bajulou, e, finalmente, implorou para que o chefe da ACI não desistisse da operação. No final, o homem aquiesceu, mas cortou um terço de seu contingente e jurou que eles estavam só perdendo tempo."
"O mundo podia roubar sua liberdade; podia acabar com sua inocência; podia destruir sua família e arrastá-las por caminhos além de seu entendimento. Mas não podia privá-las de sua memória."
"Ela colocou a mão sob o sári e esfregou Hanumam com seu polegar. Ela tentou rezar, tentou acreditar que o macaco não era apenas um pedaço de cerâmica, que o verdadeiro Hanumam vivia e procurava por ela, mas sua fé não foi capaz de sustentar o peso de seu temor."
"É um empreendimento ilegal que afeta praticamente todos os países do mundo e gera um lucro de mais de trinta bilhões de dólares, forçando milhões de homens, mulheres e crianças à prostituição e ao trabalho escravo."

Links do livro: Editora Novo Conceito | Degustação | Skoob | Facebook

Booktrailer:



O autor:
Corban Addison é graduado em Direito pela Universidade de Virgínia e em Engenharia pela California Polytechnic State University, San Luis Obispo.
O autor interessa-se especialmente por direitos humanos internacionais e é apoiador de inúmeras causas, inclusive da abolição da escravatura moderna.
Mora com a esposa e com seus dois filhos em Virgínia.
Cruzando o Caminho do Sol é seu primeiro romance.

Links do autor: Website oficial | Twitter | Facebook


Sorteio de kit cedido pela Novo Conceito:




Corre que dá tempo de participar. Até dia 30/04, pelo Facebook.



5 comentários:

  1. Ainda bem que você se preocupa em não soltar spoilers para os leitores, Tatiana. Infelizmente nem todos tem esse mesmo zelo. Nossa sociedade tem muitas camadas mesmo, submundos existem em grande quantidade e a escravidão ainda existe (com moldes um pouco diferentes, mas ainda é a mesma coisa). Interessante ver que esse livro, além de entreter como leitura, também é uma denúncia que consegue alcançar profundamente quem o lê. Parabéns pela sua resenha. Pelo visto esse foi um livro que alterou muito do que você pensava antes de lê-lo.

    Beijos!
    http://policialdabiblioteca.blogspot.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E mesmo sendo uma denúncia, deixo claro que o livro entretêm e comove. Existe romance, suspense, drama e ação. Beijos.

      Excluir
  2. Tati, bem empolgante e forte sua resenha. Dá pra ver que o livro realmente mexeu com você. É um tema que todos conhecem, sabem que acontece, mas acredito que já não ligam muito. Ás vezes pensamos que isso só acontece em paises mto pobres (como Índia e países da África), mas está mais perto do que imaginamos.
    Fiquei curiosa com o livro! Abraços!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E pelo que descobri, talvez as meninas que mais sofram são da Europa Ocidental, as "Natashas" como é mostrado no livro. O livro não possui leitura pesada, na verdade é leve. Mas o tema pesa de qualquer forma. Beijos.

      Excluir
  3. Oi! Tudo bem?! Menina, que resenha maravilhosa! #Amei! Amei sobretudo o livro e a estória que faz um retrato de uma realidade tão triste. Fiquei muito comovida e ao mesmo tempo indignada com a situação a qual as meninas são expostas. O autor sabe enfatizar tudo sem dramatizar demais, mas as vezes durante a leitura senti falta de mais detalhes. Gostei muito desse vídeo, até o coloquei em minha resenha. Mas enfim... Fiz uma resenha deste meu blog, se tiver interesse ou mera curiosidade, dê uma passadinha por lá!
    Bjs, Ruama.
    http://esquiloscorderosa-ruama.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir

Antes da publicação, os comentários passam por moderação, então aguarde, por favor.
Comentários considerados spams, agressivos ou preconceituosos, não serão publicados, assim como pedidos de e-Books ilegais.
Sua opinião é muito importante! Através dos comentários é que posso tentar fazer um blog mais interessante.
Se você tem um blog, retribuirei seu comentário assim que possível.
Obrigada por participar.

© Copyright 2011 - 2014. | Todos os direitos reservados. | Tema: Way2themes. | Aministração: Tatiana Jiménez Inda. | Tecnologia: Blogger. | Atenção: Direitos autorais.