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Como publicar seu livro: matérias do G1

Durante a XV Bienal do Livro no Rio, o site G1 publicou várias matérias sobre como publicar seu livro e obter um bom resultado. Reuni todo o conteúdo numa única postagem!! Aproveitem!!

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Matéria 1 (05/09/2011) Como achar uma editora por Daniel Buarque


"Usei o Facebook para conseguir lançar meu livro", diz autora estreante. Jornalista entrou em contato direto com editor em vez de mandar original. Para editora, redes sociais são boa alternativa para contato de autores.

Toda vez que a jornalista Luciana Benatti entra em uma livraria, ela se emociona. Ver seu primeiro livro,  Parto com amor”, na prateleira a deixa com vontade de chorar, e ela ainda tira fotos para guardar o momento. “É muito gratificante”, disse, em entrevista ao G1. E tudo isso, segundo ela, só aconteceu graças ao Facebook, rede social que ela usou para entrar em contato com o editor que abriu as portas para que seu projeto fosse publicado.

“Numa noite, estava ansiosa com o projeto, frustrada por ele ter sido rejeitado por uma primeira editora que procurei e decidi tentar publicar pela Panda Books. Achei o perfil do editor no Facebook e mandei uma mensagem privada para ele me apresentando e contando do meu projeto” contou. Ela diz que nem se animou muito, mas o editor respondeu no dia seguinte demonstrando interesse e pedindo para ela mandar o modelo do livro. “Pouco tempo depois tivemos uma reunião e um mês depois o projeto estava aprovado”, disse.

O livro foi publicado neste ano, e é uma parceria de Luciana e seu marido, o fotógrafo Marcelo Min. Ele trata do parto humanizado, com o mínimo de intervenção médica possível, contando a história de nove mulheres. “É muito diferente do que conhecíamos e respeita mais a mulher”, disse. A ideia surgiu quando a própria Luciana teve seu primeiro filho, Arthur. “Minha experiência me fez querer escrever. Precisávamos contar essa história”, disse. Em pouco tempo, os 3 mil exemplares da primeira impressão foram vendidos, e outro lote já foi distribuído.

Investimento
Para tornar seu projeto mais atraente, Luciana pagou R$ 1.500 para que uma designer que conhecia criasse um “boneco”, uma miniatura de como o livro ficaria quando estivesse pronto, com textos e imagens. O boneco tinha os primeiros capítulos do livro e já permitia vislumbrar a obra finalizada. “Autor estreante tem que investir em seu projeto. É preciso gastar muito tempo, trabalhar muito e gastar dinheiro em coisas deste tipo também”, disse Luciana.

Com o boneco do livro nas mãos, Luciana começou a procurar editoras. Chegou a ir para uma reunião com uma das grandes, que ela prefere não dizer o nome, mas ouviu que o livro dela não venderia. “Fiquei decepcionada. Eu tinha certeza que venderia”, disse. Foi quando ela usou o Facebook e conseguiu fechar o contrato para publicação.

Segundo Luciana, o retorno da publicação é fantástico e vai muito além da questão financeira. “Autor estreante não consegue viver de direito autoral, mas é muito gratificante”. O retorno dos leitores também é emocionante, contou. Até mulheres de Portugal entram em contato para falar do livro. Além disso, Luciana se tornou uma referência para falar de parto humanizado. “Dou palestras e invisto muito na divulgação do meu trabalho”, disse.

O tema já está até rendendo uma continuação, e Luciana contou que está fazendo entrevistas para um segundo livro sobre partos. “Agora, com um livro já publicado, tudo fica mais fácil”, falou.

Pela internet
O e-mail já é a forma padrão pela qual a maior parte dos projetos são pré-avaliados em um dos maiores grupos editoriais do país. Segundo Luciana Villas-Boas, diretora editorial da Record, centenas de propostas são recebidas regularmente por ela, que avalia o potencial dos livros que querem ser publicados ali. "Pelo e-mail eu já avalio a intimidade que a pessoa tem com o idioma, aí fazemos uma avaliação inicial e já decidimos se queremos estudar o caso ou não", explicou, em entrevista ao G1.

A Record trabalha com 10 a 12 leitores free lance que avaliam obras com chance de serem publicadas. Todas são avaliadas, segundo Villas-Boas, mesmo que leve até um ano para ser dada uma resposta. "Não é frequente, mas publicamos, sim, autores estreantes que chegam a nós de forma voluntária e sem indicação", disse. Segundo a editora, "qualidade é essencial, mas é preciso ter também potencial de mercado".

Apesar disso, ela diz que um bom projeto dificilmente é rejeitado. "Eu me apaixono pelas boas ideias, e é muito difícil recusar um bom projeto", disse. Segundo ela, é importante buscar o aval de um outro escritor, ou editor, que incentive a publicação. "Ter o aval de alguém em quem acreditamos é sempre bom, e no mínimo agiliza nossa resposta", disse.

Villas-Boas explicou que apesar de a Record ser inundada de propostas, e de serem mais raras as publicações de autores estreantes e sem referência, a editora incentiva que novos autores a procurem. "A chance de acerto é maior quando compramos mais livros. Todo mundo se acha espetacular, é verdade, mas alguns realmente são espetaculares e devem, sim, nos procurar", disse.

QI - Quem indica
Tatiana Fulas, diretora editorial da editora Panda Books, explicou que não existe um modo único para publicar um livro, e que isso varia de editora para editora, mas ela concorda que as redes sociais são uma boa alternativa para que novos autores procurem editoras. “Com mídias sociais, toda forma de contato é válida. Já recebemos até contato de autores pelo Twitter”, disse.

A maior parte das editoras do Brasil pede que o autor envie o original já pronto pelo correio, alegando que o texto vai ser avaliado, mas isso nem sempre funciona. “Toda editora recebe centenas de originais, e mandar sem saber o perfil da casa atrapalha todo o processo”, disse Fulas.

Segundo ela, o pretendente a autor precisa pesquisar o mercado, para decidir a editora que acha que mais se encaixa no perfil do seu livro. Para conseguir publicar, a editora tem que estar muito certa de que o livro vai vender, senão, é ela que vai ter o prejuízo, disse. A Panda faz cerca de 5 lançamentos por mês e costuma lançar autores novos, com divulgação e distribuição nacional de pelo menos 3 mil exemplares. Cada livro, conta, passou por um processo diferente no contato do autor com a editora.

Mesmo com tanto volume, Fulas diz que pelo menos um livro lançado pela Panda por ano foi publicado pelos meios tradicionais, com original enviado pelo autor sem nenhum contato prévio ou qualquer indicação.
A editora admite, entretanto, que é importante ter indicação de alguém para facilitar o processo de conseguir uma editora. “O ‘quem indica’ é positivo. Ter ‘QI’ ajuda a chegar ao editor, o que é importante, mas isso não garante a publicação do livro”, disse. Este “QI”, segundo ela, pode ser um autor já publicado, um editor, um amigo da editora ou mesmo jornalistas. O importante é ter mostrado o projeto para que outras pessoas abracem a ideia.

O mais importante, entretanto, ela explica, é que o livro tenha uma proposta interessante. “O livro tem que ter diferencial”, contou. E precisa já estar formatado, pois muitas boas idéias no projeto acabam não sendo tão bem realizadas. “Não podemos aprovar o projeto sem avaliar o trabalho completo”, disse.

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Matéria 2 (06/09/2011) Produção independente por Daniel Buarque


"Esperar editora é utópico", diz autor recordista em livros publicados. Autor de 1.100 livros, Ryoki Inoue decidiu publicar ele mesmo suas obras. Para editor, livros independentes têm mercado grande e segmentado.



O escritor mais prolífico do mundo cansou de esperar pelas editoras. Autor de 1.100 títulos e reconhecido em 1993 pelo Guinness como o homem que mais escreveu e publicou livros em todo o planeta, Ryoki Inoue já viu seu nome em obras lançadas pelos maiores grupos editoriais do país, mas se sentiu desvalorizado, desistiu e resolveu publicar ele mesmo suas próximas obras, criando uma empresa para fazer isso de forma independente. “O autor é apenas um ninguém para as editoras”, disse o escritor, em entrevista ao G1.

“Cansei de ficar esperando prestações de contas. E também cansei de esperar que essas grandes editoras fizessem alguma coisa do ponto de vista de divulgação e marketing”, disse. Em sua empresa, a Ryoki Inoue Produções, o escritor diz ter um controle maior do processo de publicação, da divulgação, da distribuição (com vendas especialmente pela internet) e do retorno financeiro pelos livros vendidos.

Médico, Inoue mudou de profissão e se tornou escritor nos anos 1980. Ele começou a publicar livros de bolso para leitura rápida, com títulos de westerns e pequenos romances históricos vendidos em bancas de revistas. A necessidade de ter uma renda fixa com este trabalho fez com que desenvolvesse técnica para escrever rápido e conseguir publicar muitas obras (até 12 livros por semana), o que o fez alcançar a marca de recordista mundial. Mais recentemente, ele se tornou autor de obras maiores, como “Saga” (Ed. Globo) e “Fruto do Ventre” (Record), mas não ficou satisfeito com a relação com as editoras.
É mais fácil uma boa relação com uma editora pequena do que com uma grande"

“As editoras grandes, ditas convencionais, estão preocupadas em investir só em autores de retorno certo. Um principiante dificilmente encontra um lugar ao sol”, disse. Segundo ele, a dificuldade em conseguir falar com os editores é outro motivo que o faz escolher e incentivar a publicação independente. “É mais fácil uma boa relação com uma editora pequena do que com uma grande.”

Além de lançar os livros que ele escreve, a produtora de Inoue passou a investir em lançar livros de outros escritores novos, oferecendo serviços de consultoria, edição e impressão de trabalhos independentes. Segundo ele, publicar por grandes grupos editorias só é vantajoso “se o autor considera como real vantagem a vitrine de livrarias, sim. Mas não é o acontece, na realidade”, disse.

Ele alega ainda que os escritores devem assumir o papel de principais divulgadores e vendedores dos seus próprios livros de forma independente. “Um dentista, para poder trabalhar, tem de investir em seu consultório. Um escritor tem de investir em seu próprio trabalho. Esperar que apareça uma editora que invista em sua obra é bastante utópico.”

Independência total
Um processo semelhante foi seguido pelo professor, jornalista e escritor pernambucano Álvaro Filho. Autor de quatro livros, ele sempre fez todo o trabalho de redação, edição e publicação de forma independente, sem passar por editoras grandes ou pequenas. “Não tive paciência de procurar”, disse, em entrevista ao G1.

Seu projeto mais recente, “Jornalismo para iniciantes”, foi lançado no ano passado. Trata-se de uma ficção que aborda os princípios do trabalho jornalístico. “O livro foi todo concebido por mim, desde o texto, a capa, o contrato com o fotógrafo, o designer para a capa, eu que organizei tudo”, contou. A obra foi impressa em uma gráfica do Recife que garante a inscrição de número de série do livro e do código de barra.
A tiragem inicial foi de mil exemplares, e o custo total foi de R$ 3 mil. Para ele, publicar o livro de forma independente dá mais trabalho, deixa sua casa bagunçada e cheia de caixas, mas “financeiramente, não faz muita diferença, pois quem publica por grandes editoras também não ganha muito dinheiro”, disse. Segundo Álvaro Filho, por mais que o dinheiro não seja o objetivo final da publicação, é um investimento que “sempre se paga”. Ele calcula ter vendido cerca de 500 exemplares por preços em torno de R$ 15, cada (um retorno total de R$ 7.500).

Mercados diferentes
Para Leonardo Simmer, o sócio fundador da editora Multifoco, a vantagem da publicação independente é que ela apela a um mercado diferente do das grandes editoras. Apesar de menor e mais segmentado, este mercado é grande e absorve bem novos escritores. “Edições independentes são interessantes para autores que vendam até 100 ou 200 livros, que as grandes não fazem”, disse, em entrevista ao G1.

A Multifoco é uma editora especializada em publicações de impressões limitadas, ajudando a lançar no mercado esses autores independentes. Enquanto as editoras tradicionais fazem tiragens de no mínimo 3 mil exemplares, mesmo que a vendagem fique em torno de 500, a Multifoco chega a editar livros que vendem apenas 30 exemplares. “Trabalhamos com grande liquidez. Com R$ 16 mil, fazemos 30 títulos diferentes de pequenas tiragens”, explicou. Assim, disse, eles diminuem o risco de perder dinheiro com o lançamento e ainda têm retorno mais rápido de que as editoras que apostam em um único título.

Segundo ele, os projetos chegam pelo e-mail da editora e os autores recebem um retorno em até duas semanas. “É uma avaliação superficial, mas conseguimos ver o que nos interessa. Se gostamos, bancamos a publicação”, disse. “Não custa nada para o autor e ainda fazemos um trabalho profissional de edição, diagramação e distribuição”, disse.

Segundo Simmer, a editora lança uma média de 40 títulos novos por mês, buscando segmentar as publicações em selos variados. “Fazemos uma seleção. Queremos publicar trabalhos feitos com seriedade e bem apresentados, mas não temos critérios tão rigorosos quanto as editoras grandes”, explicou. Segundo ele, a editora também aceita prestar serviços de diagramação e impressão para obras completamente independentes.


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Matéria 3 (07/09/2011) Importância do lançamento por Gabriela Alves

Livro pode 'ganhar vida' no lançamento, diz escritora cearense. Socorro Acioli é autora de 'A bailarina fantasma'. Lançamento da obra foi com passeio guiado a cenário do livro.

Na hora de lançar um livro, a escritora cearense Socorro Acioli diz sempre ter ideias “mirabolantes” para fugir do evento tradicional com falas ilustres seguidas por sessão de autógrafos e um coquetel. Em janeiro do ano passado, a escritora conseguiu executar uma dessas ideias e lançou sua 14ª obra, “A bailarina fantasma”, com uma visita guiada com a presença de 200 pessoas pelo Theatro José de Alencar, local histórico de Fortaleza e que serviu de cenário para o livro. “O escritor tem de pensar em um evento que deixe o leitor com curiosidade para ler o livro. Fazer com que o livro ganhe vida”.

A história do livro de Socorro Acioli se passa toda no Theatro José de Alencar e foi escrita a partir da lenda de uma bailarina vestida de azul que rondava o local. “Sempre penso que o lançamento seja um prolongador do tema do livro. No caso da 'Bailarina', o 'mergulho' no texto tinha de ser no Theatro”, explica. Além do apoio da editora, a ideia do lançamento do livro ser uma visita guiada teve ajuda da diretoria do teatro e, inclusive, fez parte da comemoração do centenário do equipamento cultural.

“Fiz um roteiro nos cenários da história. Conduzia os visitantes para diferentes locais e lia um trecho do livro. Geralmente, nos lançamentos, vão os amigos e a família. Como agreguei um evento diferente, acabei atraindo muita gente que não conhecia”. Apesar da publicação ser voltada para o público juvenil, a escritora conta que cerca de 200 pessoas entre crianças, adolescentes e adultos passaram pelo passeio que começou às 16h de uma quarta-feira e terminou por volta das 22h.

Lançamento multimídia
O convite para a visita guiada de “A Bailarina Fantasma” também foi original. Socorro Acioli produziu um book trailer da história, o primeiro do Ceará. “Enviei para imprensa, para os convidados e disponibilizei na internet. Meu público de 8 a 14 anos está todo na internet. É o meio mais fácil para chegar neles”. No vídeo, a escritora apresentava o livro com atores interpretando pequenos trechos da história.

A escritora é um exemplo da importância de saber planejar o lançamento e como isso pode gerar consequências positivas. “Muitas vezes, o que importa não é a venda e, sim, a divulgação na mídia. Fazer lançamentos diferentes gera espaço e é um investimento a longo prazo”. Até agora, já foram vendidos 30 mil exemplares da obra e a comercialização está esgotada nas livrarias de Fortaleza. Umas das novidades é que 'A Bailarina Fantasma' também vai virar filme por uma produtora do Rio de Janeiro.

Um mês depois do sucesso do lançamento oficial, foi realizada uma leitura pública do livro no foyeur do Theatro José de Alencar. Vinte e um convidados leram na íntegra um dos 21 capítulos da história. Ao longo de 2010, a escritora ainda fez mais seis visitas guiadas sobre o livro a convite do próprio teatro e de escolas da capital cearense. “Até hoje, se eu chegar no teatro, os guias me chamam para fazer o passeio com os visitantes e contar a história da bailarina”.

Socorro Acioli defende que o livro precisa fazer um “casamento" com outras artes. Em 2011, a escritora lançou mais uma obra, o cordel “O Inventário de Segredos” e mais uma vez fez diferente. Socorro convidou o grupo cearense Breculê para musicar todos os capítulos da sua 15ª obra e realizou um show em uma livraria de Fortaleza.

Momento crucial para escritor
O coordenador editoral da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (Secult), Raymundo Netto, reafirma que o lançamento do livro é uma questão crucial, principalmente, para os escritores que publicam por conta própria ou em acordo com as editoras. “A maior parte da imprensa dá ênfase à publicação de um livro quando é feito o lançamento. Esse é o momento de divulgação e de venda”, destaca.

Raymundo Netto, que também é escritor e já trabalhou na publicação de mais de 90 livros pela Secult, orienta que o local do evento de lançamento precisa ter uma relação com a história do livro e com o público. “Quando o escritor tem apoio da editora, a preocupação é menor e o lançamento acaba sendo simbólico. Mas, no caso de escritores independentes, o esforço tem de ser bem maior porque a grande venda do livro será no lançamento”.

O coordenador editoral lembra pequenos detalhes que devem ser pensados na organização do lançamento de um livro. “É importante preparar a logística do local, separar dinheiro para os trocos, tomar cuidado com as papeletas com os nomes para a dedicatória, a distribuição do livro nas editorias especializadas com pelo menos 15 dias de antecedência do lançamento. Esses detalhes fazem a diferença e garantem o sucesso de um lançamento”.

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Matéria 4 (08/09/2011) Como distribuir por Daniel Buarque

"Vendi 5 mil livros sem passar por livrarias", diz autor de guia de NY. Autor do 'Guia Nova York para Mãos-de-Vaca' distribui obra direto a leitor. Agente literária diz que opção dá mais trabalho, mas pode valer a pena.

Henry Bugalho e Denise Nappi moram em uma casa cheia de livros. São dezenas de caixas que guardam a tiragem independente que fizeram do seu “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”, vendido exclusivamente pela internet. Sempre que alguém compra um exemplar, são eles mesmos que vão até os correios e enviam a obra. “Nós que escrevemos, editamos, imprimimos e agora embalamos, vamos até os correios e enviamos para os compradores”, disse Bugalho, em entrevista ao G1. “Somos pau para toda obra.”

O guia de turismo com baixo orçamento foi escrito depois que o casal se mudou para Nova York, em 2006, e já vendeu mais de 5 mil exemplares sem nunca passar por uma livraria.

No começo, o trabalho, que surgiu como blog e foi editado em livro, era vendido em formato PDF e enviado pela internet. “Oferecíamos também a alternativa de receber a versão impressa pelo site ‘Lulu’, que imprime exemplares individuais das obras e envia pelo correio”, disse Bugalho.

O escritor contou que pesquisava o comportamento do mercado editorial e sabia que nos Estados Unidos já existia a tradição de vender livros em formato PDF. “Dessa forma, conseguimos vender o livro com custo zero e lucro total. Não é fácil vender livro no Brasil. Não passamos por livrarias, mas o blog é a nossa vitrine, nosso canal de distribuição”, disse.

Segundo ele, o guia, que é vendido por R$ 27,90, hoje é a fonte de renda do casal, e o trabalho tem um retorno financeiro melhor de que o de best-sellers de grandes editoras. “Em termos de renda, vejo que quem vende 5 mil exemplares por uma editora não tem um retorno tão bom quanto o que nós temos com a venda independente. Mesmo que tentassem levar nosso guia para uma editora, não teríamos interesse. Não quero pagar a ninguém para fazer o que nós mesmos podemos fazer.”

Mudança e impressão
Foi só neste ano, depois de se mudarem dos EUA para Buenos Aires, que eles revisaram a obra e imprimiram pela primeira vez uma tiragem do guia, com 2 mil exemplares. Os livros foram levados para casa e passaram a ser vendidos pelo site e enviados pelos correios.

A decisão de imprimir uma tiragem se deu em busca de ter um trabalho mais bem finalizado, de ter lucros maiores e de fugir da pirataria dos PDFs, que podiam ser revendidos ou redistribuídos de forma fácil pela internet. “Chegamos a ver blogs anunciando nosso guia para vender por preços abaixo dos nossos. Calculamos que haja de 40 mil a 50 mil PDFs pirateados do nosso livro.”

O casal trocou Nova York por Buenos Aires em 2010 por causa do plano de expansão da divulgação de guias de turismo econômico. “Tínhamos quase 400 mil leitores no blog de Nova York, e decidimos expandir o trabalho”, disse. O guia passou a tratar de viagens baratas por todo o mundo, e a capital argentina deve ser tema do próximo guia a ser editado e vendido como livro até o fim deste ano. “Buenos Aires recebe 1,5 milhão de visitantes brasileiros todos os anos. Queremos atingir este público.”

Apesar de todo o sucesso alcançado pelo guia de turismo, Bugalho diz se sentir frustrado por não ter conseguido emplacar comercialmente seus trabalhos de ficção. Autor de livros como “O Rei dos Judeus” e “O Covil dos Inocentes”, ele diz que não encontra um mercado tão favorável para essas obras. “Para ficção, não é tão bom ter venda independente. Quase ninguém se interessa. Seria bom ter uma editora ajudando a distribuir e promover estes livros”, diz.

Brasil preparado
Segundo Marisa Moura, fundadora da agência literária Página da Cultura, o mercado literário vem passando por mudanças, e o Brasil está preparado para publicações com distribuição independente. Para ela, a internet ajuda muito quem tenta fazer este trabalho.

“Até a entrada da internet, o mercado via que o editor, com faro do mercado, decidia o que seria publicado. As decisões eram centralizadas”, disse Moura, em entrevista ao G1. Segundo ela, isso mudou, e agora há livros que fazem sucesso sem o aval de nenhuma editora, enquanto muitas apostas editoriais acabam encalhando. 

Para Moura, um autor que consegue vender 5 mil exemplares do seu livro com distribuição independente não precisa se interessar por buscar uma editora. “O máximo que as editoras oferecem de direito autoral hoje em dia é 12% do preço de capa dos livros. Se o autor consegue vender ele mesmo e receber 70% ou mais do preço de capa, ele vai questionar se vale a pena ir para uma editora.”

A publicação independente, entretanto, difilcilmente consegue uma grande distribuição nacional por uma questão de logística. As livrarias estão acostumadas com um tipo de distribuição que não se adapta tão bem a produções independentes e títulos isolados. Os casos que funcionam normalmente requerem trabalho dos autores, como acontece no caso de Bugalho, que envia ele mesmo todos os livros vendidos.

“Para editar, publicar e distribuir a própria obra, o autor precisa saber se está realmente disposto a ter todo o trabalho. Ele tem que ter uma estrutura que vai além do trabalho de apenas pesquisa e redação do livro”, explicou Moura.

O lado negativo de tudo isso, segundo a agente literária, é que o trabalho detalhado em cima dos textos, a revisão, o cuidado com cada palavra, está acabando. “Por conta da corrida de ouro para publicar, e da ansiedade”, diz, tudo é feito sem o mesmo cuidado do passado.

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Matéria 5 (09/09/2011) Receita do best-seller por Daniel Buarque

"Vender um milhão de livros é 'razoável', diz autor de '1808' e '1822'. Jornalismo ajudou Laurentino Gomes a vender 1,2 milhão de exemplares. Estreante pode virar ‘mais vendido’, diz diretor editorial.

Ganhador do Prêmio Jabuti, Laurentino Gomes tirou do jornalismo algumas técnicas que acredita terem ajudado seus livros de estreia a entrarem na lista dos mais vendidos do Brasil, alcançando juntos a marca de 1,2 milhão de exemplares. Autor de “1808” e “1822”, que tratam de momentos-chave da história do Brasil, ele diz que texto fácil, senso de oportunidade, capa cativante e marketing corpo a corpo tornam possível virar best-seller com o primeiro livro. “Uma obra com linguagem acessível chega a 1milhão de exemplares sem susto. Não é um número excessivamente ambicioso. É razoável”, disse, em entrevista ao G1.

Apesar de todo o otimismo, Gomes alega que não esperava que seu livro se tornasse tão popular. “É uma surpresa para mim que livros de história do Brasil possam se tornar best-sellers. Minha meta pessoal ao publicar “1808” era vender 20 mil livros. Até hoje me pergunto o que aconteceu.”

Desse questionamento, ele tirou as explicações que costuma dar quando fala sobre a “fórmula do best-seller”. “É essencial ter linguagem acessível e fácil de entender. É preciso ter uma boa fórmula de capa e título, para atrair o leitor, algo que até hoje é pouco explorado pelo mercado editorial brasileiro. É bom ter também o senso de oportunidade, aproveitar datas e grandes acontecimentos. E o contato com os leitores é importante”, disse.

Jornalismo e marketing
Membro da Academia Paranaense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Gomes trabalhou como repórter e editor em jornais e revistas de grande porte no país. Dessa experiência, tirou as técnicas empregadas em seus livros.

A questão da capa, diz, trata-se de uma técnica jornalística tradicional. “Aprendemos que é preciso atrair o leitor pela capa, pelo título. E livros que queiram se tornar best-sellers têm que incorporar essa fórmula”, disse.

A explicação é semelhante no caso do “senso de oportunidade”. “Em jornalismo, isso é chamado de ‘gancho’. É aproveitar o interesse por um determinado assunto em um dado momento para oferecer livros que se encaixem no tema”. Como exemplo, ele explica que lançou “1808” em 2007, aproveitando que haveria o interesse no tema por conta dos 200 anos da vinda da família real portuguesa para o Brasil.
Depois de produzir a obra com a cabeça de jornalista, ele explica que vem o intenso trabalho de marketing. “Rodo o Brasil inteiro com a divulgação dos meus livros. Fui a 22 estados, fiz cerca de 350 palestras. Livro precisa de boca a boca. É como uma campanha eleitoral, corpo a corpo. Por isso estou sempre aberto a falar sobre o assunto, mesmo quando é para ouvir críticas”, disse.

Segundo ele, essa abertura é não apenas a críticos, mas a todos os leitores dos seus livros. “O contato com os leitores é importante. O leitor percebe que a obra está ligada à imagem do autor. Estou o tempo todo plugado nos meus leitores. Tento responder a todos os e-mails que recebo deles, e isso acaba tendo efeito no mercado. Dá muito trabalho, mas é muito prazeroso”, disse.

De porta em porta 
Depois de vender mais de um milhão de livros, Gomes sabe que teria facilidade de lançar livros por qualquer editora do país. Ele explica, entretanto, que sua entrada no mercado não foi mais fácil para ele de que para outros autores iniciantes. “Fui bater na porta das editoras com meu projeto. A primeira delas recusou, mas logo na segunda, a Planeta, recebi um retorno positivo”, disse.

Gomes discorda da idéia de que é preciso ter indicação para lançar o primeiro livro. “É preciso ter um bom projeto, já ter trechos do livro prontos para servirem de exemplo de como vai ficar a obra e sair batendo de porta em porta apresentando e defendendo seu projeto. Não existe uma conspiração do mercado editorial contra novos autores. O problema é que muitos autores não sabem vender e descrever seus projetos. É preciso ter tudo muito bem pensado.”

Pensar no leitor
Para o diretor editorial da LeYa, Pascoal Soto, é possível um autor estreante se tornar um dos livros mais vendidos do Brasil.

O principal segredo, segundo ele, é bem simples, e segue linha parecida com a de Gomes: “É preciso dominar a língua, ter uma história significativa para contar e saber contá-la de forma acessível. Tem muito autor que não se preocupa com isso e escreve sem pensar no leitor. Para tentar se tornar um best-seller, o pretendente a escritor precisa pensar no leitor o tempo todo.”

A editora em que Soto trabalha é uma das responsáveis pelo sucesso recente do “Guia politicamente incorreto da história do Brasil” e do “Guia politicamente incorreto da América Latina”. Os dois livros receberam críticas negativas na mídia, especialmente sob o ponto de vista da pesquisa histórica e do tratamento dado ao tema. Segundo ele, a crítica é importante para a vendagem do livro, mas a forma como ela afeta o mercado não é tão direta. “Comemorei algumas críticas negativas ao livro. A crítica excita a curiosidade do leitor, e isso é muito bom.”

Segundo ele, o primeiro livro foi ignorado pela mídia até se tornar um best-seller mesmo sem ter destaque dessa forma. “No Brasil, um livro que vende 5 mil exemplares já pode ser considerado um best-seller. É possível alcançar esta marca sem depender da crítica ou da mídia.”

O caminho para o escritor estreante que quer estar na lista dos mais vendidos, segundo Soto, é o método tradicional de mandar projetos e livros prontos para serem analisados pelas editoras. Segundo ele, entretanto, vale a pena buscar apoio para o projeto, mostrar a amigos, escritores, jornalistas e críticos. “O que chega a uma editora sem indicação dificilmente vai adiante. Aqui, recebemos 100 projetos editoriais por mês. É muito difícil avaliar. Tentamos ver tudo, mas é complicado saber o potencial real desses projetos.”

Uma sugestão de Soto é que aspirantes a escritores estudem um pouco o mercado editorial, para conhecer a forma pela qual trabalham as editoras e saber exatamente quem procurar. “Vale procurar os editores para conversar, tentar entender as editoras e saber onde tentar lançar o livro.”



Fonte: G1

5 comentários

  1. Muito interessante e esclarecer esse post. Para quem pensa em publicar um projeto futuramente, como eu, foi de grande ajuda. Obrigada!

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  2. Pois é, Estefânia! Achei essas matérias bem diferentes, com dicasmais alternativas e modernas. Agradeço pelo comentário.

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  3. Eu gostei do trecho que transcrevi abaixo, isso acontece não só na publicação em papel mas na própria internet onde é fácil de publicar um livro. Revisão e copidesque também são essenciais para um escritor. Mas também tem outro lado da coisa, alguns autores consagrados em vida foram um grande fracasso em vendas quando vivos, Nietzsche por exemplo.

    "O lado negativo de tudo isso, segundo a agente literária, é que o trabalho detalhado em cima dos textos, a revisão, o cuidado com cada palavra, está acabando. “Por conta da corrida de ouro para publicar, e da ansiedade”, diz, tudo é feito sem o mesmo cuidado do passado."

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  4. Sim, qualquer um pode publicar um livro, mas nem sempre existe o cuidado com revisão e detalhes. às vezes nem cuidado com a capa, utilizando uma imagem de forma ilegal.

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