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Semana Literária & Feira do Livro do Sesc Paraná 2011

Hoje começa a Semana Literária & Feira do Livro do Sesc Paraná-2011. O evento será simultâneo em 21 cidades do Paraná (veja quais abaixo), de 12 a 17 de setembro, e colocará o público em contato com importantes nomes da literatura nacional. O tema deste ano da Semana Literária, que chega à sua 30ª edição homenageando Antonio Cândido, é Literatura e Sociedade. O CuritibaCultura entrevistou o jornalista e escritor José Castello, que este ano é curador do evento.

Castello destacou a importância da literatura na realidade atual e como o leitor e o público que comparecer ao evento terá contato com discussões que tocarão diretamente numa questão primária, talvez sem uma resposta definitiva, mas essencial: como a literatura transforma a sociedade? Também falou da importância da produção de Antonio Cândido e como este fazia de seus textos críticos um embate direto com questões sociais, sem cair em pedantismo.


Cidades:

Entrevista:


CuritibaCultura: Qual a urgência de discutir as relações entre literatura e sociedade no momento atual?
José Castello: Creio que no século 21 a literatura ganha uma inesperada potência. Não se trata mais de alimentar as ilusões realistas, segundo as quais a literatura devia ser um espelho do mundo e devia mais, devia ser capaz de mudar o mundo. Trata-se de coisa bem diferente. Vivemos em um mundo que se fragmenta, que acelera, que se liquefaz. Um mundo cada vez mais vazio, mas também mais duro. As religiões se tornam cada vez mais dogmáticas e intransigentes. A ciência se torna mais dura e mais pragmática. A filosofa perdeu seu prestígio, ou se tornou uma atividade “de professores”. Nossos instrumentos para interpretar o mundo em que vivemos andam precários. Nesse cenário, a literatura surge como um grande caminho. A literatura aposta no singular, na liberdade interior, no particular. Foge dos dogmas, do pragmatismo, dos sistemas acadêmicos. Em vez de apresentar imagens rígidas do mundo, promove a criação de novas perspectivas e de novos olhares. Em vez de fechar, multiplica. Nunca foi tão importante discutir as relações entre literatura e mundo, entre literatura e sociedade. E nunca a literatura teve tanto a nos dizer a respeito.

CC: No seu texto para a Semana Literária comenta que a literatura é "Lugar do particular, e não do geral, do único, e não das séries e da repetição, ela se oferece, em nosso conturbado século 21, como um poderoso instrumento de interpretação e de desvendamento do real". Na sua opinião as discussões nas mesas podem contribuir também nesse sentido?
Castello: As mesas da semana literária reúnem alguns dos mais importantes escritores do país. Além disso, tratarão de temas que aproximam a literatura da vida. A literatura não é só um objeto de estudo acadêmico. Não é uma experiência “para especialistas”. Ao contrário, o grande leitor é aquele que lê de coração aberto, sem amarras, lê com o espírito livre. O bom leitor é o “leitor comum”, aquele que lê desarmado, e que oferece o peito (a mente) para o impacto que a literatura de qualidade é capaz de provocar. Só assim, quando se lê de coração aberto, a literatura pode provocar, de fato, alguma transformação. Pode expandir o mundo, reinventá-lo, promover outras maneiras de vê-lo.

CC: Reparei que na programação não há nenhuma mesa que tratará diretamente das mudanças da internet na literatura. No entanto, essa me parece ser a questão central quando a discussão é literatura e sociedade hoje. A questão será apresentada em algum momento?
Castello: Creio, pessoalmente, que a relação entre literatura e internet vive, hoje, um inferno de chavões. Fala-se do “perigo” da internet, fala-se do “fim da literatura”, faz-se uma defesa louca dos livros. A tecnologia (a internet) é absolutamente indiferente às nossas reações e posições. É tão estúpido opor-se à internet quando opor-se ao celular, ou aos aviões a jato. De seu lado, a literatura não está sob ameaça, nunca esteve. A internet é apenas mais um instrumento _ um fabuloso instrumento _ que veio expandir o mundo e abrir novas possibilidades para o mundo, inclusive novas possibilidades para a literatura. E só isso. Insisto: a literatura não corre risco algum com o nascimento da internet. Ela está em outra esfera, tem uma potência própria (que é cada vez mais forte) e não sofre ameaça alguma com as mudanças tecnológicas. Seria o mesmo que pensar que a internet pode ameaçar a política, ou a religião. A internet é um veículo, um fabuloso veículo, mas só isso.

CC: O foco em Sociedade e Literatura e a curadoria com escritores reconhecidos pelas obras publicadas parece procurar uma crítica com base na opinião deles dessa relação para o momento. Isso por ser uma homenagem à Antonio Cândido?
Castello: Homenagear Antonio Candido, o mais importante crítico literário brasileiro, é, antes de tudo, um ato de justiça. É homenagear um homem que ultrapassou o estruturalismo, o pós-modernismos e outras modas críticas, e se manteve intransigente em sua análise fina e corajosa das relações entre literatura e realidade. Dizer que ele só se interessa por sociologia é um completo absurdo. Basta lembrar que foi Antonio Cândido o descobridor de Clarice Lispector! Pensar em Cândido é um excelente ponto de partida para pensar as relações entre a literatura e sociedade, a literatura e o mundo contemporâneo. E a idéia da Semana Literária 2011 é justamente essa: jogar a literatura no mundo, ouvir o que ela nos tem a dizer a respeito dessa realidade difícil, mas maravilhosa, que nos cabe viver.

CC: Pode falar sobre a importância de prestar homenagem à Antonio Cândido e a contribuição dele para a literatura e sociedadebrasileira?
Castello: Homenagear Antonio Cândido é, antes de tudo, homenagear um homem que sempre foi intransigente e corajoso na defesa de seu caminho intelectual. Um homem que não cedeu às facilidades da moda, das escolas, dos grupos de influência e se manteve aferrado à sua singularidade. Um verdadeiro escritor, portanto. Um homem que não se deixou impressionar pelo avanço tecnológico, pelas mudanças aceleradas impostas pelo século 21, pelo que se chama ainda hoje de “globalização”. Cândido manteve-se firme em seu caminho, não transigiu, não retrocedeu, não facilitou. Soube sustentar sua solidão e sua voz. Isso o torna tão grande quanto nossos outros grandes escritores. É um homem de imensa coragem, dono absoluto de seu pensamento. Mas é também um homem aberto à vida, ao tempo e às turbulências do real. Não tem uma visão idealizada da literatura, mas conhece de perto sua potência e sabe manipulá-la com mestria e vigor. Em uma palavra: é um mestre. Quantos mestres a literatura brasileira foi capaz de produzir? Não foram muitos. Antonio Cândido é o maior deles.


*José Castello é jornalista, escritor e crítico literário. Mestre em Comunicação pela UFRJ, atuou em veículos como O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil e IstoÉ, entre outros, e mantém a coluna “A Literatura na Poltrona” no jornal O Globo. Castello também é colaborador do jornal Rascunho e do site Vida Breve e autor de “Vinícius de Moraes: O Poeta da Paixão” (Companhia das Letras), “Inventário das Sombras” (Record), “A Literatura na Poltrona” (Record) e “Ribamar” (Bertrand Brasil).

Serviço:
Semana Literária - Feira de Livros 2011
Período: 12 a 17 de setembro
Local: Praça Santos Andrade
Inscrições gratuitas nas unidades do Sesc.

Programação completa:


Fonte: CuritibaCultura e Site oficial do evento.

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